texto Jade Oliveira
rediagramação Henrique Carneiro
publicado em 28 de outubro de 2021
“Marianne, ele disse, não sou religioso, mas às vezes acho que Deus fez você pra mim”. Esta é a frase mais famosa do livro “Pessoas Normais”, segundo romance da autora irlandesa Sally Rooney. Mas não se engane, esse livro não é um romance pegajoso e cheio de declarações de amor. Sally não escreve sobre paixão. Ela escreve sobre pessoas. Como o amor –ou a falta dele- interfere nas relações entre pessoas normais. Pessoas com passados traumáticos, problemas financeiros e péssimo gosto para escolher amigos e colegas.
Já adaptada para as telas pela plataforma de streaming Hulu, a história gira em torno de Marianne e Connell. A mãe de Connell é empregada na casa de Marianne o que, no decorrer da história, cria uma separação de classe social entre os personagens. Os dois se aproximam por conta do vínculo empregatício entre as famílias, mas o envolvimento deve ser mantido em segredo. Marianne é esquisita e não tem amigos. Connell é querido por todos e tem uma reputação a zelar. Premissa clichê. As últimas três linhas poderiam fazer parte da sinopse de qualquer comédia romântica adolescente dos anos 2000. E a princípio, realmente é isso que acontece. Connell se recusa a sequer olhar para a amiga na escola. Seguindo a premissa clichê, a amizade dos dois se transforma num romance secreto, e é aí que começa uma relação de idas e vindas que perdura por anos.

Marianne é vulnerável. É ela quem toma o primeiro passo na relação e diz a Connell que gosta dele. É sempre Marianne quem diz o que sente e, consequentemente, quem mais sofre. Connell não se comunica da mesma maneira. Em muitos momentos deixa de falar o que se passa em sua cabeça. Embora seja de poucas palavras, deixa claro que gosta de Marianne, apesar de seus pensamentos dúbios sobre o que acontece entre os dois. Ele não consegue decidir entre andar pelo colégio de mãos dadas com a amiga ou manter o prestígio social que possui (já que lhe faltam posses e um sobrenome importante). Para ele, não dá para ter as duas coisas.
A história dos dois é construída sobre o alicerce da amizade. Quando estão sozinhos, aquele é um espaço seguro para compartilhar tudo que habita suas entranhas. Durante toda a história se mantém as risadas, conversas sobre livros e discussões políticas. A identificação é forte, mas Marianne e Connell nunca assumem um relacionamento sério. Mesmo quando mudam de cidade para estudar, distante dos olhos conhecidos que julgariam Connell pela escolhida como parceira, o casal continua com o status de casualidade. Esse é, sem dúvidas, o traço mais evidente da famosa “modernidade líquida” presente na história. O casal vive no que ora parece ser um relacionamento longo e sem regras, ora apenas amizade complicada. Essa falta de conversa sobre em que instância está a relação acaba gerando conflitos.
Dois dos temas mais pertinentes abordados no livro são a dependência emocional e o domínio sobre o corpo feminino. Marianne desenvolve o gosto de ser dominada sexualmente por seus parceiros. Contudo, seus pedidos por “apanhar” durante o sexo se mostram uma consequência do seu desejo por pertencer ao mundo de alguém, nem que seja por meio da degradação. Marianne teve suas necessidades emocionais ignoradas na maior parte de seus relacionamentos, o que gerou um senso de desvalorização de si mesma. De se sentir indigna de amor e respeito. O ato ultrapassa o desejo sexual e o fetiche e caminha pelos traumas da personagem.
Rooney sabe usar metáforas muito bem. Trazendo figuras de objetos da vida diária, a autora traduz com maestria o estado emocional do personagem. Como por exemplo, quando descreve o desconforto de esconder o relacionamento como uma bandeja cheia de coisas quentes. Os cenários descritos pela autora sempre parecem frios e impessoais, sem muita sensação de conforto ou pertencimento. Essa ambientação faz com que a forma que o personagem se sente seja sempre o centro da narrativa. Na maior parte da história, esses espaços transparecem as emoções dos protagonistas.

Outro traço predominante da narrativa é a presença de flashbacks. Indo e voltando do presente para o passado, podemos observar quebras bruscas de bons momentos a dois para frieza total. Com esse zigue-zague, observamos a volubilidade do humor e do estado emocional de Marianne e Connell. Ambos lidam com depressão e outros problemas psicológicos, como as sequelas dos abusos praticados pela família sofridos por Marianne.
O livro não conta o tipo de história para quem espera fortes emoções e um plot inesperado. Tudo gira em torno do relacionamento instável dos dois, e da influência desse elo em convivências com personagens adjacentes e vice e versa. Para quem gosta de grandes acontecimentos, o livro pode ser maçante. O desenvolvimento gira em torno de situações que poderiam fazer parte da vida de qualquer um. Poderia ser a vida de um amigo que te pede conselhos ou uma fofoca que acaba chegando aos nossos ouvidos.
Em resumo, é uma leitura muito reflexiva e rica. Cheia de detalhes e passeios pela mente dos protagonistas, que pensam coisas que nós também pensamos, mas temos vergonha de admitir. Um ótimo retrato de pessoas normais.
