Explore a boemia no Centro da capital baiana
texto Pedro Hassan S. Palmeira
multimídia Rafaella Paternostro
colagem Caique Lisboa
diagramação Mariana Passos
narração Gabriel Oliveira
rediagramação Vanessa Jesus
Com mais uma edição da Fraude, já sabe o que também está de volta, não é?! Isso mesmo, o nosso queridíssimo Selo Fraude de Qualidade! E nessa edição fizemos um tour por quatro bares, cada um localizado em um largo diferente no Centro da cidade de Salvador. Os escolhidos da vez foram os largos da Palma, Saúde, Garcia e Dois de Julho.
Mas antes de tudo, você sabe o que é um largo? São espaços públicos da cidade, abertos, que servem de passagem. Normalmente são calçados em pedra e possuem um comércio local ativo à sua volta, onde pessoas se reúnem para descontração, lazer e apreciação da boemia. Os largos também são responsáveis pela circulação da economia no bairro.
Contudo, quando falamos de largos e boemia em Salvador, certamente o primeiro pensamento que deve vir à sua mente são os largos da Mariquita (ou de Cira, como é conhecido), Santana (de Dinha), Pelourinho ou Santo Antônio Além do Carmo. Foi justamente fugindo desses destinos mais famosos e convencionais, que resolvemos visitar quatro lugares não tão óbvios.
LARGO DA PALMA / MOURARIA
Localizado no bairro de Nazaré, o Largo da Palma fica em frente a uma das igrejas mais antigas da cidade, inaugurada em 1630, a Igreja da Palma. Porém, é atrás dela, na Mouraria, pela variedade extensa de restaurantes e bares, que a região hoje é mais conhecida. Principalmente por sua tradição da venda de lambretas e de uma boa cerveja gelada para acompanhar.
Curiosidade: Você sabe por que a Mouraria tem esse nome? Durante o século XVII, a região era ocupada por um acampamento de ciganos que vieram de Portugal fugidos da Inquisição e foram confundidos com mouros, povo africano que vivia no Norte de África.
Boteco do Bigú
Localização: Rua da Mouraria, 104 – Nazaré / ao lado do Quartel da Mouraria
- Ambiente:⭐⭐⭐⭐
- Atendimento:⭐⭐⭐⭐⭐
- Variedade do Cardápio:⭐⭐⭐⭐⭐
- Custo-Benefício:⭐⭐⭐⭐
- Sabor do Prato Escolhido:⭐⭐⭐⭐
- “Gelômetro” da Bebida: ????
O que foi consumido: Filé da Resenha; Porção de bolinho de bacalhau; Refrigerante
Gelômetro: medidor que visa determinar o quão gelada era a temperatura da bebida consumida.
Logo à primeira vista, ao chegar na Mouraria, é impossível não notar que o Boteco do Bigú se destaca. O bar fica localizado bem no início do acesso, se sobressaindo dos demais com uma decoração temática de futebol, inspirada na história do proprietário e ex-jogador, Marivaldo Leandro, Bigú, 52. O estabelecimento é organizado, limpo e aconchegante.
Os pratos que escolhemos foram bolinhos de bacalhau (R$ 24,90) e o Filé da Resenha, uma porção de sardinhas abertas empanadas com queijo gratinado, acompanhada de pimentas biquinho e um molho especial da casa, MA-RA-VI-LHO-SO! Esse prato foi desenvolvido especialmente para a 23ª edição do Comida di Buteco. Garantimos, pela qualidade e preço acessível de R$ 30,00 que valeu muito a pena experimentar. Para acompanhar esses deliciosos petiscos, escolhemos tomar um refrigerante KS (R$ 6,90), que estava bem geladinho e casou muito bem com os pratos e com o climinha de fim de tarde.
Quando pedimos uma recomendação de prato a Bigú e a sua companheira Jeane Santos, 47, nos sugeriram a tradicional e premiada moqueca baiana do boteco. “Quando se fala da Mouraria, o pessoal só pensa em lambreta. Depois dela, aqui no Boteco do Bigú, o carro chefe são as moquecas mesmo. Outra coisa que o pessoal também pede bastante é o queijo coalho ao molho de camarão”. Infelizmente, por um de nós ser alérgico, tivemos que deixar passar, mas fica a dica.
