19 de novembro de 2021

RAIZ DA IDENTIDADE

By In Fraude 20

Na transição capilar, fios germinam curvaturas de liberdade e autoestima

Áudio da reportagem

texto Glaucia Campos e Isabelle Santana
multimídia  Glaucia Campos e Isabelle Santana
diagramação Jade Oliveira
narração Glaucia Campos
colagem Isis Cedraz
rediagramação Tainá Sousa

Estica. Queima. Cheiro forte. Lava. Estica de novo. Espirros. Sensação de ardor. Queima novamente. E tá pronto – até os próximos meses. Essa é a rotina de diversas mulheres ao redor do mundo que, desde muito novas, se submetem à utilização de produtos químicos em seus cabelos. A substância, o método e a frequência de aplicação podem variar, mas o efeito esperado é o mesmo: cabelos lisos e sem frizz. 

As madeixas exprimem histórias de vida e autoestima ao longo das décadas. Cabelos cacheados e crespos também são tidos como símbolo político e de resistência, mas nem sempre foi assim. Em seu ensaio intitulado “Alisando o nosso cabelo”, a  escritora e ativista social bell hooks afirma que a utilização de procedimentos para deixá-los o mais liso possível era uma ação frequente entre a comunidade negra norte-americana. Entretanto, a partir dos anos 1960, esse cenário começa a mudar com o surgimento do Partido Panteras Negras, fruto de uma onda crescente das lutas sociais, tendo como destaque as reivindicações do movimento negro.

O partido foi responsável por criar e popularizar o movimento Black Power, que visava contrariar o padrão de beleza branco e eurocêntrico altamente valorizado na época. A partir dos cabelos era possível reafirmar suas origens e valorizar os atributos naturais da população negra. Com isso surgiu o slogan “Black is beautiful”, que incentivava pessoas pretas a amarem sua estética, tanto traços físicos como o cabelo, utilizando-a como arma de combate ao racismo.

Movimentos e figuras importantes da cultura negra. A Black Panther Party e o grupo de carnaval Ilê Aiyê.

No Brasil, o movimento Black Power aterrissa um pouco depois, nos anos 1970. O crescimento da luta do Movimento Negro estabeleceu a imagem enquanto símbolo de afirmação. Ao redor do país, artistas como Wilson Simonal, Tony Tornado e manifestações culturais como os blocos afro que se multiplicaram a partir da criação do Ilê Aiyê em 1974, incluíam em seus trabalhos a valorização da estética negra. A luta se estendeu nas décadas seguintes, contudo os desafios permaneceram e por vezes foram amplificados, na medida em que o padrão de beleza e as técnicas para obter um cabelo liso se popularizaram ainda mais com o avanço das tecnologias.

Atualmente, para a realização desse resgate identitário a partir dos fios, têm-se utilizado a transição capilar como uma importante ferramenta. Esse processo constitui-se pelo total abandono das químicas, visando o tratamento para a retomada dos fios naturais. A transição pode ter uma longa duração  – até o crescimento total do cabelo – ou curta, em que a parte alisada é abandonada imediatamente por meio do big chop.

Fonte: Stephane Brito / Reprodução: acervo pessoal

Para a estudante de geografia Stephane Brito, 21, que já utilizou diversos tipos de alisantes e tinturas desde muito nova, a realização do big chop se deu a partir de um corte químico. “Lembro de um período em que meu cabelo ficou em pedacinhos e tentei passar por esse processo de transição por uma questão de saúde, mas não consegui. Logo que ele se recuperou, já alisei de novo”. Um tempo depois, quando a jovem voltou ao salão, a cabeleireira a intimou afirmando que só seria possível alisar novamente ou cortar de vez. Stephane, então, escolheu a segunda opção. E não se arrependeu. 

“fiz o meu próprio corte em casa e minha amiga me ajudou. Quando cortei o cabelo, me senti livre e, finalmente, realizada”
juliana cabral

Fonte: Juliana Cabral / Reprodução: acervo pessoal

No mesmo ritmo, o pontapé inicial para Juliana Cabral, 22, estudante de medicina veterinária, foi uma doença no couro cabeludo que ocasionou a queda do seu cabelo, seguido de um corte químico. A jovem passou oito meses aguardando o crescimento dos fios até decidir cortá-los, deixando-os bem curtinhos:
“foi bem complicado, mas encarei de frente e deixei de lado o que os outros iam dizer ou pensar. Fiz o meu próprio corte em casa e minha amiga me ajudou. Quando cortei o cabelo, me senti livre e, finalmente, realizada”, relata. 

