texto Antonio Dilson
publicado em 08 de setembro de 2022
Qualquer pessoa que tenha tido acesso à internet ou a notícias durante os primeiros meses do ano deparou-se com a nuvem sombria da possibilidade de um golpe acontecer durante as comemorações do bicentenário da independência do Brasil. Como os roteiristas desse país não brincam em serviço nem economizam nas reviravoltas, o que recebemos foi completamente diferente daquilo que esperávamos – mais uma vez.
A escalada da instabilidade institucional criada e alimentada pelo chefe do Executivo, a subida do tom agressivo nos discursos e as supostas preparações para exibição do poderio militar durante o 7 de setembro: nenhuma expectativa nos preparou para o espetáculo que veio. Nem a pomposa chegada de uma parte embalsamada do corpo do primeiro imperador brasileiro (vinda à revelia dos desejos do próprio) conseguiu assumir o centro das atenções da celebração. Tudo se resumiu ao tônus do pênis do presidente da República.
Dos paraquedistas caindo em Copacabana e Ipanema à van entalada na marquise do Alvorada, tosquice é a palavra que melhor caberia para definir os festejos da Independência. Para ilustrar, se precisássemos, bastaria olhar a cara do presidente de Portugal preso na tribuna de honra do desfile cívico ao lado do empresário alvo da Polícia Federal com seu terninho verde.
A esquete ruim ficou marcada também (e principalmente) pelas ausências. Nem o presidente do Congresso, nem o do Senado e muito menos o do Superior Tribunal Federal emprestaram suas presenças ao comício. Os ausentes preferiram usar as redes sociais para divulgar mensagem sobre o 7 de Setembro em notas, tweets e postagens. A verdade é que ninguém tem demonstrado muito interesse em receber os respingos da lama onde o presidente parece brincar isolado.
Aqui, até para golpe de Estado falta tônus. O que sobra para nós, com duzentos aninhos de independência, é assistir o capitão berrar algumas vezes para a multidão que é imbroxável, imbroxável e imbroxável. Talvez, para a plateia verde-e-amarelo faça sentido defender a família e a heterossexualidade enquanto ouve o presidente da República cantar as belezas de sua performance sexual. Coitada mesmo é a imprensa internacional, tendo que traduzir o Brasil atual para tantas línguas.
