26 de agosto de 2021

QUANDO O ABISMO OLHA DE VOLTA

By In Petalhada

Crise gerada pela pandemia ameaça trabalhos de ONGs e protetores de animais

texto Iamany Santos, João Vítor Sena e Stella Ribeiro
rediagramação Henrique Carneiro
Publicado em 26.08.2021.

No início da pandemia de COVID-19, a protetora de animais Dayse Deway da Rocha participou do resgate mais impactante de sua vida. Nas primeiras semanas de abril, ela encontrou o cachorro do vizinho, Bob, abandonado após a separação de seus tutores. Até a sua chegada, o animal havia passado 15 dias dentro de um posto de gasolina, impossibilitado de se mover devido a um atropelamento que o deixou com fraturas múltiplas pelo corpo. Com seus recursos e apoio de amigos, Dayse custeou o tratamento, mas Bob não resistiu e morreu no dia anterior à cirurgia. 

Segundo a protetora, casos como esse passaram a ser cada vez mais recorrentes durante a pandemia. Dados apresentados pela Brigada K9, instituição de bombeiros voluntários da Bahia, confirmam um aumento de mais de 800% no número de animais abandonados em Salvador entre março e abril de 2020, em comparação ao mesmo período de 2019. As principais causas para esse crescimento foram as separações de casais geradas pelo confinamento, a morte de tutores pela COVID-19 e a desinformação quanto à hipótese de transmissão da doença por animais de estimação, aponta Dayse.

A vice-presidente da ABPA, Associação Brasileira de Proteção Animal, Fernanda Souza, também observa esse efeito da pandemia. “Em março de 2019, tínhamos cerca de 10 abandonos em média por mês. Já em março de 2020, começamos a ter o dobro, havendo meses com número de abandonos superior”, afirma. A pandemia acentuou o abandono de cães e gatos mais velhos. Para Fernanda, esses abandonos têm em comum o empobrecimento das famílias, que devido à pandemia ficaram desempregadas ou tiveram seus salários reduzidos, tornando-se incapazes de cuidar de seus animais.

Atualmente, a ABPA enfrenta uma lotação nos alojamentos o que dificulta o resgate e a proteção de mais cães e gatos. Sem estruturas adequadas para abrigar seus 400 animais, a Associação os acolhe de forma emergencial, em canis e gatis improvisados. Clarissa Pires e Suze Tavares, voluntárias chefes da UPAS, União de Proteção Animal de Salvador, passam por um problema parecido. Sem um abrigo fixo, a UPAS aloca seus 120 animais nas casas dos voluntários, para evitar que eles sofram com a falta de espaço.

De acordo com Suze, essa é uma dificuldade que afeta diretamente a saúde e o bem-estar de cães e gatos: “O convívio de muitos animais em um espaço pequeno os deprime e os estressa. Eles se lambem compulsivamente, mordem, machucam e brigam entre si”. Fernanda, cita a história da gata Cibele como uma consequência disso: “Ela foi expulsa do abrigo por outros gatos e passou a noite na chuva, quase vindo a óbito por hipotermia. Hoje, está com problemas neurológicos e é agressiva com outros animais”. 

Contas não fecham

De acordo com o site da ABPA, as despesas da ONG demandam, em média, R$ 50 mil reais por mês. A vice-presidente da organização, diz que os gastos sempre superaram a arrecadação em uma média de três mil reais. Mas, durante a pandemia, com a queda de doações por empresas parceiras, as contas ficaram ainda mais altas. ‘‘Cinco empresas com que tínhamos parcerias faliram. Nós sentimos bastante, pois passamos a comprar algumas coisas que não comprávamos antes’’, lamenta.

Quando se fala dos protetores independentes, a situação é ainda mais complexa. Eles, diferentemente das ONGs, não têm um Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica, CNPJ. A falta deste registro, necessário para a compra de produtos a preço de atacado, oferece um desconto de 20% sobre o valor de rações e medicamentos no varejo. Um pacote de ração premium, a mais utilizada por protetores e ONGs, varia de R$200 a R$700 no varejo. Mas, no atacado é vendido por uma média de R$ 450.

