texto Antonio Dilson Neto
rediagramação Henrique Carneiro
publicado em 12 de maio de 2022
O filme “Medida Provisória”, filme lançado em 2022, é o primeiro trabalho do ator baiano Lázaro Ramos como diretor de cinema, e traz uma leitura adaptada da peça teatral “Namíbia, não!”, do também baiano Aldri Anunciação. A história conta sobre uma medida governamental ironicamente numerada como 1888 que, supostamente, visaria reparar a população negra pelos anos de trabalho escravo em terras brasileiras. A solução seria, então, a possibilidade do retorno dos “melaninados” – como são chamadas as pessoas negras no filme – ao que seriam suas terras originais, em África. Inicialmente, como todas as ideias mais absurdas da história, o projeto de “resgate” é trazido como voluntário e ilustrado com uma bela peça de publicidade comercial e é apresentado e defendido como um grande ato de justiça e bondade do governo para com os cidadãos. Quando a migração torna-se compulsória, transforma-se o cenário e começa, de fato, o filme.

Como toda obra cinematográfica – e da arte em geral – críticas podem ser feitas a “Medida Provisória”. Há um quê de novelesco no encadeamento do roteiro e na apresentação dos fatos. Outro ponto a ser considerado, do ponto de vista crítico, é a maneira abrupta como o evento chave da história – a deportação compulsória de negros – é trazido. Bruscamente, tudo muda. Até quem colaborava com o projeto é preso e levado imediatamente embora. Falta explorar um pouco a atmosfera do absurdo que a proposta causaria. Seria uma grande brincadeira? Um fracasso? Uma ideia genial? Ou seria o golpe final no senso democrático e social? O espectador mais detalhista sente falta desse olhar para o clima de tensão. Por último, as personagens carregam um ar caricato muito pesado, desde a caracterização até suas falas. Alie-se isso a ocasionais recursos de humor e têm-se um leve empobrecimento do roteiro.
A Distopia é aqui
Um dos aspectos curiosos do filme é sua proporção distópica. Lázaro Ramos, que, além de diretor, participou do processo de escrita do roteiro, conta que a proposta seria ilustrar uma história à beira do impossível, “que não gostaríamos de ver acontecendo no Brasil”. O projeto e roteiro datam de 2012, enquanto as filmagens foram realizadas em 2019. Desde então, o mundo já se reconfigurou algumas vezes e, aquilo que deveria servir de aviso, tornou-se um retrato da vida real.
Em 28 de abril, portanto, duas semanas após o lançamento de Medida Provisória nos cinemas brasileiros, o Parlamento britânico aprovou um ato normativo para deportar imigrantes ilegais de qualquer nacionalidade para Ruanda, na África. A ideia, custará aos cofres ingleses o valor total de 160 milhões de libras esterlinas (R$820 milhões), valor referente ao acordo de transferência entre os países. Propõe-se que o caso dos imigrantes, todos eles, sejam julgados longe das fronteiras britânicas. A preocupação corrente entre os opositores à ideia é a possibilidade de deportação indiscriminada, graças às lacunas presentes no ato. Assusta a semelhança entre o texto da medida do filme e o da proposta da vida real: ambas amparam-se na ideia de trazer garantias e seguranças tanto para os exilados quanto para quem permanece. A divisão será para trazer reparação e justiça, dizem os dois projetos. Enquanto a distópica “Black Mirror” ainda parece, de alguma forma, distante da realidade, “Medida Provisória” quase soa como uma manchete de jornais de hoje.

A Deportação do outro
Críticas à parte, “Medida Provisória” é um sucesso que excede o produto cinematográfico. A campanha para que o público assistisse o filme no dia da estreia, para garantir o espaço nas salas de cinema, disputado com grandes blockbusters que estrearam no mesmo período, foi uma vitória estrondosa. O filme surpreendeu nas bilheterias e ampliou o circuito exibidor. Para o cinema nacional, a obra representa a sempre presente capacidade de resistir, frente às dificuldades, obstáculos e desmontes planejados. Para o observador atento, é olhar um retrato fiel do mundo que vemos e das incessantes propostas de afastar, destruir, separar e matar tudo aquilo que seja diferente. “Medida Provisória” traz à pauta o inequívoco racismo presente em nossa sociedade. E nossa eterna vontade de deportar o outro e viver entre iguais.

Uma análise bem fundamentada e com um conteúdo que distoa da crítica apenas pelo criticar. As palavras são bem colocadas numa linguagem e form de escrita indiscutivelmente claras. O autor se preocupou em transmitir suas ideias de forma prifissional e objetiva sem deixar trsnsparecer quaisquer indícios de parcialidade ou ideologias. Parabéns. Foi uma das melhores análises que li sobre o filme. Parabéns à Revista Fraude.