30 de setembro de 2021

INJEÇÃO DE R$31 MILHÕES EM AUXÍLIO EMERGENCIAL MUDA ECONOMIA DE MAIRI

By In Petalhada

Concessão e término do incentivo federal movimentam a economia do município aos extremos 

Por Isis Cedraz
Foto de capa: Mairi News
rediagramação Henrique Carneiro
Publicado em 30.09.2021.

No ano de 2020, a população de Mairi, centro-norte da Bahia, recebeu no período de 9 meses (de abril a dezembro) o aporte de aproximadamente 32 milhões de reais (R$31.876.914,00) em auxílio emergencial, de acordo com o Portal da Transparência. Esse valor equivale a 67,5% de toda a receita arrecadada pela prefeitura em todo o ano de 2020 (R$47.175.012,90), segundo dados do Tribunal de Contas dos Municípios do Estado da Bahia (TCM). A injeção desse incentivo provocou o aumento do poder de compra, gastos com serviços não essenciais e crescimento artificial da economia no município nesse período. 

Localizada a 297km da capital baiana e com menos de 20 mil habitantes, Mairi teve um inchaço artificial financeiro provocado pela concessão do auxílio emergencial aos cidadãos do município. Após nove meses, o benefício foi interrompido e os efeitos da falta desse capital foram sentidos por comerciantes locais. “No início foi ruim, mas deu uma aquecida boa no comércio no período do auxílio. Quando chegou em outubro, novembro, diminuiu o fluxo. E a partir de janeiro deu uma queda brusca.” conta Giomaria Cerqueira, 50, dona de uma loja de móveis com mais de 20 anos de história na cidade. 

Alguns comerciantes do município afirmam que houve uma melhora significativa nas vendas durante o período de distribuição do auxílio do Governo Federal. A cabeleireira Juliana Santos, 37, conta que o valor médio do faturamento por cliente cresceu de 40 para 300 reais. Caio Girardi, 23, proprietário de uma pizzaria, afirma que houve um aumento significativo nas vendas por delivery: “Foi um boom, como nunca tinha acontecido antes”. Ambos apontam que com o fim do auxílio emergencial, o consumo foi diminuindo gradativamente, estabilizando-se em fevereiro deste ano, em que as vendas estagnaram. 

Impacto no comércio

Em média, 6.646 habitantes receberam o benefício federal durante nove meses. Ao longo desse período, o aumento da circulação de dinheiro no município de 19 mil habitantes gerou uma marca na economia. Os comerciantes identificaram um grande impacto nos primeiros cinco meses, intervalo em que o auxílio era de R$1200 para mães solteiras e R$600 para microempreendedores individuais, autônomos e trabalhadores informais. A partir do mês de setembro, com a mudança dos critérios do auxílio e a redução do valor pela metade, os donos de comércio vivenciaram a diminuição brusca de faturamento. 

No mês de abril, 4 milhões e 845 mil reais circularam no município por meio do auxílio emergencial. Em setembro, foram quase 2,4 milhões aportados para a população. Ao comparar os valores totais concedidos nesses dois meses, houve a diferença de R$2.512.510,00 entre os aportes financeiros dados por meio do incentivo federal. Ou seja, foram mais de 2 milhões e meio que pararam de circular no município abruptamente, o que explica a queda brusca de vendas. 

Gráfico mostra a queda dos valores de concessão do auxílio emergencial. Créditos: Isis Cedraz.

A feirante Margarete Lima, 43, comercializava produtos exclusivamente na feira livre que acontecia duas vezes na semana, antes do início da pandemia. Com o aquecimento do comércio pelo auxílio emergencial e o fechamento da feira durante sete meses, ela abriu um ponto de hortifruti, até então inexistente na cidade. Contudo, ela tem enfrentado dificuldades para manter seu estabelecimento funcionando. 

Segundo Margarete, um dos fatores que explica o volume baixo nas vendas é a concorrência de vendedores de cidades próximas. No entanto, o secretário de administração, Leandro Oliveira, 32, nega a permissão de comercialização de frutas e verduras por pessoas de outros municípios. 

Gestão municipal de mãos-atadas 

Enquanto a população de Mairi recebeu o aporte de quase 32 milhões de reais, a prefeitura se queixa da queda de 15% na arrecadação durante o ano de 2020, porém não há uma razão clara para essa diminuição. O dado foi informado por Afonço Selço, 56, atual secretário de finanças. 

Segundo o prefeito Jobope, 58, reeleito em 2020, o setor financeiro do município foi afetado “Quando nos primeiros momentos da pandemia a população recebeu o auxílio emergencial, foi muito bom. Após a interrupção desse incentivo, a economia de Mairi caiu. A população não tem contribuído na arrecadação de impostos.”  Sobre a hipótese da criação de um incentivo próprio para suprir a ausência do auxílio emergencial, admitiu que a prefeitura não tem a capacidade de conceder esse benefício: “A prefeitura não consegue dar um benefício com recursos próprios, Mairi não tem arrecadação suficiente para isso”. 

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