10 de dezembro de 2021

BAHIA PARALÍMPICA

By In Fraude 20

Da desistência ao topo do pódio: a trajetória da medalhista Raissa Machado

texto Anna Luiza Santos e Stella Ribeiro
multimídia Stella Ribeiro
diagramação Jade Oliveira
narração Micaele Santos
colagem Isis Cedraz 
rediagramação Tainá Sousa

“Sabe quando a gente não se encaixa no mundo e pensa: ‘Meu Deus, o que está acontecendo comigo?’. Eu não me encaixava, até o dia que o meu treinador de ginástica chegou em mim e falou, ‘você nasceu para ser atleta’.”

Raissa Machado, 25, originária da cidade de Ibipeba, no semiárido baiano, nunca pensou em ser atleta. Pelo contrário, desejava ser advogada, delegada, modelo e tudo o que envolvesse sua imaginação quando criança. Ainda bem nova, com apenas 1 ano, se mudou com a mãe, dona Ildonete, para Uberaba (MG), para realizar sua primeira cirurgia. Raissa tem malformação congênita e desde o nascimento não possui o movimento das pernas.

No início de sua infância não faltava oportunidade para brincar com outras crianças na rua. Dona Ildonete não era o tipo de mãe protetora e nunca temeu os machucados causados pelo arrastar de Raissa no asfalto. Ela sabia que precisava criá-la para voar. E era por isso que a garota corria, se escondia, dançava e pulava, tudo a seu modo. Foi apenas aos 11 anos, por causa de apelidos preconceituosos recebidos na escola, que começou a perceber que era diferente dos colegas, sentindo-se deslocada.

“Eu não me sentia desse mundo”, afirma, “quando me olhava no espelho, não me reconhecia e me achava uma estranha, um monstro.”

No entanto, uma professora de educação física estava destinada a iniciar uma transformação em sua vida. A educadora, perguntando a Raissa sobre seus interesses, acabou descobrindo o amor da atleta pela dança e a questionou se poderia inscrevê-la em um curso de ginástica. “Eu disse: ‘Lógico, eu quero ser a Daiane dos Santos’”. Aos poucos, a jovem começou a se apresentar em teatros, mas não se sentia completa. Assim que tocava a cabeça no travesseiro, voltava a questionar seu lugar no mundo.

Pouco tempo depois, aos 13 anos, seu treinador de ginástica a convocou para um teste na Associação de Deficientes Físicos de Uberaba (ADEFU). “Eu disse que não. Não queria fazer teste nenhum, queria ser delegada, mas ele insistiu e disse: ‘você vai fazer o teste, você nasceu para ser atleta’”. O treinador foi até a porta de sua casa e a levou, toda descabelada, até o centro de treinamento. Ao chegar na associação, teve seu primeiro choque de realidade: “ fiquei muito assustada. Aquela foi a primeira vez que vi muitos deficientes em um único lugar. Na época, eu achava que era a única diferente, pois não tinha referência de atletas paralímpicos. Foi a primeira vez na vida que vi outro cadeirante.”

Foi nesse teste, ainda muito inexperiente, que Raissa entrou em contato com o elemento que, por coincidência, a acompanharia durante sua carreira no atletismo: o dardo. Com apenas alguns arremessos, os técnicos enxergaram um potencial latente, mas primeiro tiveram que ultrapassar as barreiras impostas pela própria atleta. Inicialmente, ela não se dedicava e aparecia esporadicamente nos treinos. Só após muita insistência dos treinadores começou a se empenhar para conseguir participar de suas primeiras competições.

Daí em diante, rapidamente abriu seu espaço no atletismo e, depois de três eventos pequenos, foi para sua primeira regional, em Brasília, onde alcançou um índice que a permitia participar de outras três competições nacionais. Ela não sabia, mas sempre que competia, um olheiro da Seleção Paralímpica observava seus resultados, e foi dessa forma que em 2013 recebeu o convite para participar de seu primeiro campeonato internacional. Em Porto Rico, nos Jogos Mundiais de Juniores da IWAS, conquistou três medalhas nas três competições em que participou: prova de 100 metros, lançamento de dardo e arremesso de peso.

“A minha família era humilde, minha mãe pegava dinheiro emprestado com a chefe do serviço para pagar um táxi para me levar aos treinos. Durante as viagens, a ADEFU só pagava a hospedagem e a alimentação na cidade do evento, então eu acabava ficando sem comer por horas porque não tinha dinheiro”
raissa machado

No ano seguinte, a atleta foi convocada para a Seleção de Jovens, aos 16 anos, mas nem tudo se configurou como uma caminhada tranquila. Ao passo em que viajava com a equipe juvenil brasileira e conquistava algumas medalhas, as dificuldades sempre a encontravam. “A minha família era humilde, minha mãe pegava dinheiro emprestado com a chefe do serviço para pagar um táxi e me levar aos treinos. Durante as viagens, a ADEFU só pagava a hospedagem e a alimentação na cidade do evento, então eu acabava ficando sem comer por horas porque não tinha dinheiro. Outros atletas se ofereciam para pagar, mas eu tinha vergonha e negava. Isso acontecia várias vezes”, conta. 

De certa forma, Raissa ainda não enxergava toda a capacidade que tinha em mãos. Lidando com a adolescência e a rápida reviravolta em sua vida, encarava sua entrada na Seleção mais como uma oportunidade para conhecer outros países do que como uma carreira próspera. De San Juan a Paris, passando por Toronto e Doha, ela preferia curtir a partir do momento que pegava o passaporte e o avião decolava.