Apelo da protetora Dayse Deway por doações em seu Instagram. Crédito da imagem: @dewayprotecaoanimal

Suzana Rodrigues, protetora há quatro anos, afirma que é difícil arrecadar dinheiro para lidar com suas despesas mensais de quase R$2.000 só em ração. Sem CNPJ, ela gasta de R$40 a R$140 a mais por pacote. Autônoma desde 2016, ela viu a busca por seus serviços reduzir com a chegada da pandemia e, hoje, arca com os custos dos animais com a ajuda de amigos e familiares. Diante da falta de alternativas para aumentar o orçamento, ela se desfaz de objetos pessoais em rifas. “Vendi meu celular bom e comprei um de segunda mão, na OLX. A diferença do dinheiro eu investi nos animais”, conta.

Rifa realizada pela protetora Suzana em sua Instagram para ajudar um de seus animais. Crédito da imagem: @supetsitter

Mudanças Necessárias 

“Não há, em Salvador, uma clínica, para onde eu possa levar qualquer animal doente e ter um atendimento gratuito”, queixa-se Dayse Deway. Para tutores, ONGs e protetores de animais, a falta de hospitais públicos para atendimento veterinário é uma das lacunas do poder público. O valor de uma consulta em uma clínica veterinária privada pode variar de R$ 80 a R$ 300, dependendo da situação. Os resgates fazem parte da rotina de ONGs e protetores e, nesses casos, a despesa pode ser ainda maior, porque a internação de um animal custa em torno de R$ 300 por dia e as cirurgias chegam até R$ 5 mil.

A castração de animais faz parte das medidas de prevenção a doenças e manutenção de políticas públicas. Segundo Clarissa, da UPAS, o procedimento custa a partir de R$ 80 em clínicas privadas, e varia de acordo com o peso do animal. De forma gratuita, esse serviço é oferecido pela Prefeitura de Salvador, através do Castramóvel, porém, é limitado a três castrações de animais por tutor. Para Dayse, a ação é ineficiente, pois não atende à demanda de protetores e ONGs que chegam a abrigar dezenas de animais.

O acesso à vacinação também é outra queixa de ONGs e protetores. Doenças como  a raiva, a cinomose e a parvovirose são preveníveis com vacina. Entretanto, não há imunizantes gratuitos para todas as doenças. A vacina viral, por exemplo, custa entre R$85 e R$100 e deve ser aplicada regularmente, apesar disso a única que se pode conseguir gratuitamente é a antirrábica. Suzana afirma: “O animal precisa tomar três doses, que custam R$90 cada. É complicado. Não é possível. Só rico pode ter animal?”, questiona. 

Todos esses custos fazem parte do processo de preparação de cães e gatos para adoção. Segundo Suze Tavares, antes da pandemia era exigida somente a castração para doar o animal. Porém, devido à restrição nos pontos de adoção e às exigências de alguns parceiros, hoje, é necessário a castração, vacinação e microchipagem – introdução de um microchip, do tamanho de um grão de arroz, sob a pele dos animais para identificação eletrônica –  o que aumenta as despesas.

Para contribuir com o trabalho das ONGs e protetores

ABPA:
Instagram: @abpabahia
Site: www.abpabahia.org.br
Chave Pix: 01.892.365/0001-30
Contas: Banco do Brasil, agência 3459-2, conta corrente 90517-8; Bradesco, agência 0662, conta corrente 4354-0

UPAS:
Instagram: @uniaodeprotecaoanimalsalvador
Site: upasbahia.org.br

Dayse Deway:
Intagram: @dewayprotecaoanimal
Chave pix: 507. .281.725-34

Suzana Rodrigues:
Instagram: @supetsitter

2 Comments
  1. Roberta Elizabeth 26 de agosto de 2021

    Ótima matéria, é realmente uma pena que tudo isso venha estar acontecendo principalmente com os bichinhos que não tem culpa. Vamos ajudar a divulgar!

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  2. Dayse 26 de agosto de 2021

    Oi pessoal, vcs arrazaram!!! Sintetizou e passou a mensagem clara , e profunda! Gratidão a vcs por se dedicarem a expor as nossas necessidades! . Sucessos em vossas caminhadas ????

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