Dias de luta

Liberdade. Essa é a palavra que define o pós transição capilar. Porém, apesar da realização pessoal de quem ousa contrariar os padrões de beleza da sociedade, muitos obstáculos ainda marcam o processo. De acordo com Juliana, a questão mais complicada da sua transição foi a falta de apoio dentro da própria casa. “Minha mãe era uma das pessoas que dizia que meu cabelo estava feio e que eu deveria fazer química novamente. Tive que lutar muito e pensar como aquilo era libertador. As pessoas olhavam pra mim e diziam que eu estava feia, realmente foi um processo muito doloroso e difícil.”

Apesar de mais popular nos salões de beleza, o alisamento total dos fios não é o único procedimento disponível. O permanente afro, como é chamado, é um tratamento químico a que muitas pessoas recorrem no intuito de modelar as madeixas e alcançar os cachos ditos perfeitos, totalmente soltos e definidos. Além de reforçar de forma negativa que os cabelos crespos precisam ser “domados” ou “amansados”, o tratamento realizado também é um procedimento químico que gera dependência aos fios.

Fonte: Driele Silva / Reprodução: acervo pessoal

Essa era a técnica que Driele Silva, 22, estudante de pedagogia, utilizava para manter seus cabelos menos “rebeldes”. Ela, que está em sua segunda transição capilar, desabafa: “nunca alisei totalmente o cabelo. Sempre relaxei, então continuava com os cachos, porém, como dizem, mais ‘mansos’. Estou passando pela minha segunda transição. Aquela coisa dos surtos da quarentena… Esse foi o meu surto. Meu cabelo já estava enorme e muito volumoso, mas não tinha comprimento, fiquei extremamente agoniada. Queria ver o tamanho, então o relaxei e, após esse momento, comecei a chorar desesperadamente.” Driele também relata que o momento atual do processo tem sido o mais difícil desde o início do uso de procedimentos químicos em seus fios.

“é difícil lidar com os comentários quando você ainda está aprendendo a lidar com o seu pessoal”
stephane brito

Para quem viveu mais da metade da vida sendo uma outra versão de si, reconectar-se com seu eu natural pode ser o momento de maior choque. Esse foi o caso de Stephane, que precisou enxergar beleza em sua antiga imagem: “eu gosto de mim com o cabelo curto, mas é difícil lidar com os comentários quando você ainda está aprendendo a lidar com o seu pessoal. Dentro disso, precisava encontrar essa feminilidade e não me sentir menos mulher ou feia.”

Se ame mais

A autoestima é algo construído desde o momento em que se adentra neste mundo. O apreço, a valorização e o afeto por si mesmo é reforçado pelo ambiente e pessoas que nos cercam. Então, qual caminho segue a autoestima de crianças que são desde cedo ensinadas a odiar os próprios cabelos? É importante, antes de tudo, resgatar o carinho pelo que reflete no espelho quando nos permitimos admirar a nossa imagem. 

“Eu gostava de me esconder bastante, principalmente com roupas. A partir da transição, senti que, com meu crespo, tenho mais liberdade de usar a roupa que desejar e de fazer o que quiser com meu visual”, conta Juliana Cabral. Por causa da transição capilar, ela afirma que não sente mais medo do julgamento das pessoas ao seu redor, pois conseguiu se gostar assim.

Apesar de nunca ter tido problemas com sua aparência, Driele revela que durante a transição começou a se comparar com muitas pessoas, tendo um comportamento tóxico consigo mesma.  Para a estudante de pedagogia, o trajeto de aceitação e redescoberta serviu como ponto de virada: “a partir do momento em que passei pela transição, eu fui me moldando. No sentido de me ver e entender que o que o outro enxerga em mim não tem nada a ver com o que sou.”