Bigú começou seu negócio com a venda de espetinhos na Mouraria e, com o tempo, conseguiu conquistar seu espaço. Em dezembro deste ano, o comerciante comemora dez anos à frente do seu boteco. Certamente nossa recomendação para o Largo da Palma não poderia ser melhor. Ambiente perfeito para quem gosta de sair para tomar uma cervejinha em um lugar diferente durante a tarde de um final de semana.
LARGO DA SAÚDE / LARGO DO GODINHO
Localizado no bairro de mesmo nome, o Largo da Saúde une ao redor da Igreja de Nossa Senhora da Saúde e Glória alguns botecos e restaurantes. A variedade é grande, há opções para todos os gostos, desde aqueles que buscam algo mais simples, até as mais sofisticadas experiências. Durante os finais de semana sempre há som ao vivo, além da marca registrada que deu fama à região: a garantia de cerveja extremamente gelada.
Bar do Léo
Localização: Largo do Godinho, 63 – Saúde / ao lado da Igreja de Nossa Senhora da Saúde e Glória
- Ambiente: ⭐⭐⭐⭐
- Atendimento:⭐⭐⭐⭐⭐
- Variedade do Cardápio:⭐⭐⭐⭐
- Custo-Benefício:⭐⭐⭐⭐
- Sabor do Prato Escolhido:⭐⭐⭐⭐⭐
- “Gelômetro” da Bebida:?????
O que foi consumido: Porção de camarão encapotado na tapioca; Porção de bolinho de carne de fumeiro com banana da terra; Chope de vinho; Chope de ice
O Bar do Léo é um ambiente onde qualquer um se sentiria bem. Quem confirma isso é o proprietário, Leandro Alonso, 39, mais conhecido como Léo. Ele sempre morou na mesma rua do bar e acredita que o que torna o lugar único é a sua relação afetiva com os clientes, por se tratar de um comércio familiar que passou de pai para filho.
Por possuir um público variado, tanto de moradores da região como dos mais espalhados bairros de Salvador, o bar abraça mais de um perfil de clientela, “Nós temos dois públicos, dois momentos. O primeiro na quarta e quinta, um público mais tranquilo, de pessoas mais maduras, acima de 35 anos, que vem para bater papo, conversar, assistir jogos. Já o segundo, na sexta, sábado e domingo, um público muito mais jovem, a galera da azaração, que fica na rua pra lá e pra cá, ouvindo música e paquerando”, aponta Léo.
Famoso pela venda de uma bebida nada tradicional por aqui, chope de vinho, o Bar do Léo foge do óbvio ao oferecer uma bebida bem diferenciada em seu cardápio. “Sai gente da cidade inteira para vir para cá provar. Temos dois tipos de chope de vinho, branco e tinto, e agora uma novidade que é o chope ice”, afirma com orgulho Léo ao descrever o sucesso das bebidas.
A ideia de vender o chope surgiu a partir de uma das suas viagens a trabalho como músico, “Fui para o sul do país e vi em um restaurante as pessoas tomando. Trouxe algumas caixas para poder distribuir, porque me veio na cabeça ‘é diferente, Salvador não tem essa tradição, vamos ver como é que a gente faz ao trazer algo novo’, e foi tiro e queda. Trouxe uma quantidade e dei para algumas pessoas provarem. Elas não sabiam o que era, mas sentiam o gosto de uva, de vinho, mas gelado, gaseificado e perguntavam sobre a bebida”, conta Léo.
Com uma deixa dessas, não poderíamos ficar sem provar o chope. Escolhemos um de vinho e outro de ice. Estavam uma delícia, bem geladinhos e gaseificados. Cada um sai pelo valor de R$ 10,99. Aprovadíssimos, vale a experiência até para aqueles que não são tão fãs de vinho. Caso não seja do interesse do cliente experimentar um chope, o bar ainda oferece, além da tradicional cerveja, o caipilé e o roskalé, bebidas acompanhadas de um picolé.
