A poesia como ferramenta de construção dos jovens na periferia
texto Israel Risan e Juliana Barbosa
multimídia Yan Inácio
colagem Juliana Barbosa
diagramação Vanessa Cunha
narração Arthur Soll
rediagramação Vanessa Jesus
As letras de artistas como Racionais MC’s, O Rappa, Criolo e Emicida marcaram uma geração de jovens brasileiros nascidos e criados nas regiões periféricas das grandes cidades. A representatividade destes artistas na cena cultural nacional inspira adolescentes a compor letras que refletem suas vivências, dando visibilidade à produção cultural periférica.
Para esses jovens, escrever é como uma válvula de escape, através de versos que externalizam os sentimentos do dia a dia. Em Salvador, desde o final dos anos 1980, são realizados eventos, como batalhas de rima, saraus e slams, que visam a valorização e manutenção dessa expressão artística que ainda luta pelo fim da sua marginalização.
Os artistas periféricos propõem a ressignificação do conceito e apropriação da poesia, que por muito tempo foi associada a escritores renomados. Bruna Hercog, 38, jornalista e pesquisadora em cultura e sociedade, analisa uma possível quebra de estereótipos com a expansão dessa arte nas comunidades. “A galera que faz o movimento de periferia quebra a própria ideia do que é poesia, do que é arte e de quem tem direito a ser artista”, explica.
“poesia remete muito àquela questão de [escritores] homens brancos, velhos, dentro da academia”
juliana valle
Juliana Valle, 29, slammaster do Slam das mulé e produtora independente aponta sobre a falta de representatividade no cânone literário. “Poesia remete muito àquela questão de [escritores] homens brancos, velhos, dentro da academia. Quando a gente chega na escola e pergunta quem é que gosta de poesia, ninguém gosta. Porque temos a lembrança dessas poesias que não conseguimos entender, desses autores que não conversam com a nossa realidade”.



A manifestação da arte nesses locais promove a aproximação de uma camada da população que antes via a poesia como algo distante. Para Bruna Hercog a expansão da poesia periférica inverte essas posições na sociedade. “A gente tem que aprender a escutar e a ler o que está sendo dito, a entender como funciona a dinâmica. Tudo ali está mobilizado, desde a economia pra coisa funcionar financeiramente até cuidar da estrutura do lugar”, reconhece a pesquisadora.
Movimento cultural, arte e poesia
No final da década de 1990, nas regiões periféricas da cidade de São Paulo, um movimento cultural ganha proporção nacional e consegue influenciar o público em outros estados: a poesia marginal. O reconhecimento e participação das pessoas culminaram na disseminação da produção cultural e na criação de novos espaços de interação na periferia. “Mas é um processo em cadeia. Uma galera começa ali e vai jogando pra lá e cada estado vai se organizando”, comenta Bruna Hercog.
O entusiasta da poesia periférica Mário de Castro Neto, 19, considera frequentar espaços que dão acesso à arte e poesia uma atividade importante para a construção pessoal dos jovens periféricos. “Ir a esses locais é estar confortável em um ambiente, porque existem diversas pessoas que têm a mesma realidade que você e passam pelas mesmas dificuldades”, explica. Existem duas classificações principais de eventos que permitem esses acontecimentos: os saraus e os slams.

O sarau em territórios periféricos surge como uma reunião, onde convidados recitam seus poemas e poesias, visando fortalecer a identidade do local. Já o slam é uma competição de poesia entre poetas da comunidade que se candidatam a participar no momento. Esse segundo formato oferece um resultado classificatório para outras competições, que podem acontecer em níveis regional, estadual e nacional. Como recompensa, os vencedores recebem prêmios em dinheiro ou de valor simbólico, como pinturas, ensaios fotográficos ou objetos.
“o Slam nasceu da sede de produzir e gerar lugares que não encontrava no meu bairro […]”
daniel matos
Daniel Matos, 26, poeta e estudante de letras, conta que a inspiração para a criação do Slam Dê Ideia, projeto idealizado e produzido por ele, veio da necessidade de promover um evento que oferecesse encontros entre jovens. “O Slam nasceu da sede de produzir e gerar lugares que não encontrava no meu bairro e que pudesse se tornar mais um dos espaços fixos aqui de Salvador”, explica. A primeira edição do evento ocorreu na Baixa do Bonfim, em janeiro de 2023, e reuniu pessoas de diferentes idades e localidades, encorajando, além da troca artística, a interação social na região escolhida.


