rediagramação Sofia Pato
A pandemia causada pela COVID-19 trouxe muitos desafios. O meio cultural, já sufocado com a instabilidade e a ausência de políticas públicas, também teve que procurar maneiras de se reinventar no atual cenário. Dessa forma, promover uma exposição digital de produções artísticas é de suma importância para fazer com que a comunidade possa reconhecer a importância da classe artística e acesse outras modalidades de produzir cultura, para além das plataformas de streaming.
Apesar de já utilizar o espaço editorial para dar destaque à produção baiana, essa é a primeira vez que a Revista Fraude investe numa mostra de artes integradas e oferece sua plataforma digital para a exposição dos trabalhos. Dessa forma, a 1ª MOSTRA FRAUDE DE ARTES VISUAIS E LITERATURA tem como objetivo possibilitar o acesso à cultura através do digital, buscando transpor barreiras espaciais e físicas e potencializar a produção artística baiana nesse período conturbado.
Aqui estão mais 5 das 10 obras literárias selecionadas para compor nossa Mostra. Para visualizá-las, basta clicar num dos títulos da lista abaixo. Aguardem as próximas e boa leitura!
O velho e o Rádio – Gabriela Cruz
O vento lacrou a única chance de apreciar os últimos raios de sol.
O semblante no rosto da menina sentada no assoalho corria para a frustração e, agora, somente os lampiões da casa de madeira iluminavam seus traços velhos. Ela segurava com suas pequenas mãos o relacionamento mais importante de sua vida, aquele que lhe
alimentava. Ninguém mais preenchia seu vazio, eles se encararam a tarde inteira, a menina e o rádio a pilha.
A menina piscava. O Rádio chiava. Já apertara todos os seus botões e o companheiro parecia não querer mais conversa, ela questionava a reciprocidade daquela relação. A casa de madeira permanecia morta e silenciosa.
Range então a porta. A menina levanta num sobressalto ao ver o estranho adentrar a casa.
Seus traços eram tão velhos quanto os da menina, chegavam a ser idênticos, mas ele tinha seus motivos: era velho. O estranho permaneceria estranho se não colocasse seu casaco no gancho frouxo usual e seria ainda estranho se não seguisse seu caminho imortalmente
automático até a sala. E ele não saberia que aquela menina no assoalho, magra e tão negra, era sangue de seu sangue se ela não o olhasse de escanteio com tanta indecisão.
Ela sempre o espera no mesmo lugar, mesmo que não o legitimamente espere. Ali, seu dia começa. A felicidade balança o corpo da menina, mas se contorce em seu rosto, não é sua intenção demonstrar os efeitos que o velho tem sobre ela. Mas ele sabe, é consciente de sua felicidade. É o único capaz de manusear o rádio a pilha. O velho cedera o Rádio à menina assim como um dia cedeu ao seu filho.
A menina caminha para seu colchão no fim do corredor, deixando o Rádio na sala, como uma mãe aflita num centro cirúrgico. Mas ela confia cegamente no doutor.
Há muito não era necessária a troca de palavras entre os habitantes da casa. Estavam sempre claros seus desejos e necessidades, compreendiam seus deveres, estabelecidos pela tensão nos ombros de cada um. O velho se permite sentar na sua cadeira de metal e gozar dos poucos instantes em que se faz importante no coração da menina. Com o Rádio em seu
colo, faz questão de empossá-lo mais do que precisa. Mexe na antena e na conexão dos fios, muda as estações, enquanto a outra moradora se senta encolhida, atenta a qualquer som que circule no cômodo.
Quando Rádio começa a conversar, a menina engatinha apressada ao começo do corredor, evitando as tábuas barulhentas que podem atrapalhar o monólogo do companheiro.
Observa o velho até que ele põe o aparelho no chão e segue para o outro único cômodo da casa. Esse era sempre o momento da menina, quando ela ia sorrateira buscar seu amigo sozinho, mas ela é interceptada pela fraqueza do velho, que a olha, olhos nos olhos. A menina recua para o corredor, assustada. Esse olhar é tão banal, mas tão significante. Eles vestem um disfarce perfeito, mas compreendem toda a energia que flui pelo ar. O velho sente um prazer caloroso ao se conectar com a menina, um prazer que falece no seu susto.
Finalmente, possuindo o rádio a pilha, a menina fica horas trocando ideias com o amigo. Ele lhe narra jogos que ela nunca assistiria, receitas que nunca faria e lhe conta fatos sobre o mundo que ela jamais exploraria. Ela o escuta com atenção e opina em tudo, opiniões formadas ali mesmo, naquela casa de madeira, pela solidão e pelo próprio rádio a pilha.