A futura geógrafa Stephane destaca que a falta de representatividade afetou diretamente o processo de construção da autoestima após seu período de transição. “Eu lembro que comecei a me vestir mais menininho e usava as camisas do meu irmão. Como meu corte foi bem curtinho, não tinha muitas referências de mulher com cabelo curto e crespo. Depois de um período falei ‘não sou assim, não me visto assim, não gosto de ser assim’. Precisei me reconhecer dentro dessa nova fase. Então eu descobri um novo estilo, uma outra beleza que era estranha para mim.”

Me vejo nas telinhas

Embora hoje em dia seja menos trabalhoso encontrar produtos e propagandas voltadas para crespos e cacheados, essa nem sempre foi a realidade. Por muito tempo, não ter o cabelo liso era visto como um problema cuja solução costumava ser passar por algum procedimento químico abrasivo em um salão de beleza. 

Fonte: comercial creme alisante Alisabel 1993, Elseve 1999, Seda cachos controlados 2008 e Salon line linha tô de cacho 2020 / Reprodução: Youtube

“olhava para as produções midiáticas como um todo e não me via lá. O que eu enxergava eram mulheres completamente diferentes de mim”
sâmara azevedo

A partir dos anos 2000, passou a ser mais comum ver comerciais com marcas promovendo produtos para cabelos cacheados, mas não crespos. Importante destacar que a maioria das mulheres que apareciam nessas campanhas publicitárias eram brancas. Para Sâmara Azevedo, 40, professora e criadora do grupo no Facebook Cacheadas e Crespas de Salvador, a falta de representatividade nas mídias foi um dos fatores que colaboraram para que ela começasse a fazer uso de alisantes. “Olhava para as produções midiáticas como um todo e não me via lá. O que eu enxergava eram mulheres completamente diferentes de mim. Tentei entrar nesse padrão e fazia tudo que fosse necessário para estar inserida nele”, assume.

Fonte: Sâmara Azevedo / Reprodução: acervo pessoal

Durante muitos anos da sua vida, Sâmara tinha como modelo ideal de beleza a atriz Ana Paula Arósio, uma mulher magra e branca, que costumava aparecer em comerciais de produtos. Na expectativa de chegar o mais perto possível dessa imagem, Sâmara utilizou produtos alisantes em seus fios para alcançar o que seria o cabelo da atriz.

De acordo com uma análise realizada pelo Google, entre 2016 e 2017, as buscas ligadas a cabelos cacheados e crespos cresceram 232% no país, estando superior a pesquisa por cabelos lisos pela primeira vez. A crescente procura por produtos específicos para fios não lisos surtiu efeito nos meios de comunicação relacionados às propagandas. 

Nos últimos anos, o mercado de cosméticos parece ter finalmente compreendido que a população crespa e cacheada possui espaço e poder para cuidar corretamente das suas madeixas. Essa mudança é refletida nos comerciais atuais, que estão mais plurais quando se tratam de marcas que investem na diversidade dos fios e apresentam pessoas negras como protagonistas e donas dos seus cabelos. 

Redes de apoio

A transição capilar pode ser muito difícil e confusa para quem decide enfrentá-la. E, para lidar com a transformação, se aproximar de uma rede de apoio sólida e buscar pessoas que estejam passando ou já tenham vivido o mesmo processo é indispensável. Com isso, as redes sociais se tornam grandes aliadas, seja participando de grupos em que é possível trocar dicas e comentar sobre a trajetória capilar ou acompanhando as influencers que pautam sobre o universo dos cachos e crespos.

Ao criar um grupo no Facebook, Sâmara conseguiu fazer as pazes com sua autoestima. Inicialmente a comunidade serviu de suporte para ela, e em seguida se expandiu alcançando outras pessoas que buscavam entender melhor o seu cabelo natural.

“não achava que era digna com esse cabelo de hoje. A leitura que eu faço dele é diferente, mas antes achava que não tinha dignidade nenhuma para estar em sociedade”
sâmara azevedo

Para a professora, após ser mãe e passar pela transição capilar, se sentir bem com sua aparência física era um desafio. “Eu me coloquei em um lugar de apagamento, de diminuição. Só conseguia sair de casa para trabalhar. Não achava que era digna com esse cabelo de hoje. A leitura que eu faço dele é diferente, mas antes achava que não tinha dignidade nenhuma para estar em sociedade”, desabafa.

