Por que você não deve ver Carrossel (e não é porque você tem 23 anos)
texto Mariana Brasil
rediagramação Henrique Carneiro
publicado em 10 de março de 2022
Entre duendes e fadas, a terra disfuncional de Carrossel (versão brasileira) espera vocês neste Petalhada. Ano passado, a adaptação completou 10 anos de sua exibição e foi inserida no catálogo da Netflix. Quando estreara na TV aberta, a estudante que vos fala tinha cerca de 10 anos e assistia à novelinha. Portanto, resolvi reassistir a obra por memória afetiva. Entretanto, a sessão nostalgia se transformou num circo de absurdos que ora arrancam risadas das mudanças que o tempo proporciona aos padrões do correto e do aceitável, ora te deixam indignado porque aquilo já era absurdo para 2013.
Desde a obra original, Carrossel é bastante conhecida por sua trama central que, a princípio, denuncia o racismo praticado por Maria Joaquina contra seu colega de classe Cirilo, que é apaixonado pela garota. Então, essa relação se sustenta na maldade de Maria Joaquina e na pureza de Cirilo. Mas o cão é muito bem articulado. A ingenuidade que aparentemente deveria caracterizar a pureza adorável de Cirilo se torna um gerador de raiva no telespectador diante do personagem. E a irritação e ódio que naturalmente deveriam ser direcionados à figura da antagonista preconceituosa e racista, passam a ser voltados para a vítima. Quem assistiu depois de velho sabe que não é exagero. A submissão de Cirilo passa longe da fofura que a novela – supostamente – pretendia trazer. Bondade, humildade, doçura… Palavras atribuídas ao personagem de Jean Paul Santos para dizer uma só coisa: sub-mis-são.
Branca sempre tem razão
Maria Joaquina: a racistinha mais querida do Brasil. Sem hipérbole. Amar vilãs de novelas já é um hábito da nação (e tá tudo bem, né?). E não é exagero dizer que a pequena pilantra de Carrossel é uma vilã de telenovela digna do hall da fama de Carminha e Nazaré Tedesco. É de dar raiva: a inevitável e excepcional atuação de Larissa Manoela fez com que a anti-heroína se popularizasse com o público, de modo que, conversando com um amigo – também negro – descobri que ele nem ao menos se lembrava dos absurdos proferidos pela menina, e sim, “das luvinhas de renda”. Tá feliz, SBT?

O problema do endeusamento da glamourosa vilã é que, sob a proteção da tenra idade (personagens e atores tinham cerca de nove anos), não é possível execrar (tanto por parte da novela, quanto por parte da audiência) a criatura do mesmo modo que faríamos com uma vilã adulta. Dessa forma, os comentários e atitudes racistas de Maria Joaquina frequentemente saem impunes. Ora, mas não somente o fato de os absurdos acontecerem na infância justificam a tolerância e o perdão que volta e meia os personagens da novela dão à menina. Logicamente, muito se deve à incompetência – e arrisco dizer, mau caratismo – dos autores. Com exceção das falas de Doutor Miguel, pai de MJ e nosso white savior favorito, como veremos mais à frente, as reprimendas feitas à criança são brandas e ineficazes. Em um dos seus poucos momentos de lucidez, Cirilo desabafa com Firmino (o idoso inspetor do colégio) que acredita que Maria Joaquina não gosta dele por conta de sua cor, ao que o zelador responde com o que viria a tornar a cena uma das coisas mais ridículas e absurdas da novela: “Uma menina tão bonita fazer isso? Ela não faria isso.” E fica por isso mesmo!

White Savior
Mas nem tudo está perdido! Para salvar Cirilo (e a todos) temos o pai de Maria Joaquina, o querido Doutor Miguel. O bondoso médico atende todos os planos, SUS e cobertura especial para a Escola Mundial. Ninguém nunca liga para o 192 ou pega o carro e vai ao hospital, todos ali tem o disk doutor Miguel a ponto de bala. Sua lista de pacientes consta com Firmino, Professora Helena, Carmen, Diana (irmã caçula de Mário), Valéria e um sem número de alunos e seus parentes. Ironias à parte, o personagem é realmente incrível. O ator Fábio Di Martino dá vida a não somente um bom profissional, mas a um pai bom – porém não permissivo – que é justamente o que Maria Joaquina precisava. Único capaz de dar broncas reais na garota, Doutor Miguel exerce funções paternais para além de sua casa. A partir daí, vamos a uma pequena problematização:
Os pais de Cirilo, embora bons de coração como a novela sempre reafirma, não conseguem enxergar o problema que o menino enfrenta. O garoto joga fora toda a consciência racial que os pais, bem ou mal, transmitem a ele ao se humilhar diariamente para impressionar a coleguinha branca que o odeia por sua cor e classe. E quem consegue ver o problema verdadeiramente? Nossa “cara gente branca”, Doutor Miguel. É sempre o doutor quem toma atitudes contra a postura da própria filha, forçando-a a pedir desculpas em público, pedindo ajuda da professora, convidando Cirilo para eventos da família, recebendo-o bem em sua casa, dando caronas e por aí vai. Enquanto os pais de Cirilo pouco exploram o problema e, mesmo ouvindo as constantes reclamações do filho de que a menina não lhe dá atenção, demoram a achar algo problemático naqueles relatos. É difícil enxergar como não intencional essa escolha por uma narrativa que traz uma família pobre, negra e passiva em paralelo a uma figura branca, benevolente e salvadora da pátria, já que os negros são incapazes de salvar a si e aos seus. Por que sempre precisamos da ajuda deles? A novela traz personagens negros que se limitam a virtudes de bondade e pureza. A inteligência, a assertividade e o heroísmo cabem aos brancos. Sempre a eles.