Quando o Rádio fala, nada mais importa. Até o bater de panelas e talheres no outro cômodo é abafado pelo seu calor. A menina se aquece com o Rádio no seu tórax, estirada no tapete de crochê, uma tábua no oceano, seu refúgio.
O velho retorna à sala com duas tigelas de arroz e um único pedaço de batata afundado em uma delas. Ele posiciona a refeição premiada junto a menina e senta-se ao lado do Rádio. O rosto do velho não se move, mas ela percebe que seus olhos cumprimentam o amigo. Do Rádio, escapa uma melodia lenta e arrastada, trilhando a cena absurda no assoalho. A
simplicidade daquele momento esmaga seus corpos, os olhos dos habitantes passeiam por todo o cômodo sem esbarrar uma única vez, se evitam naturalmente, num instinto.
A menina deveria estar tranquila, como seu companheiro sempre a deixa, mas uma súbita e inesperada agitação toma conta de seu corpo e sua adrenalina atinge níveis estrondosos.
Seu coração dá início a uma sequência de golpes contra suas costas e seios de criança.
Como um incentivo à sua loucura, os moradores da casa finalizam suas refeições e tomam caminhos diferentes e distantes naquele espaço tão pequeno. O instinto feminino e humano que possuiu a menina foi cuspido em sua cara pelo Rádio, que sussurra sedutoramente, um
chamado de fuga, incitando o pecado, atraindo-a à rebeldia. Pela primeira vez, a menina sabe o que quer.
Naquela noite, ela partiu.
A menina leva consigo tudo o que tinha: o rádio a pilha. Saiu como uma criminosa arrependida: pela porta da frente.
O velho não precisa procurá-la na pequena cozinha ou na casa de banho lá fora. Ele sente sua falta tão intensamente quanto sentia sua presença ausente todos os dias. Quando o desejo de fuga se alimentava da menina sem ela ao menos perceber, o velho já sentia o cheiro singular exalando de sua pele. Ele já tinha acomodado sua insegurança nesse cheiro
que, por fim, sumira.
Ele vai até sua cadeira e mastiga, sem querer engolir, o gosto amargo do silêncio e deixou-se esquentar o rosto com o lamento dos seus olhos. O Rádio fora a trilha sonora de sua vida por muito tempo e, agora, suas orelhas dilatam no vazio.
O velho lembra do corpo menino que um dia carregou seu espírito e lembra do Rádio, seu único amigo. Lembrou também do dia que entregara o rádio a pilha ao seu filho, como foi abandonado, como chorou sua morte e como criou a menina, tão igual a ele, amaldiçoada com a solidão. Ele sabia que o Rádio a conquistaria, como ele foi conquistado. Mas com a menina foi diferente, ele conversava com ela como nunca fez com o velho.
Sentia-se confortavelmente triste, pois é o sentimento que domina e não o incomoda senti-lo. Seu antigo companheiro está distante, calmo, nos braços da menina. Mesmo sendo carregado, ele que a leva.
Pelas ruas, a menina acha tudo lindo, acredita ser a noite mais atraente que já viu, era como se nunca tivesse visto a lua ou as estrelas, ela as enxerga. O Rádio lhe fala histórias das pessoas que há anos habitaram aquelas ruas, fala dos astros e a guia por caminhos que ela nunca viu. Sentam-se juntos num píer, longe das casas de madeira, queriam ver o
amanhecer. A menina observa a força do mar, como ele agride violentamente as pedras e os pilares do píer, por que tanta fúria?
A audição está atenta a qualquer nova instrução do Rádio, mas seu amigo está quieto e ela lembra: é incapaz de chamá-lo. Ele desperta com um idioma que ela não conhece. O único motivo que a fazia sentir falta do velho era o mais importante de sua vida. Ela se sente presa à sua incapacidade, presa ao velho.
Remexe o Rádio e permite que seu chiado tome conta de toda sua mente. Ela torna-se o chiado e passa a emiti-lo num ruído enlouquecedor. Ela grita pra que seu amigo se cale, ele não obedece, é um rádio a pilha enfurecido.
Ela enxerga o mar, também enfurecido, e lança-se em seus galopes, uma tentativa fatal de abafar os chiados.
O Rádio continua seu estardalhaço até o almejado nascer do sol, quando o velho o resgata, mas a menina já não é capaz de ouvi-lo.
