texto Stella Ribeiro
imagens Stella Ribeiro
rediagramação Bernardo Maia
Publicado em 22.09.2022.
Alice está sentada na calçada esperando por alguma coisa.
“Alice, o que você espera? Por que você está aí?”
Ela olha atentamente para os carros que passam na rua.
“Me conte Alice, qual é o seu segredo?”
Ela olha para os lados e se levanta. Sob a luz vermelha, prossegue. Entre os ferros e metais cinzas, Alice parece um anjo, com seus cabelos loiros, seu vestidinho azul delicado, uma mochila meio esfarrapada e um sorriso.
“Alice, você sabe que não pode voltar para casa.”
Do outro lado da calçada, entre homens e mulheres, ela segue até um lugar conhecido, o parque onde as crianças do bairro brincam e onde costumava ir todo o final de tarde. Ela senta em seu balanço predileto.
“Como você pode ficar tão calma quando tudo o que você viveu se foi? Alice, qual é o seu segredo? ”
Após alguns minutos, a garota se levanta do balanço e olha para o grande prédio cheio de espelhos a uns dois quarteirões de onde está.
“Então é para lá que você vai? Está escurecendo, deve ir rápido.”
Alice segue até o prédio.
Ruas, carros, homens, mulheres.
“Rápido.”
Ruas, carros, homens, mulheres, prédios, fumaça.
“Mais rápido.”
Ruas, carros, homens, mulheres, fumaça, lixo.
“Alice, está escurecendo.”
Ruas, carros, homens, mulheres, fumaça, lixo.
“Chegando, quase chegando.”
Ruas, carros, homens, mães, pais, filhos, gritos, gritos, gritos…
“Chegou.”
Alice contempla o prédio espelhado e passa por uma enorme porta de vidro. Atravessando a recepção, ela adentra o elevador e aperta o botão do décimo quinto andar. Lá ela espera.
Muitos entram e saem, sem dar atenção à sua pequenina presença. Chegando em seu andar, Alice sai do elevador e se dirige a uma porta no fim do corredor. Assim que a abre, se depara com a visão da cidade.
O pôr do sol se apresenta, declarando um bonito fim de tarde.
“Alice, qual é o seu segredo? Me conte antes que seja tarde.”
A garota joga sua mochila no chão e vai para a beirada do telhado. Respira. Uma longa expiração. Ela olha para o pôr do sol, para as pessoas que lá embaixo estão, os carros e a fumaça que sobe até onde ela está. E salta. Alice parece um anjo, seu vestido azul contra o vento e seu cabelo esvoaçante.
“Ao final, Alice sabe para onde está indo”.
