Como ficou a atuação das ONGs e como seus trabalhadores e assistidos se adaptaram à pandemia
texto Ana Paula Vergasta, Mariana Brasil e Tiago Freire
Fotos de capa: Ronei Maciel, Maria Tarino e acervo pessoal Oficina de Jesus
rediagramação Henrique Carneiro
Publicado em 02.09.2021.
Desde trabalhos paralisados até a criação e o desenvolvimento de novos projetos, os desafios encarados pelas ONGs durante a pandemia de Covid-19 foram um misto de surpresa e urgência. A fome, o desemprego e as novas demandas trazidas pelo coronavírus como a entrega de cestas básicas, máscaras e álcool em gel fizeram com que as organizações mudassem suas prioridades e sofressem algumas limitações. “A instituição ficou mais restrita. Ninguém sabia como a doença iria se comportar”, diz Gabriela Sena, do grupo voluntário Oficina de Jesus, que costumava fazer ações presenciais em orfanatos de bairros carentes de Salvador.
Os problemas enfrentados foram de caráter imediato e exigiram mudanças no trabalho original das organizações. A TETO, ONG conhecida pela construção de casas emergenciais em comunidades, precisou ampliar sua atuação para além das construções: “Acho que a prioridade logo de cara foi a fome. É difícil a gente colocar numa balança o que é mais urgente, a fome ou ter onde morar, ter uma moradia digna”, diz Carolina de Deus, coordenadora comercial da TETO Nordeste.
Comida
A urgência da fome fez com que alguns projetos das organizações precisassem ser paralisados. A TETO montou uma campanha de arrecadação de cestas básicas para as comunidades, que levantou mais de meio milhão de reais, o que possibilitou a entrega de 19.469 cestas básicas. “Eu sei que não é o ‘carro forte’ da TETO, mas ela contribuiu muito em não deixar faltar, nessa pandemia, o alimento na nossa mesa”, diz Josenildes, 51, líder comunitária da Manoel Faustino, uma das comunidades onde a TETO atua. Simultaneamente, a ONG iniciou na Bahia alguns de seus projetos de infraestrutura que se ligavam diretamente ao combate à doença. “Lavatórios, captação de água da chuva e hortas e os próximos vão ser provavelmente banheiros comunitários”, afirma Carolina.
O grupo voluntário Oficina de Jesus também tem trabalhado no combate à fome em bairros carentes de Salvador, com entregas mensais de cestas básicas. Porém, tem se tornado mais difícil conseguir montar as cestas. “Com a inflação, os preços subiram e hoje o alimento está muito caro”, afirma Gabriela Sena, fundadora e membro do grupo. Esse aumento tem agravado o quadro da fome no país que, de acordo com Daniel Balaban, representante do Brasil no Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (WFP), agora apresenta um quadro de aproximadamente 9,5% da sua população em estado de subalimentação, uma situação que tende a piorar.

Reprodução: Instagram @oficina_de_jesus
Higiene e orientação
O trabalho de prevenção à Covid-19 também foi destaque nos projetos das organizações. Mesmo quando os decretos de segurança limitaram eventualmente os contatos presenciais, o trabalho continuou sendo feito. “Teve a comunicação. Não faltou suporte de maneira alguma”, conta Josenildes. Já nos momentos em que foi necessário o combate direto à Covid, a contribuição das ONGs também foi intensa. Nas comunidades da Península de Itapagipe, a distribuição de máscaras e álcool em gel foi essencial para controlar a circulação do vírus. “Só no nosso trabalho de distribuição de kits de higiene para as famílias foram 4.000 sabonetes e 2.500 máscaras”, afirma Diorgernes Reis, colaborador da Associação de Moradores do Conjunto Santa Luzia. Os representantes do grupo acreditam que, se esse trabalho de prevenção destinado aos moradores não estivesse sendo feito, mais pessoas da região estariam morrendo em decorrência da doença.
O trabalho voltado para Covid também foi adotado pela TETO que, juntamente com a entrega das cestas, distribuiu máscaras e produtos de limpeza. Somado a seu novo projeto de captação de água da chuva, essas medidas facilitaram a vida dos moradores das comunidades contempladas pela ONG. Por já enfrentarem problemas com a água, e com o agravamento pelas demandas da Covid, a comunidade Manoel Faustino não teve dúvidas ao escolher o projeto a ser desenvolvido com a TETO: “A captação de água foi a mais cotada de todos”, diz Josenildes. A líder da Manoel Faustino ainda descreve como o novo sistema está sendo motivo de orgulho para os moradores, visto que qualquer pessoa que chegue lá e procure saber “que canos são aqueles?”, já há quem se prontifique a dizer que é fruto da ajuda que a TETO está dando. Nessa prevenção, a ocupação também contou com o apoio do MSTB (Movimento Sem Teto da Bahia), que forneceu álcool 70 para os moradores.