Quanto à Professora Helena, nem arrisco taxá-la como “white savior” porque nem acredito que ela conseguiu salvar alguém. A professora tinha abordagens muito leves, na minha opinião, diante de um caso de racismo em sala de aula. Apoiava as “loucuras de amor” de Cirilo, as classificando como doçura, sabendo bem que a destinatária daquelas declarações odiaria qualquer manifestação afetiva vinda do menino. Só quem dava conta do recado era ele mesmo: Doutor Miguel.
Vale destacar que isso não é uma crítica ao personagem de Doutor Miguel por si só, visto que este é bem construído e tem a empatia do público, pois ator e personagem fazem por merecer. Como telespectadora buscando o mero entretenimento, as aparições do médico eram sempre uma satisfação para mim, e isso permanece. Mas também vale a pena olhar duas vezes e não subestimar os impactos diretos e indiretos que certas escolhas sutis (ou não) promovem ao público, especialmente o infantil.
Misóginos com muito orgulho
Na infância, é normal vermos, por vezes, as segregações entre meninos e meninas e talvez uma rivalidade saudável entre os grupos. “Meninas são chatas” e “meninos são nojentos”, faz parte e depois todo mundo se junta pra brincar de esconde-esconde. Mas Carrossel pesou a mão na forçação de barra de uma misoginia e machismo dos meninos da trama que reproduzem clichês irritantes de “minha mãe é a única mulher que presta no mundo” ou “mulheres são tão dramáticas”. As falas nem são tão destrutivas, porque a resistência dos meninos cai sempre por terra, já que todos ali fazem tudo juntos e as meninas acabam sempre sendo inclusas. É só uma pobreza de texto, na realidade. Um nítido exagero nas falas torna aquelas reações pouco naturais, especialmente para crianças dos anos 2000.
Andando lado a lado desse machismo forçado, há as simulações de relações amorosas adultas patriarcais, muito protagonizadas por Davi e Valéria (Maísa): Valéria é uma louca – e me dou o direito de colocar desta forma, porque a menina realmente era maluca. Tratava Davi como um cachorrinho e com um ciúme irritante e desproporcional pra uma criança de nove anos. Disparado, uma das coisas que mais me irritou na novela era essa conduta. Valéria ofende uma colega novata por se aproximar de Davi, profere frases como “o Davi é meu”, chateia-se com o menino quando ele não deu a ela uma herança da avó dele de presente, simplesmente porque ela gostou e termina com o garoto diversas vezes ao longo da trama, sempre por motivos fúteis. Mas o ciúme é via de mão dupla e, apesar de não acontecer na mesma frequência por parte de Davi, o garoto também tem seus surtos, como quando derruba a mesa da sorveteria ao ver Valéria conversando com Jaime, amigo de ambos.

