texto Ivan Neto
rediagramação Henrique Carneiro
publicado em 26 de maio de 2022
Atenção: essa análise contém spoilers de “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”
Críticos especializados em filmes de super-heróis se reuniram no seu espaço favorito, o Twitter, para destilar suas opiniões e reflexões sobre Doutor Estranho no Multiverso da Loucura no dia 04 de maio. Em geral, filmes da Marvel tendem a ser unânimes para os fãs da cultura pop. Mesmo possuindo uma óbvia fórmula para todos os filmes, que é inegável o sucesso, o entretenimento proporcionado em conjunto com o carisma dos grandes atores de Hollywood sempre deixam o seu público em estado de euforia.

Entretanto, ao abrir a timeline e checar os tweets que discutiam o blockbuster, era nítido as divergências opinativas que o circundavam. Seria a exaustão de uma fórmula tão batida? A falta de qualidade nos efeitos visuais? A incorporação do horror dentro de um universo cinematográfico em que a cada 1 cena de ação, há 2 de comédia? Ou teria sido as altíssimas expectativas dos fãs?
De quem é a culpa?
E o grande vilão do filme se mostra logo no início: o roteiro. Ir ao cinema e consumir um filme da Marvel esperando a complexidade de Parasita é, no mínimo, imperdoável. Comparações são feitas com coisas compatíveis. Porém, mesmo dentro do UCM (Universo Cinematográfico da Marvel), a sequência de Doutor Estranho fica abaixo não somente das expectativas criadas, mas até de outras obras dentro da própria Marvel.
Ao repetir o plot de Wandavision e tornar a Feiticeira Escarlate a vilã (que necessitará de uma redenção em breve, caso queira continuar na UCM), a personagem regride dentro da própria narrativa. Outros temas e abordagens poderiam ter sido feitos para dar complexidade e substância para a construção da história.

Vilanizar uma mulher que, há 1 ano atrás, transformou uma cidade e manteve como reféns seus habitantes, e que já havia passado por um processo de luto e aceitação, torna a história de Wanda Maximoff circular. Após Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, caso a personagem reapareça novamente, qual será sua história?
A luz (que não chega ao fim do túnel)
Nota-se a atuação impecável de Elizabeth Olsen, que consegue mostrar todas as nuances da personagem ao longo do filme. Além disso, as cenas de ação envolvendo a Feiticeira Escarlate são bem coreografadas, além da extensão de seus poderes ser bem utilizada. A infinita criatividade de Sam Raimi merece ser enaltecida. Benedict Cumberbatch segue fazendo um excelente papel ao interpretar o ex-Mago Supremo, por mais que o storytelling de seu personagem tenha sido raso. Tornar concreto a construção de 2 personagens complexos, cada um com seu protagonismo, em apenas 2 horas, era uma missão falha desde o início.

Falando nele, se o roteiro é o antagonista do filme, temos aqui o protagonista: o diretor. Ao trazer suas marcas e características para as telas do UCM, Sam brinca ao incrementar elementos do horror, como jump scare, e constrói uma ótima ambientação, que jamais havia sido vista em filmes da Marvel. Com direito à trilha sonora específica dos clássicos do terror, o telespectador mais amedrontado consegue tomar até alguns assuntos durante o filme.
Os infinitos problemas no multiverso do roteiro
Um dos problemas do roteiro é a sua simplicidade. A obra tem como tema uma personagem que, ao ser influenciada por um livro do mal, decide erradicar quem se opor as suas ideias. Há algo mais clichê? E a maior problemática do filme é continuar a partir disso. A primeira solução é encontrar a antítese desse problema, ou seja, o livro do bem. Com a função de resolver todos os problemas malignos através da magia, esse artifício de roteiro poderia ter sido escrito por qualquer um. Como se estivéssemos assistindo um episódio de Caverna do Dragão.
A complexidade da trama de Killmonger, em “Pantera Negra”, e o desenvolvimento do Thanos, em “Guerra Infinita”, mostram que é possível a construção de um vilão sem ser apenas maniqueísta. Toda a questão da maternidade da Wanda é até trabalhada, mas faltou tempo de tela para que o telespectador entendesse mais as motivações da vilã (principalmente para quem não assistiu Wandavision).

Para recuperar o Darkhold, o filme monta um malabarismo narrativo para permitir que Wanda siga com seus planos. Descobre-se que há uma cópia do livro na Montanha Wundagore. E para revelar esse grande segredo, que apenas Wong (atual Mago Supremo), sabia, bastou a Wanda ameaçar 4 magos e pronto, um segredo que poderia exterminar universos foi revelado.
Outro ponto central que o roteiro subutiliza: America Chavez. A porta para o multiverso. Com um poder de perpassar por universos, a adolescente não tem a construção narrativa que precisava para um afeiçoamento maior do público. E a virada para a utilização de seus poderes, tema que é discutido durante todo o filme, é resolvida com uma frase motivacional do Doutor Estranho, que poderia ter sido dita antes. Ao confrontar 72 multiversos, uma noção de autoconfiança já era esperada.
Apesar do primeiro ato do filme ser corrido, o segundo, com as cenas de batalha entre Wanda e o grupo Iluminatti (que arrancaram gritos de qualquer seção) preenchem bem o momento até a chegada do terceiro. Mas é nesse ponto que o filme desanda de vez. Ao deixar o clímax da obra para o segundo ato, o telespectador tem a sensação de que não há mais nada de tão espetacular no filme. Um final extremamente eletrizante e épico é uma característica da Marvel. A batalha entre Thor e Hela em “Thor: Ragnarok” é uma sequência de efeitos e luzes, momentos badass e de extremo aflito para quem assiste. São esses os sentimentos a serem despertados. A batalha entre o Doutor Estranho, na versão The Walking Dead, contra a Wanda é extremamente insatisfatória. A cena não chega nem a ser arrepiante, que dirá épica.
Em resumo, de um dos filmes mais esperados da nova fase do UCM, Doutor Estranho desaponta por sua simplicidade e inova por sua estética. Com uma cena pós-crédito que não é nem cômica (não há relatos de alguém que tenha achado aquilo engraçado), até aquele sentimento de “Deus, quando é o próximo filme?”, desaparece. A outra cena, com a personagem de Charlize Theron, até anima aqueles mais esperançosos para as próximas produções. Que o próximo multiverso tenha, ao menos, um bom roteiro.
