21 de julho de 2023

DESTA SAGRADA COLINA

By In Fraude 23

Um retrato dos ambulantes do Bonfim

Audiodescrição da reportagem

texto Anne Meire Ribeiro e Daniel Araújo
multimídia Israel Risan
colagem Juliana Barbosa
diagramação Gabriel Oliveira
narração Luanda Costa
rediagramação Vanessa Jesus

Seja para Oxalá ou para o Senhor do Bonfim, inúmeras pessoas amarram fitinhas e realizam suas preces anualmente a fim de agradecer ou de fazer pedidos na maior representação material de sincretismo religioso de Salvador, a Basílica do Senhor do Bonfim. Ao redor da igreja, vendedores ambulantes completam a experiência turística com suas fitinhas, água de coco, pipoca e cocada. Ofício que algumas vezes é passado entre gerações e ajuda a formar famílias baianas integradas à colina sagrada.

Lúcia Campos – Ambulante do Bonfim
(Fotografia: Israel Risan)

Lúcia Campos, 68, que vende fitinhas, terços e outros adereços no Bonfim, diferente da Igreja, não é natural de Salvador. Quem passa e vê o sorriso largo nem imagina a trajetória que a trouxe até a capital baiana. “Sou paulista, vim com minha mãe para Salvador, aqui ela teve um mal de saúde e faleceu. Ficou só eu e Deus no juizado de menores. Fui adotada e essa família me levou para o Rio de Janeiro. Não gostei de lá, queria voltar para Bahia.” A vendedora ainda relatou maus tratos de sua família adotiva. “A mulher cortou meu cabelo todo, disse que eu tinha que parecer a empregada e não a patroa”, conta.

Lúcia trabalhou em vários lugares até decidir que gostaria de montar uma banca. “Tive um emprego no Bompreço e em uma loja grande que tinha aqui na região. Depois dei a louca e falei ‘eu vou trabalhar para mim’”, diz a vendedora, que há 45 anos teve ajuda para conseguir a licença de ambulante no Bonfim. “Não tinha autorização para vender aqui. Falei com o padre, ele disse ‘vou conversar e te colocar aí’. Não deu outra. Recebi uma cartinha para ir lá. Quando cheguei, ganhei minha licença”, completa.

“eu venho desde meus oito anos. É de geração. Minha bisavó que começou a trabalhar aqui, passou para minha avó, que passou pra minha mãe”
jéssica campos

Diferente de Lúcia, a soteropolitana Jéssica Campos, 32, iniciou no ofício de ambulante por hereditariedade, trabalhando com a mãe. “Eu venho desde meus oito anos. É de geração. Minha bisavó que começou a trabalhar aqui, passou para minha avó, que passou pra minha mãe”, contou a vendedora que ainda tem outros familiares trabalhando na colina, como tios e primos, em outras bancas.

Barracas de ambulantes do Bonfim (Fotografia: Israel Risan)

Joselita Nunes, 45, também iniciou como ambulante por influência familiar. “Minha mãe me levava às vezes, só pra apreciar a festa. Comecei a vender lá depois de adulta, não houve passagem de ponto da minha mãe para mim, nós duas trabalhamos na mesma barraquinha”, conta . Ela relata com satisfação sobre a sociedade com a mãe. “É muito bom, né? A gente se dá muito bem. Na hora de dividir as coisas, de comprar mercadoria e vender.”

O trabalho de ambulante proporciona experiências que se tornam memórias marcantes. Lúcia comenta com realização sobre suas vivências como comerciante no Bonfim. “Deixei meu trabalho, botei minha banquinha e conheço muita gente. Engraçado que o povo quando chega aqui me pergunta ‘lembra de mim, não? Comprei isso e aquilo’, mas é muita gente e muito tempo, acabo esquecendo”, menciona. Jéssica também fala com leveza sobre o trabalho e a relação com os turistas. “Poxa, os turistas são muito massa. Eu acho que é por isso que a gente gosta, quando chegam aqui vem de braços abertos, tanto pra comprar quanto para conhecer, são receptivos.”

Dai-nos a graça divina

Na Bahia, a fé no Senhor do Bonfim mistura elementos do catolicismo com as religiões de matriz africana, que incluem fitas coloridas representando os orixás, oferendas e rituais. Originalmente, a imagem do Senhor do Bonfim era venerada como santo católico em Portugal, mas a devoção foi incorporada à cultura afro-brasileira.

Igreja Nosso Senhor do Bonfim
(Fotografia: Israel Risan)

A Lavagem do Bonfim é uma celebração que ocorre anualmente na segunda quinta-feira do ano. Realizada há mais de 200 anos, reúne uma multidão para caminhar oito quilômetros, da Basílica Nossa Senhora da Conceição da Praia, no Comércio, até a Colina Sagrada. O dia que representa ser de ótimas vendas para a maioria dos ambulantes, é ainda mais significativo para Joselita. “Eu creio muito no Senhor do Bonfim. Tenho um filho que teve meningite aos dois anos. Em um dia de Lavagem do Bonfim, ele começou a apresentar os sintomas. Quando soube do diagnóstico, comecei a rotina de ir trabalhar e depois voltar para o hospital. Todo dia eu pedia ao Senhor do Bonfim a cura do meu filho. Hoje ele tem 15 anos e está aqui pra contar a história”, relata.

