22 de outubro de 2021

TOPA TUDO POR DINHEIRO?

By In Petalhada

texto Antonio Dilson
rediagramação Henrique Carneiro
Publicado em 22.10.2021

Quem viveu a década de 90 no Brasil, repleta de momentos únicos e bizarrices sem igual, deve se lembrar do programa dominical de Silvio Santos, o “Topa Tudo por Dinheiro”. O show, era uma mistura de perguntas para a plateia, gincanas e as câmeras escondidas.  O que não faltava era corre-corre, empurrões e gritaria quando o apresentador jogava seus famosos aviõezinhos de dinheiro. Não haviam semelhantes, apenas os competidores e o prêmio, numa verdadeira guerra pelas notas que voavam pelo auditório.

Round 6 (Squid Game), hit que acaba de atingir a marca de série mais vista da Netflix, é um K-drama (como são chamadas as produções sul-coreanas) dirigido por Hwang Dong-hyuk, também responsável pelo roteiro da série. A sinopse é bem simples: centenas de jogadores superendividados recebem um convite misterioso para um game com a promessa de uma fortuna bilionária aguardando o vencedor.

Para quem nunca teve contato com a produção audiovisual sul coreana, o primeiro impacto é visual.  O colorido é deslumbrante e a fotografia absolutamente impecável, dispensando sequer comparações com o que vemos do lado de cá do mundo. A qualidade estética é de deixar o espectador boquiaberto, não cabendo outro adjetivo que não ‘impressionante’ para descrever o que se vê no curso da série, dos figurinos aos cenários repletos de cor. Além disso, a construção do roteiro central e das personagens acessórias é muito bem feita, apresentando a fundo vida e motivações dos jogadores.

Uma vez que começa o game, é a velha história do amor ao dinheiro e suas profundas consequências. Alianças escusas, trapaças, mentiras, medos, selvageria e a mesquinhez da natureza humana assumem o protagonismo do jogo, com cada round e suas brincadeiras infantis trazendo um mergulho mais profundo na filosofia de quem somos frente ao risco de morte ou à possibilidade de ganhar uma fortuna. A regra é que tudo vale, desde que as condições sejam iguais para todos. Os movimentos do roteiro fazem com que a série não perca um só momento para o tédio, trazendo reflexões, emoções e apostas diferentes a cada capítulo, deixando a audiência, realmente, sem saber o que vem a seguir.

O diretor, que também é roteirista, criou o enredo em 2008 e escreveu o roteiro um ano depois. Mas, por conta de seu conceito “bizarro”, a gigante do streaming rejeitou a ideia. “Mas, 12 anos depois, o mundo havia se tornado um lugar em que uma história de sobrevivência tão peculiar – e violenta -passou a ser bem aceita”, contou Dong-hyuk em entrevista ao The Korea Times.

Apesar de a ideia central ser algo que já vimos em outras produções, a proposta do roteiro é trazer um ponto de vista diferente. “Outras séries ou filmes de gênero semelhantes seguem um herói resolvendo enigmas difíceis para se tornar um vencedor. Mas esta série é uma história de perdedores. Não há vencedores – não há gênios – mas sim uma pessoa que dá cada passo à frente com a ajuda de outros”, explica o roteirista.

Seja em programas onde os participantes precisam se desdobrar em canto e dança para conseguir uma reforma de casa ou carro, ou em jornais sensacionalistas que se valem da dor alheia como atrativo de audiência, a exploração da miséria como forma de entretenimento já é recurso bem conhecido. Round 6 também aborda a temática, com americanos endinheirados assistindo e apostando nos participantes do game, suas vitórias e derrotas – ou mortes.

Chegar ao 6º round é um desafio e tanto para os participantes. As apostas são altíssimas, sendo pagas com a própria vida. Felizmente, para os maratoneiros e dorameiros de plantão, a tarefa é um pouco mais fácil, colorida e até prazerosa. Porém, a pergunta segue ressoando através da série, da TV e da vida: topamos mesmo tudo por dinheiro?

1 Comment
  1. ROBELIA CORREA PARAGUASSU 22 de outubro de 2021

    Muito bom!!!!
    Descrição excelente e precisa da trama. Quem não viu, vai querer ver e já vai buscando respostas!

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