Por Gabriela Cruz
como gozar com deus vendo – Pedro Augusto Pinto Luz
sempre que estava ocioso
amarrava o braço em borracha cirúrgica
e reintroduzia em suas veias, em seu sistema,
culpa cristã, envenenando as células sanguíneas e
desencadeando, em seu organismo, o horror:
pedir perdão e deixar de pecar,
ou para melhor entender, um raio despenca do céu
em fendas secas no seu jardim, de onde crescem
quebra-pedras, trevos e agora começam a sair,
de lá, os ombros de uma criatura antiga, muda,
que dorme com a língua enrolada numa súplica
“perdoa-me, pai”;
este é um pesadelo pagão.
sonha que é um touro,
ergue o seu lombo antropomórfico e
desloca as mãos deslizando-as, do lado dos quadris
passando pelos seios em direção aos chifres, imensos,
é vênus em júbilo.
o corpo cansado descansa sobre a pedra morna
ao entardecer e respira junto à terra;
a blusa, quase completamente desabotoada, está amarrotada e um pouco suja de sangue
porque o corpo está sempre
pingando evidências.
retrato do artista quando goza: momento em que percebe a divindade de si. fluindo, suspensa, emaranhada em narrativas antagônicas que formam uma cama de gato, gostosa de cair.
o sol banha seu corpo pagão, selvagem como mel quente, escorrendo pelo emaranhado, no processo alquímico de fazer o mel e o pecado tomarem parte na mesma emulsão;
saudoso langor do astro-rei que não derrete mas dá firmamento à pele e ao bem-querer para cair, então,
diretamente
nos olhos
de deus.
“nada mais bonito do que poder te ver contente.”
ele acorda,
serve a si mesmo uma caneca de café, e brinda
essa força estranha,
esse portal em vias de não ser,
através do qual as coisas belas e prazerosas secam, ressentem-se e perecem.
lambe os lábios e é doce,
finalmente.
Por Pedro Augusto Pinto Luz
Medium: https://pruxto.medium.com/
Buraco – Rafael Alves Campos
Era um buraco raso. Tenho certeza que cavei com os dedos todos os dias. O solo fofo e firme que reluzia ajudara, mesmo que minhas mãos limpas não entregassem sujeira. Será que peguei em pá? Tanta terra…nem lembro. Sei que estava ali, em pé no meio do pó, distraído. Quando eu fazia algum sinal, alguns se curvavam para ver por uns instantes e logo passavam. Lembro que pedia pra sair mas minha voz soava distante, vaga, por vezes até cômica. Quem ouvia se identificava, sorria mas esquecia e continuava seguindo.
Esclareço que não era difícil sair. Um movimento de mãos e algum esforço bastavam, mas aquela terra toda me deixava repleto. Cada grão de areia era tão precioso, era como o mapa de algum tesouro que se dissolve no agora. E eu precisava muito de cada um, urgia por todos eles, mesmo que assim chegados à palma da minha mão, não desse muita atenção. Logo esquecia dessa ampulheta esvaziada. Queria outra. Por isso, seguia cutucando atrás de mais terra, embora já não fosse capaz de achar muita coisa. Até o que parecia de longe diferente logo perto ficava igual. É que quem achava muito por ali, mesmo desprendido e desesperado, não conseguia mostrar nada pra alguém porque tinha muita terra entre os buracos e isso prejudicava as vistas.
Um dia, cheio de tudo, com a cabeça rolando como uma linha do tempo sem fim, decidi sair um pouco do buraco, esticar as pernas. Não demorou muito e senti falta, como se o solo pedisse que eu deslizasse pro seu seio. Desterrado, não sabia bem o que fazer, era fim do fim de. Parecia meio sem sentido olhar em volta e não ter terra até o topo, ainda mais por que quase nenhum olhar pairava sobre mim ou quando parava, se demorava tanto, que eu sentia muita falta de cavar, a ponto de desviar o olhar pra baixo. O tempo se dilatava então e eu queria me enterrar vivo, de pressa. Daí eu dava qualquer desculpa e me aterrava do novo.
Depois desse desastre, decidi voltar pro buraco e sei que nunca tomei uma decisão tão confortável. Fui super bem recebido. Mais sorrisos ligeiros que o normal vinham de cima, até disseram sentir minha falta. Para eles eu parecia limpo demais, diferente demais, e queriam muito que eu me enchesse logo de pó. Com toda a minha liberdade de tatu obedeci. Assim, de volta ao cava cava e ao fuça fuça, me borrei de terra também. E fui quase feliz no meio daquela terra toda.
Por Rafael Alves Campos
Instagram: @princeso_do_sertao
Vitrine – Kukua Dada
Me sinto vitrine quando você bate na minha porta ou no meu vidro
Para saudar ou para só olhar
Me sinto apenas cortejo quando vejo que o receio farto do outro se refrata em mim
Ou se reflete e eu me piro
Largar algo seu que o outro vê
É se largar?
“Marreta logo esse peito”
Esse refrão entoa nos meus neurônios
Como se fosse possível realmente você quebrar o vidro à prova de impacto que eu sustento o dia inteiro.
