texto Leonardo Costa
Publicado em 09.04.2021.
No intuito de reunir um interesse pessoal, a série Grey’s Anatomy, com o aprendizado e o aprimoramento de uma ferramenta muito utilizada em análise de rede social, o Gephi, vamos explorar neste texto os dados sobre os relacionamentos amorosos que os personagens tiveram ao longo de 17 temporadas. São 374 episódios, nos quais podemos acompanhar os médicos do Grey Sloan Memorial Hospital nos seus dramas diários, que não poderiam deixar de incluir as suas relações sexuais com outros médicos, pacientes, socorristas, bombeiros…
Enfim, aqui o ditado de que “onde se ganha o pão não se come a carne” não serve para muita coisa…Como esquecer, ainda na primeira temporada, do nono episódio Who’s Zoomin’ Who?, no qual George O’Malley contrai sífilis a partir do relacionamento com a enfermeira Olivia Harper, que também se encontrava com Alex Karev. Nada melhor do que mapear a rede de relações para tentar controlar uma possível epidemia de doenças sexualmente transmissíveis na série.

Quando tivemos essa ideia, fomos primeiro pesquisar na web se algo já tinha sido feito nesse aspecto. Localizamos dois textos: Grey’s Anatomy Network of Sexual Relations1, de 2011, e Lessons on exponential random graph modeling from Grey’s Anatomy hook-ups2, de 2012. Como estamos em 2021 e a série está lançando episódios novos a cada semana, atualmente na sua 17ª temporada, podemos perceber que ambas as redes nos textos encontrados estão desatualizadas. Então, que tal o exercício de atualização?
Para ajudar na construção da rede, utilizamos as informações de relacionamentos amorosos (que vão desde a troca de beijos até as relações sexuais) presentes no site Grey’s Anatomy Universe Wiki3, afinal, a memória não ajuda muito quando se tem 374 episódios (e ainda contando) para discorrer. O texto Lessons on exponential random graph modeling from Grey’s Anatomy hook-ups também nos ajudou na construção da base de dados, pois os dados que ele utilizou para criar os grafos em 2012 foram disponibilizados de forma pública.
Para criarmos o grafo desses relacionamentos, primeiro organizamos uma matriz quadrada com elementos 0 e 1, onde o 1 representa a relação entre dois personagens da série. Essas matrizes são conhecidas como grafos dirigidos. Cada personagem é representado por um nó na rede, e a sua relação é representada por uma aresta. Temos um total de 78 nós (personagens mapeados) e de 176 arestas (relações amorosas entre eles) na rede.
Os dados foram tratados no Gephi, com o algoritmo de distribuição Force Atlas (força de repulsão, para os nós não ficarem sobrepostos), e executamos as opções “Grau Médio” e “Modularidade”. Utilizamos a modularidade para colorir o grafo e, com isso, poder diferenciar as comunidades através de cores. Alteramos o tamanho dos nós, através do grau médio, para nos ajudar a identificar graficamente os nós com maior número de conexões (maior grau). Após essas alterações nas métricas, chegamos à figura abaixo (clique na imagem para ampliar ou clique aqui para poder navegar na rede).

Na rede é possível perceber um grande grupo principal conectado e outros três grupos menores. Essas comunidades menores são de personagens da série cujas relações amorosas não se conectam com as dos demais. Um dos grupos é o do Dr. Richard Webber; o segundo é o da Dra. Miranda Bailey, e o terceiro da Dra. Megan Nowland. Com exceção do terceiro grupo, o Dr. Webber e a Dra. Bailey demonstra que, por mais que estejam presentes em todas as temporadas da série até então, os seus relacionamentos não se misturam com os demais.
Um atributo importante na análise de redes, a Centralidade de Grau, mede o número de arestas incidentes sobre um nó para identificar, no nosso caso, os personagens que têm um maior número de conexões amorosas com outros personagens. Relacionamos ainda a este dado o número de episódios de que o personagem participou, através da ficha técnica completa no IMDb. Os três personagens com maior centralidade de grau são os médicos Alex Karev, Mark Sloan e Jackson Avery — sendo que dois deles chegam a ser considerados como “mulherengos” em alguns episódios da série. Os três têm relacionamentos heterossexuais. Outro conhecido “galinha” da série é o Dr. Tom Koracick, o personagem que participou de menos episódios dentre aqueles com maior centralidade de grau.
Na sequência, do terceiro ao oitavo lugar, temos cinco mulheres com centralidade de grau. Duas delas com relacionamentos bisexuais ao longo da série – um fato antigo na vida da Dra. Altman mas que só descobrimos recentemente através de flashbacks, e três com relacionamentos heterossexuais. Cabe ressaltar que a personagem título da série, Meredith Grey, por mais que tenha participado dos 374 episódios, está na oitava posição dessa lista, muito possivelmente por ter estado num relacionamento fixo em boa parte da série – até o fatídico episódio que tem a menor nota de todos no IMDb, 4,9. Afinal, não é fácil construir uma carreira médica e uma família com três filhos…

Tabela: Centralidade de Grau e número de episódios que o personagem participou
| Personagem | Centralidade de Grau | Participa de quantos episódios4 | |
| 1 | Alex Karev | 22 | 358 |
| 2 | Mark Sloan | 16 | 138 |
| 3 | Jackson Avery | 16 | 267 |
| 4 | Teddy Altman | 12 | 123 |
| 5 | Callie Torres | 12 | 241 |
| 6 | Cristina Yang | 12 | 222 |
| 7 | Maggie Pierce | 12 | 155 |
| 8 | Meredith Grey | 12 | 374 |
| 9 | Owen Hunt | 10 | 294 |
| 10 | Arizona Robbins | 10 | 225 |
| 11 | April Kepner | 10 | 202 |
| 12 | Tom Koracick | 8 | 54 |
| 13 | Amelia Shepherd | 8 | 160 |
| 14 | Izzie Stevens | 8 | 121 |
| 15 | George O’Malley | 8 | 104 |
| 16 | Jo Wilson | 8 | 200 |
Mesmo com três homens encabeçando a lista de centralidade de grau, não seria uma irresponsabilidade afirmar que a série busca desenvolver uma narrativa que não se foque em relacionamentos heteronormativos, inclusive com momentos importantes como a construção da personagem Callie Torres e o processo de aceitação da sua família. Na lista de centralidade de grau não temos representados relacionamentos homoafetivos entre homens, fato também explorado na série, só que numa quantidade de tempo menor.
A série criada por Shonda Rhimes de algum modo trouxe (e continua trazendo) representatividade e diversidade para o horário nobre da televisão aberta norte-americana. E, se dependesse de mim, seguiria por mais temporadas!

1 Disponível em: https://gweissman.github.io/post/grey-s-anatomy-network-of-sexual-relations/. Acesso em: 07 abr. 2021.
2 Disponível em: http://badhessian.org/2012/09/lessons-on-exponential-random-graph-modeling-from-greys-anatomy-hook-ups/. Acesso em: 07 abr. 2021.
3 Disponível em: https://greysanatomy.fandom.com/wiki/Grey%27s_Anatomy_Universe_Wiki. Acesso em: 07 abr. 2021.
4 Disponível em; https://www.imdb.com/title/tt0413573/fullcredits?ref_=tt_cl_sm#cast. Acesso em: 07 abr. 2021.