Fotos (da esquerda para a direita): Ronei Maciel e Enrique Rodrigues
Desemprego
Uma pesquisa feita pela TETO, em parceria com a FGV (Fundação Getúlio Vargas), aponta que nas comunidades em que ela atua, 45% da população economicamente ativa não está trabalhando. 75% dos entrevistados também declararam estar ganhando menos do que no começo da pandemia. Os dados evidenciaram a necessidade de amparo daquela população de forma mais intensa, como afirma Enrique Rodrigues, voluntário de gestão comunitária: “Foi muito conversado com as comunidades sobre trabalho. É muito importante essa entrega de cesta básica nesse momento.”
O desemprego também afetou o trabalho do grupo Oficina de Jesus, visto que muitos que apoiavam o grupo sofreram com a perda de emprego. “As pessoas que nos ajudam também têm as suas dificuldades. O desemprego aumentou e os salários foram reduzidos”, diz Gabriela. Não somente em mão de obra, como também em termos financeiros, o desemprego impactou a quantidade de doações recebidas, que se tornaram ainda mais necessárias com o encarecimento das cestas básicas.
Surpresa
O recebimento de doações, principal fonte de renda de grande parte das instituições, também sofreu mudanças durante a pandemia. Mas, a internet e as redes sociais possibilitaram a manutenção das usuais ações e campanhas de doações. A Coleta, período especial de arrecadação da TETO, originalmente feita nas ruas e sinaleiras, foi redesenhada para se adaptar ao ambiente online. A consequência negativa dessa mudança foi a restrição do público doador. Se antes, na sinaleira, existia contato com todo tipo de público, hoje a doação é restrita a amigos, familiares e pessoas que já conheciam o trabalho das instituições. Mesmo assim, foi possível manter o processo e o resultado foi surpreendentemente positivo, superando as expectativas dos trabalhadores da organização. “Acredito que o próprio momento já traz essa visão de solidariedade para as pessoas, de que a gente está passando perrengue junto, mas que existem pessoas que estão enfrentando uma luta diária mais difícil do que a nossa”, diz Enrique.
Apesar dos efeitos gerados pela falta de emprego, pela restrição do público doador e as instabilidades generalizadas que o período proporcionou, os grupos voluntários se depararam com um contraste da pandemia: o aumento da solidariedade. A surpresa também foi sentida pelos trabalhadores da Associação de moradores do Conjunto Santa Luzia, instituição que mobiliza os moradores da região pela luta de direitos básicos, como moradia e saneamento básico, como é destacado pelo gestor de turismo Danielson Mousan: “As pessoas estão doando cada vez mais, por entenderem a necessidade do momento”.
Para contribuir com o trabalho das ONG’s:
TETO:
Instagram local: @oescritorioba
Instagram nacional: @teto.br
Site: techo.org/brasil /
Doe em: techo.org/brasil/doar/
Associação de Moradores do Conjunto Santa Luzia:
Instagram: @amcsanta_luzia
Site: associacao-santa-luzia.webnode.com
Oficina de Jesus:
Instagram: @oficina_de_jesus
Chave Pix: oficina_de_jesus@outlook.com
Matéria produzida em junho de 2021

Perfeito, informativo e orientador…
Muito legal o texto. Conciso e informativo.