Em 2014, ela decidiu criar o Cacheadas e Crespas de Salvador: “no dia 28 de junho, morro e renasço junto com a comunidade”. O grupo continua ativo e conta com mais de 101 mil membros, que compartilham dicas de produtos, depoimentos, formas de passar pela transição capilar, entre outros assuntos relacionados às madeixas.

Assim como Sâmara, Stephane encontrou em grupos do Facebook um lugar de acolhimento para seguir com sua transição. “Me inspirei dentro desses espaços. Eu via outras pessoas passando por aquilo e entendia que não estava sozinha. Não era a única pessoa que estava perdendo cabelo por causa da química e que estava enfrentando aquele processo. Essa rede de apoio me inspirou”, explica. Além das comunidades digitais, influencers no Instagram e no YouTube também serviram de inspiração. A jovem fazia questão de acompanhar todo o conteúdo que era produzido, principalmente em formato de tutoriais. 

Juliana Cabral confidencia que suas maiores inspirações foram as amigas que passaram pela transição no mesmo período que ela. Durante ele, a estudante também acompanhava desconhecidas através do Instagram com intuito de se fortalecer: “eu via pessoas que estavam passando pelo mesmo. Com as fotos comparativas, podia ver o futuro e imaginar como meu cabelo poderia estar.”

Em paralelo às redes sociais, Driele encontrou apoio e motivação após ingressar na vida universitária e se deparar com uma realidade mais plural e diversa da que vivenciou na sua jornada escolar. “Eu conheci várias meninas que tinham seus cabelos naturais e várias texturas. Elas não usavam nenhum tipo de procedimento químico. Aquilo me motivou e pensei que poderia ser legal tentar”, compartilhar. 

Cabelo vem lá de dentro, cabelo é como pensamento 

Em sua composição “Cabelo”, interpretada pela cantora Gal Costa, Arnaldo Antunes proclama uma ode aos cabelos afirmando que, para além da estética, os fios também compõem uma forma de pensar. De acordo com nossas entrevistadas, a canção não poderia estar mais certa.

“tudo muda junto com o cabelo, hoje eu sou uma pessoa totalmente diferente”
stephane brito

Após realizar a transição capilar, Stephane passou a se entender enquanto mulher negra. Essa nova percepção permitiu que ela tivesse uma outra visão acerca dos seus ideais políticos e sociais, tendo oportunidade de se aproximar de ações coletivas. O Movimento Negro e a Marcha do Empoderamento Crespo exerceram uma grande influência na trajetória da estudante de geografia. “Tudo muda junto com o cabelo, hoje eu sou uma pessoa totalmente diferente. Tive uma nova visão de mundo por estar junto com outras pessoas e em outros meios, entendendo realidades diversas fora daquela bolha em que vivia”, conta.

Driele também mudou seu ciclo social e passou a não tolerar comentários ofensivos sobre seu cabelo e aparência. Para a universitária, embora o processo muitas vezes tenha sido doloroso, o resultado final vale todo o esforço e ela se agarra nesse sentimento para enfrentar sua segunda transição capilar. 

Apesar de todas as barreiras e dificuldades que possam surgir no caminho, a professora Sâmara reitera que é importante incentivar outras pessoas, “assim como o lema do ‘Cacheadas e Crespas de Salvador’ eu digo que não daremos nenhum passo atrás para nada. Esse tempo acabou. E para qualquer pessoa que esteja passando pela transição agora: força, não desista.”

Para aprofundar mais nessa temática, separamos algumas indicações de obras que abordam a questão da transição capilar:

Os Panteras Negras (1968)
Direção: Agnes Vardá
Documentário/Curta-metragem
Das Raízes às Pontas (2015)
Direção: Flora Egécia
Documentário/Curta-metragem
Retratos do Brasil Negro
Autora: Lélia Gonzalez
Livro
Kbela (2015)
Direção: Yasmin Thayná
Curta-metragem
Felicidade por um fio (2018)
Direção: Haifaa al-Mansour
Romance/Comédia romântica
Abebé
Direção: Keila Serruya Sankofa
Documentário/Curta-metragem
Good Hair (2009)
Direção: Jeff Stilson
Documentário/Comédia
Hair love (2019)
Direção: Matthew A. Cherry / Bruce W. Smith
Curta-metragem/Animação
Quem te penteia?
Direção: Zalika Produções
Documentário

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