Vidro esse que levanto para evitar fadiga sua.
E também penso comigo:
Essa vitrine que permite que não me toques
Quando a derrubo e te alcanço
A mesma que permite que eu te veja e você a mim
O que sou sem ela?
Boneca, bruxa, maligna, magnífica?
E quando você bate no vidro, eu cogito:
Esse vai me comprar.
Vai crer em mim e me levar a seu templo
A seu corpo-casa
Nem que seja só para o abraço que me falta
E o descarte após, mereço?
Dos erros que cometi minha aparência tomou frente para as marcas
Por isso muitas olham ou até passam o olho quando olham minha vitrine.
A boneca Dada
É praticamente de graça.
Será que a boneca usada que me sinto ser
Existe porque lá no fundo eu me sinto utilizando as pessoas mesmo quando passam na vitrine?
Terrível esse dilema.
E se nem o amor, mas sim o afeto
For algo tão precioso e a boneca aqui normalmente
Fica sem poder terminar dizer o que passa em sua mente
Um eu te amo, eu te adoro ou um posso te abraçar? É isso, sou vidrada.
Enkantada, Kukua Dada.
Por Kukua Dada
Suçuarana -Lara Celina da Silva Ferraz
batia os pés descalços no chão
sentia o sangue ferver
ouvia as palmas de inexistentes rastos
de quem fui, de quem era, de quem poderia ser
abrir os olhos não lhe satisfez
e entrou no escuro de sua solidão
movimentava o corpo com tamanha precisão
que se viu livre pela primeira vez
corria a noite em sua pele
corria o dia em suas mãos
o sangue quente outrora febre
se viu sem fé como em tantos cristãos
olhou no espelho e não reconheceu
aqueles passos desesperados
decidiu-se que se esqueceu
daqueles seus abraços em forma de dia
nublados
seus braços corriam de um lado pro outro
dançava como que desviando das surras
deixava seu cavalo sempre solto
pés que pisam no chão com ataduras
queria gritar, calou-se a voz
girou aberta como uma ave veloz
se viu descoberta como quem pare um filho
se viu descoberta. eram cacos de vidro
repousou no vento com o colo de seu útero
as dores dos escravos corriam em seus músculos
seu ventre ardia, aborto, outro luto
mulher vadia, tuas lágrimas eram surto
a ciência diria como se isteria
mas o sangue entre suas pernas, bruto, corria
ela também, correu pra fugir
presa em si, naquele corpo violado
invadiram seu corpo com tanto cuidado
que ninguém sequer notara quem foi o pobre coitado
gritar pra que? ela também o temia
caiu no chão, fraca, pele e osso
queimem as bruxas, ateeia em fogo!
eu sei que você sente, meus ancestrais
eu sei
mas quem cala consente e eu não ouço vocês
calaram suas vozes no passado, também sei
Deus de pregos na cruz também disse que pequei
me jogaram no fogo
me queimaram a pele
me jogaram no fogo
quem quiser que negue!
a prova que fui queimada
está não só nas minhas palavras
mas no cor da melanina
preta. escura. silenciadas.
gritaram pra mim: a queimem de novo!
dessa vez gritei de de volta: BRUXA DE FOGO!
soltei-me das amarras
de todas que puder pensar
meu coração que disparava
não podia mais parar
sorri pro tempo
era filha dele
minha mãe que me guarde
também, tempestade
no colo de Oyá me ergui pois saberia
que se ela até ela ganhou guerra
porque eu não a faria?
há quem confunda a força bruta
com uma tal de teimosia
mas quem é de guerra não foge da luta
mata e come, todo dia
foi então que percebi
que aqueles que foram calados no passado
voltaram em outros corpos e me passaram um recado
cuide de si, de seus irmãos e de quem te protege
pois quem quiser que me pegue
agora eu sou é alma livre.
quem quiser que ache que é fuga
que ando como quem se esconde de ser caçada
quando me acharem dirão que sou bruta
e direi a eles que quem caça me protege
que a cruz não mais me serve
que seu deus não mais me rege
pois a fogueira que fui queimada
fez de mim dona de espada
é Iansã que me protege.
nunca mais calei a voz
abri os olhos em tom feroz
ainda dançava, sozinha, na sala
sorri fascinada e nem precisei falar nada
quem visse de alguma janela não entenderia nada
mas naquele instante mexendo meu corpo
sob o som do sotaque, do timbre do sertão
eu soube aqui dentro do coração
que fui todas essas mulheres
que a mim me cabe ser
e com todas elas
e por todas elas
vou dançar pra você ver.
Por Lara Celina da Silva Ferraz
Instagram: @sussuaranapoeta