O que acredito ser o mais terrível é que, diferente dos demais absurdos já citados, o ciúme não sofre nem ao menos um traço de condenação e é exposto como algo engraçado e ninguém aparenta se preocupar com isso efetivamente. Pais, mães, professora Helena… A falta de compromisso dos escritores de passar essa ideia para um público em formação é revoltante e irresponsável. E, em termos de entretenimento, pobre.
Amamos pobres
Os pobres! Amamos tanto os pobres que vamos relembrar que são pobres a cada cena, porque eles são pobres. Comportam-se como pobres, pedem desculpas, são humildes, pobres educados. Já disse que são pobres?
Várias das famílias das crianças não têm muito dinheiro, uns em situação classe média baixa (como os pais de Jaime) até os muito pobres (como os pais de Carmen). Mas o que os une é aquela humildade e mansidão que os ricos adoram. Porque pobre tem que saber o seu lugar, não é? Vamos a um exemplo: o pai de Jaime é mecânico e vive frequentando a Escola Mundial (é quase um sócio do colégio, mas isso é outro assunto) sendo que, toda vez que vai fazer uma visitinha à sala dos professores, pede perdão por não poder apertar a sua mão por estar “cheio de graxa, vai desculpando”. Classe média baixa não tem pia?
Qual a funcionalidade de Seu Rafael sempre precisar estar sujo de graxa, sem nem ao menos as mãos lavadas? Para compor a estética de homem simples do personagem? Caso fosse chefe de cozinha bem sucedido, a novela também o faria ter sempre as mãos sujas de farinha? Não seria mais fácil simplesmente um “Boa tarde, professora! [aperto de mãos]”? Custava, Iris Abravanel?
Obviamente a mesma lógica se repete com a única família negra da história. Apesar da mãe de Cirilo ser sensacional (o pai não, tenho minhas reservas), a dona de casa precisa trazer em suas falas, principalmente quando junto a outros pais e mães: “não temos muito dinheiro, mas temos muito amor!”.
Gordofobia
Ai, a gordofobia. Vamos lá que, em 2013, até mesmo o racismo já era menos aceito na televisão (embora, como tenhamos visto, não menos praticado), mas a gordofobia ainda era a piada-patrimônio nacional. Jaime e Laura, os gordinhos do grupo. Rótulo comum, especialmente na infância. Mas, novamente, o problema não é a representação da realidade hostil e da vida infantil como ela é (afinal, crianças ofendem), mas sim como a produção da novela faz pouquíssimo esforço para mostrar ao telespectador – também criança – que aquilo é errado. Sem contar com a diária repetição de tal estigma, que é o que passa a definir e reduzir a personalidade do personagem gordo a apenas um atributo: ser gordo. Menção honrosa para aqueles que construíram o personagem de Jaime, este sim, uma das melhores construções da novela, visto que traz consigo defeitos e qualidades como todo ser humano normal: Jaime é corajoso, amoroso, destemido e ao mesmo tempo, preguiçoso, misógino e intempestivo, o que monta um personagem real que, consequentemente, cai na empatia e identificação do público.
Mas e quando os autores já estão “cansados” e usaram toda a dedicação para formar os personagens centrais? O que acontece tem nome: Laura. A personagem não teve a mesma sorte do colega, e se resumiu a ser uma gordinha romântica. O texto é simples: diga “que romântico” ao fim de cada cena e coma um pedaço de baurú. Assim como na construção de Cirilo, a composição de uma personalidade fraca e rasa promove pouquíssima margem para a empatia do espectador e, novamente, você se pega com mais raiva da figura marginalizada por aquela passividade irritante, do que por seus agressores. Por várias vezes me peguei simpatizando e concordando até mesmo com as ofensivas de Paulo (o delinquente da turma), que não poupava a colega: “gorda tonta!”. Ora, mas se era justamente isso que a produção gostaria que ela fosse? Uma gorda tonta, apenas.

Não sei o que é mais absurdo acerca de Laura: a personagem por si só, ou o fato de que a pequena atriz é a filha de uma famosa instruída e ciente do funcionamento do mercado de trabalho de artistas mirins que permitiu essa participação tosca e humilhante. Ninguém menos que Simoni. É até compreensível quando uma família sem muita grana ou familiaridade com o universo televisivo se deixa deslumbrar quando o filho ou filha é escalado para o elenco de uma grande produção. E assim, acaba permitindo e aceitando um papel desagradável ou até mesmo degradante. Mas é vergonhoso e, no mínimo, esquisito quando alguém como Simoni autoriza a participação da filha daquela forma, já que dinheiro não era uma questão.
Até tu, judeu?
Nem mesmo o grupo da própria família Abravanel passou ileso: a novelinha também ama um estereótipo judaico. Homem submisso, frouxo e família rica mão de vaca marcam presença no carrossel dos arquétipos. E sem ao menos disfarçar: em cenas de reuniões de pais, a mãe de Davi, o aluno judeu, é aquela que logo se preocupa com possíveis aumentos da mensalidade. Noutro momento, durante uma festinha escolar, os pais reclamam do preço do saquinho de pipoca e compram só um para dividirem. Davi também sofre um preconceito aqui e ali, principalmente pelo uso da quipá. Mas a situação só fica mais problemática com a chegada de Jorge, o riquinho chato, cheio de preconceitos de classe e raça, que em determinado momento insinua falas nazistas ao se referir a Davi. Mas de forma geral, o judeu é o que vai sobrevivendo com menos arranhões.
Xenofobia não pode faltar
A Escola Mundial apresenta alunos brancos, negros, ricos, pobres, a terra da diversidade. Já deu para perceber que a novela faz a inserção dos personagens diversos, mas sem abrir mão dos estereótipos. Para fechar, temos Graça e Kokimoto (maravilhosos). O estereótipo de Graça é aquele clássico da TV brasileira da mulher nordestina pobre, preguiçosa e cômica. Intelectualmente limitada, a função de Graça é fazer rir… e limpar o chão, claro. Apesar da atriz e da própria personagem conseguirem se sobressair e brilhar, as limitações de texto e produção enchem o saco visando manter esse desnecessário arquétipo: todas as entradas/piadas da funcionária vinham acompanhadas de um forró como trilha sonora. A mesma fórmula se repete com o querido Kokimoto, o “japa” do grupo que, ao fundo de suas tiradas, recebia uma música e um gongo típicos do Japão. Sem contar que toda vez o personagem mencionava ser “um samurai”, “um ninja”, etc.
Não me levem a mal, a novela traz boas coisas e até consegue praticar a inclusão da diversidade de uma forma relevante, especialmente para a época. Menção honrosa para a inserção do personagem Tom, cadeirante na novela e na vida real, que, em cena, não se resume à sua deficiência física. Entretanto, as inserções superficiais e estereotipadas se sobressaem, dando uma imagem errada e irritante dos grupos representados.
Vida irreal
Eu sei, eu sei, licença poética. Mas tudo tem limite, não? Toda hora essas crianças se metiam em alguma situação que na vida real não ia trazer nada que preste. Mas na novelinha, tudo dá certo. Até aí tudo bem, o problema é que as situações transgridem a mera fantasia de, por exemplo, “crianças fazerem um discurso e evitarem o divórcio dos pais”. Vamos aos casos:

– Davi é preso. Sim! O menino de nove anos é detido depois que uma amiguinha da onça de sua sinagoga o convence a pixar junto com ela o muro da delegacia em que o pai dela trabalhava. Quando os policiais vêem a cena, a menina foge e só Davi é pego, com o spray na mão. Resultado, o garoto passa um dia na delegacia ouvindo desaforos dos policiais como se fosse um marginal de históricos terríveis e, de imediato, ninguém telefona para a mãe. Um menor de idade, uma criança que nem saiu do Ensino Fundamental e – preciso dizer – branco e rico, detido numa delegacia de bairro nobre de São Paulo por um delegado TAMBÉM judeu, frequentador da mesma sinagoga do menino. Para completar, Davi recebe visitas dos professores e da mãe, mas não é liberado. O pequeno imbecil também não delata a coleguinha marginal (filha do delegado em questão, pirem nessa trama) então todos assumem que a culpa é dele. Até que ao fim dessa saga que acho que dura dois capítulos, o garoto conta a verdade e o delegado confirma a história com a filha. Nos dias que sucedem este, Davi aos colegas como foi sua estadia “na cadeia”. Onde está o roteirista desse episódio?
– Fugas de casa: Jaime, Mário, Paulo… os meninos de Carrossel fogem de casa toda vez que têm problemas com a família. O incrível é que as fugas são retratadas como aventuras transformadoras e os perigos passageiros e coadjuvantes. Jaime, em uma de suas fugas, por exemplo, faz amizade com mendigos da região, os auto declarados “meninos perdidos”, jovens liderados por Bituca, um senhor que ensina Jaime a tocar gaita. Tudo muito lindo, enquanto a família do menino morre de preocupação e move montanhas para encontrá-lo. O motivo da fuga? Nota baixa. O pai de Jaime é um bronco que, apesar do bom coração, senta a mão no garoto, que não gosta de estudar. A fuga de Paulo é ainda mais fantasiosa, com recursos imaginários, gerando episódios entediantes. Com 10 anos, todo mundo quer desbravar tudo. Imagine com um estímulo destes em que sair pelas ruas de SP sozinho é uma jornada divertida e de poucas consequências. O único com escapadas mais justificáveis e realistas é a do coitado do Mário, que traz uma relação conturbada com a madrasta e um pai meio ausente.
– Flores e chuva: uma das primeiras provas da insanidade de Cirilo é a noite em que ele sai de casa com um buquê de flores para entregar à Maria Joaquina. O garoto chega no início da noite e fica horas em pé no portão esperando ela chegar depois de ter sido enganado por Paulo. A cena ridícula se encerra quando Doutor Miguel chega e encontra Cirilo tremendo e sorrindo (creepy) na porta de sua casa e o leva para dentro.

Não foi possível inserir aqui todas as pérolas proporcionadas pela novelinha e muitos absurdos ficaram de fora. Assim, adapto o convite inicial: assistam, ou não, a essa obra que quer queira, quer não, marcou a infância de uma geração e que, apesar de tudo que foi exposto, traz vários pontos engraçados e, por vezes, relevantes, que servem de certo entretenimento até pra quem já tem 23 anos.

Texto incrível, aborda pontos cirúrgicos! (Até hoje quero as luvas de renda de Maria Joaquina)
Embora me venha algumas palavras pra elogiar a qualidade deste texto, que está indiscutivelmente incrível, me reservo ao direito de rir com cada sacada e pensar: que incrível!