Aos poucos, as competições se tornaram mais sérias e Raissa percebeu que para superar os atletas estrangeiros era preciso mais do que simples treinamentos. Se mesmo levando a disputa como diversão, sem se pressionar, ela conquistava títulos, o que alcançaria com uma preparação intensa como a de seus adversários? Para encontrar essa resposta, decidiu mudar drasticamente e iniciou uma nova rotina de treinamento para os Jogos Paralímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.

Final de Lançamento de disco feminino:
Rio de Janeiro. 8 de novembro de 2016.
Agora.

O Estádio Olímpico Nilton Santos, palácio do Botafogo, é tomado por um verde e amarelo de vozes vibrantes na primeira sessão das arquibancadas. A lotação não é máxima – problema recorrente desde as Olimpíadas – mas a empolgação que emana da noite promete grandes surpresas. Do telão principal do estádio, a pontuação dos atletas é exposta para os torcedores, técnicos e árbitros, que contorcem os pulsos em sinal de nervosismo. Eles sabem que a hora é essa. 

O barulho da plateia se mistura com o turbilhão de pensamentos negativos. A falta de confiança e a sensação de um iminente fracasso a sufocam e, aos poucos, dominam sua mente. Para Raissa, tudo que está no estádio indica a derrota. Minutos antes de se deslocar para a entrada da arena, havia cumprido seu ritual: ligou para a mãe a fim de se tranquilizar, mas as palavras não pareciam certas. O timbre estava diferente, era como se, no fundo, até a mãe soubesse o que a esperava. 

Com o coração aflito, sente que os olhares das arquibancadas extinguem os meses de preparação e treinamento. Acompanhada pelo treinador e por mais seis técnicos de blazer azul, ela é transportada da cadeira de rodas ao assento fixado na lateral do estádio, onde todos os atletas de dardos fazem suas seis tentativas para alcançar o pódio. Preparada para iniciar sua primeira tentativa, Raissa toca o dardo, mas algo está errado. Ela não se lembra como lançar, o sentimento de incapacidade a deixa imobilizada.

Classificação final: sexto lugar. Assistindo as adversárias superarem sua marca, 18 metros e 57 centímetros, Raissa tentava esconder toda angústia que sentia. Naquela noite, saiu do estádio afirmando que sua carreira havia terminado, que nunca mais seria uma atleta. Ela sabia que havia perdido para si mesma. 

Fim da competição no Nilton Santos

 “Eu não sabia do que eu gostava, quem eu era, porque meu cabelo estava liso, não reconhecia a minha deficiência”
raissa machado

Após as Paralímpiadas, a jovem passou por um momento delicado. “Eu não sabia do que eu gostava, quem eu era, porque meu cabelo estava liso, não reconhecia a minha deficiência.” Ela confessa que só começou a se encontrar quando raspou a cabeça, passou pela transição capilar e se reconectou com o seu natural. Um processo de reflexão, tratamento psicológico e amadurecimento foi necessário para que ela se fortalecesse.  

“Eu tinha preconceito contra mim. E quando comecei a me entender e aceitar, falei: ‘agora estou preparada para amar o próximo, me amar e amar o que faço’”, revela. 

 “Eu falei: ‘Se um dia eu voltar a competir, eu vou competir para estar entre as três melhores do mundo’”
 raissa machado

 Como em muitos momentos importantes de sua vida, um treinador estava obstinado a levá-la de volta ao esporte. “Meu técnico foi até a minha casa e falou: ‘Você não vai desistir, vai acordar para a vida. Já tem uma história, um currículo muito bom, o que mais você quer? Quer que Deus prove algo a mais? Ele já te provou tudo o que tinha para provar’”. A reconciliação consigo mesma foi um processo doloroso, mas a partir dela entendeu que nasceu para o esporte. As palavras de incentivo do treinador a despertaram. “Eu falei: ‘Se um dia voltar a competir,  vou competir para estar entre as três melhores do mundo’.”

A atleta retornou aos treinos em 2017 se preparando para as Paralimpíadas de Tóquio com um objetivo traçado: conseguir uma medalha. Em meio a esse processo de preparação, veio a pandemia de COVID-19, afetando seus planos e adiando o evento em um ano. Tendo que se adaptar aos treinos em sua residência, Raissa ficou ainda mais aflita após contrair o vírus. “Meu pensamento era: ‘Meu deus, não me deixe morrer. Eu quero trazer pelo menos uma medalha paralímpica para o Brasil’.”

Recuperada, retomou os treinos intensos e, enfim, foi para Tóquio confiante para conquistar o seu objetivo. Essa Paralimpíada não era apenas sobre competir e tentar vencer, mas sobre acreditar na sua capacidade e força, o que não sentia nos Jogos do Rio em 2016. E deu resultados. Raissa conquistou a medalha de prata, com a marca de 24,39 metros. Ao refletir sobre essa conquista, fala que:

“Essa medalha representa tudo pelo que passei e toda a minha força. Agradeço muito a Raissa de lá de trás por não ter desistido. Acho que precisei ter perdido para ter ganhado hoje. Não queria o esporte, eu não queria ser atleta, mas o esporte me quis. Quando comecei a entender que ele era a minha saída e que eu o amava, foi onde comecei a me entender também. Parei de ir contra a maré, passei a nadar a favor dela e estou nadando até hoje.”

2 Comments
  1. Rebeca 14 de dezembro de 2021

    Matéria emocionante. Eu amei. Fico feliz pela Raissa ter encontrado o seu lugar no mundo e ter permitido que nós víssemos a sua arte.

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  2. Ana 14 de dezembro de 2021

    Incrível !! Amo ver essas histórias de superação nos esportes!!
    Isso me faz nunca querer desistir daquilo que amo

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