“eu pedi a Deus para ver ele viver. Foi milagre, porque eu tenho fé Nele”
lúcia campos

Para os ambulantes do Bonfim a fé é uma importante ligação entre eles e o local, e muitas vezes o ofício se mistura com a devoção. Lúcia relata igualmente suas experiências com o sagrado. “Eu tenho um filho que é dependente químico. Brigando, ele mexeu com um cara, discutiu e foi esfaqueado, quase morreu. Eu pedi a Deus para ver ele viver. Foi milagre, porque eu tenho fé Nele”, narra a camelô.

Jéssica destaca como trabalhar na colina sagrada fortalece sua relação com a fé no Senhor do Bonfim. “Não tem como você trabalhar aqui e não ser devoto, né.” Essa crença faz ela enxergar um milagre diário na própria vida. “Acordar todo dia é um milagre, ter disposição, respirar, tudo isso”, enfatiza a vendedora.

Recepcionistas da Mansão da misericórdia

O hino do Senhor do Bonfim se refere à igreja no topo da colina sagrada como “Mansão da misericórdia”. Para o atual reitor da basílica, padre Edson, 66, a construção é mais que um ponto turístico. “Eu acho que a Basílica é o coração da cidade e é uma referência em Salvador. Considero a Igreja do Bonfim como um pronto socorro espiritual, um lugar que as pessoas buscam para tudo na vida. Se estão tristes, se estão precisando de algo, se querem agradecer, vêm aqui buscar força, buscar ânimo”, afirma.

Padre Edson é criador da Obra Social Bom Samaritano, que assiste pessoas em situação de vulnerabilidade na região do Bonfim. Além disso, o projeto também auxilia os ambulantes. Para Eliana de Souza, 73, coordenadora da organização, “Edson tem uma preocupação enorme com os ambulantes da praça, para ele são ‘os anfitriões do Bonfim’”, afirma. 

A obra Social Bom Samaritano, além de missas mensais exclusivas para os ambulantes, entrega cestas básicas em épocas específicas do ano, como Natal e Páscoa. Também oferece, em parceria com o Senac, cursos em diferentes áreas como costura, maquiagem e de capacitação em atendimento ao turista. Uma ótima iniciativa para melhorar a abordagem aos clientes e diminuir o índice de assédios aos que visitam o local.

“eles brigam por esse lugar, tem um pertencimento forte”
eliana de souza

Essa rede de suporte fortalece a sensação de pertencimento que os ambulantes têm com o Bonfim. “Aqui eles têm o nosso apoio. Eu tenho uma proximidade muito grande com os camelôs, e devido a assistência que recebem, se sentem acolhidos e protegidos. Acabo sabendo de tudo da vida deles. Às vezes são problemas pessoais. Qualquer coisa que acontece, eles nos procuram”, diz o padre. “Eles brigam por esse lugar, tem um pertencimento forte”, reforça Eliana.

Padre Edson (Fotografia: Luanne Ribeiro)

Nos arredores da basílica encontram-se figuras tão características de Salvador quanto a própria igreja, vendedores ambulantes de diversas origens que, através do seu ofício, criaram vínculos mais profundos que apenas os de trabalho. Para padre Edson, “nesse lugar as portas estão sempre abertas. Depois que cheguei aqui, adotei uma filosofia de que, independente de religião, raça, condição social ou status, todo mundo é bem-vindo.”

De acordo com a Secretaria Municipal de Ordem Pública (SEMOP), estão registrados 235 camelôs no Bonfim. O comércio ambulante em Salvador possui raízes no período colonial. Naquela época, vendedores circulavam pelas ruas da cidade comercializando uma ampla variedade de produtos, incluindo alimentos, roupas e artesanatos. Ao decorrer do tempo, começaram a se estabelecer em locais fixos, tais como praças e ruas comerciais. Para Joselita, “os ambulantes movimentam essa cidade. Quando o turista chega, já acostumado com aquelas barraquinhas, e [se um dia] de repente aquele movimento não existe mais, ele sente falta”, afirma a vendedora.

Anne Meire Ribeiro e Daniel Araujo

Essa reportagem foi feita por Anne Meire Ribeiro e Daniel Araújo, ambos do curso de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia e integrantes do PETCOM.

Fotografia: Raquel Franco / Labfoto
Assistência e edição: Eloá Silva  / Labfoto

1 Comment
  1. Edeise Gomes Cardoso Santos 18 de julho de 2023

    Bom saber um pouco mais sobre a colina a partir do olhar de quem trabalha no local.

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