É o exemplo também de Ras Pareta Calderasch, 30, poeta e apresentador, criador do Sarau do Gheto e do Slam do Gheto, realizados no bairro do São Caetano. Na visão de Pareta, incentivar a poesia periférica local é investir em todas as vertentes possíveis, por isso, desde os anos 2000, ele proporciona oficinas de literatura contemporânea nas escolas públicas de Salvador. “As oficinas não eram constantes, mas a gente sempre era chamado para fazer essas atividades nas escolas. Com a criação do Sarau do Gheto, intensifiquei mais [essas ações]”, conta.


Para Mário de Castro, a mediação da escola foi importante nesse processo. “No meu colégio, a diretora tinha a iniciativa de buscar qualquer tipo de talento que os alunos tivessem, então conheci vários projetos sobre poesia periférica, proporcionando meu primeiro contato com o assunto”, explica. O jovem ainda menciona que essa atividade fez com que surgissem rodas de rima na escola, o que o aproximou ainda mais dessa produção artística.
Lei da sobrevivência

Juliana Valle conta que o Slam das Mulé não recebe nenhum apoio financeiro. “O nosso coletivo é independente, mas a gente sempre esteve aberto a parcerias. Buscamos durante muito tempo [colaboração] com a Prefeitura de Camaçari e com a Secretaria da Cultura, mas essa porta nunca foi aberta”. Essa situação é um reflexo de como a sociedade ainda marginaliza essa expressão artística. “Enxergam a gente da forma mais pejorativa que pode existir, então isso acaba limitando as parcerias e crença em nosso projeto”, comenta a produtora.
A carência de incentivo governamental ainda é um grande problema para esta cena cultural. “A falta de financiamento faz com que muitos coletivos comecem e não se mantenham, porque as pessoas precisam pagar as contas. Faltam políticas públicas pensadas e estruturadas para fortalecer esse setor”, ressalta Hercog.
“a lei de ordem pra mim é sempre assim: chegou, recitou, roda o chapéu. Pode rolar dinheiro, não rolar. Rolar palmas ou não rolar. Então, independente da situação do ônibus, a gente sai agradecendo”
ras pareta calderasch
Com o objetivo não só de gerar lucros, mas também alcançar outros públicos, Pareta Calderasch passou a fazer poesias nos ônibus em 2008 e, mais recentemente, no ferry boat. “Trabalhava na prefeitura na época, saí de lá e comecei a fazer poesia no buzu. Tem gente que fala que começou a ler porque viu o trabalho lá, a receptividade foi maravilhosa”, conta. Para ele, o mais importante é que a mensagem seja passada. “A lei de ordem pra mim é sempre assim: chegou, recitou, roda o chapéu. Pode rolar dinheiro, não rolar. Rolar palmas ou não rolar. Então, independente da situação do ônibus, a gente sai agradecendo”, garante.
Essas estratégias são necessárias para fazer com que a poesia periférica tenha seu espaço valorizado nas cenas culturais. “Às vezes a gente paga caro num ingresso para ver uma atração de fora e quando tem um evento local com artistas locais pela metade do preço a gente acha caro”, destaca Daniel. O estudante defende o fortalecimento da cultura local em todos os âmbitos e todas as produções artísticas e reconhece a necessidade de persistência para alcançar algum reconhecimento. “Tem porta que a gente tem que abrir, tem porta que a gente tem que bater e tem umas que a gente tem que meter o pé pra poder chegar”, determina.
No mapa abaixo, é possível visualizar o endereço de cada slam e/ou sarau que foram apresentados durante a matéria.