Já para comer no bar, segundo Leo, “os pontos fortes são o camarão encapotado na tapioca, a moela com pão e a lambreta gigante.” Portanto, seguindo sua recomendação, resolvemos pedir o camarão encapotado na tapioca (R$ 32,00) e bolinhos de carne de fumeiro com banana da terra (R$ 22,99) para a degustação, estavam deliciosos.
O Bar do Léo funciona de quarta-feira à domingo, das 16h às 22h. E tem ao seu entorno no Largo do Godinho uma grande variedade de opções de lugares para comer, de espetinhos, pastéis, hambúrgueres, pizzas à restaurantes mais sofisticados.
LARGO DO GARCIA
Situado no final de linha de um dos bairros mais antigos de Salvador, na praça Marquês de Olinda, próximo a Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, o Largo do Garcia está localizado no bairro de mesmo nome. O Garcia, que é conhecido pelas tradicionais manifestações de protestos sociais através da Mudança do Garcia, que acontecem nas segundas-feiras de Carnaval, também é berço de Riachão, do samba e do partido alto. Por estar posicionado no Centro da cidade, perto do Campo Grande, com acesso bem próximo ao Teatro Castro Alves, é um local que tem uma forte ligação com a própria história da cidade.
Bar do Dedeu
Localização: Praça Marquês de Olinda, 4 – Garcia / próximo a Paróquia Nossa Senhora de Lourdes
- Ambiente:⭐⭐⭐
- Atendimento:⭐⭐⭐
- Variedade do Cardápio:⭐⭐⭐
- Custo-Benefício:⭐⭐⭐⭐⭐
- Sabor do Prato Escolhido:⭐⭐⭐⭐
- “Gelômetro” da Bebida:????
O que foi consumido: Porção individual do prato de rabada; Cerveja (600ml); Lata de refrigerante
Um bar de bairro, simples, que normalmente é frequentado pelos moradores que nasceram e cresceram à sua volta, esse é o Bar do Dedeu. Mesa e cadeiras de plástico, cerveja barata, comida boa e bem servida. Local que não tem como não se sentir bem. Se você gosta de um ambiente modesto que tenha tais características, esse é o lugar ideal para ir tomar uma cerveja com amigos ou paquera e jogar conversa fora, bebendo a um preço justo.
Escolhemos ir ao bar em uma segunda-feira, porque trata-se de um dia movimentado no boteco, por ser vendida a famosa rabada do Bar do Dedeu. O preço do prato varia de acordo com o tamanho da porção, que custa a partir de R$ 30,00. A rabada é bem servida em um prato fundo com bastante pirão e outras carnes além da própria rabada, como calabresa, bacon e charque.
Para aqueles que não curtem uma rabada, fiquem em paz. Há opções de lanches com foodtrucks estacionados por volta do largo. Em nossa visita, consumimos além da rabada, uma lata de refrigerante (R$ 5,00) e uma cerveja (600ml), que tem o seu preço variado a depender da marca, com valores que ficam entre R$ 10,00 e R$ 15,00.
Ir ao Largo do Garcia em uma segunda-feira não se compara ao final de semana, onde há um grande fluxo de pessoas que passam por ali devido os paredões que acontecem no largo. Mas a verdade é que pouco importa o dia que você vá, vale a pena conhecer o Bar do Dedeu. Só espere encontrar bastante movimentação quando for.
LARGO DO DOIS DE JULHO
Localizado no histórico bairro do Dois de Julho, com acesso pelas ruas Carlos Gomes e Avenida Contorno, o largo homônimo é muito rico pela preservação de sua arquitetura única. Trata-se de um local singular, principalmente pelo intenso tráfego de pessoas durante a semana, seja por aqueles que trabalham em seu entorno, ou que consomem do comércio local, que é repleto de estabelecimentos. Apesar do comércio agitado traçar bem o perfil do seu ambiente, há bastante residências ao seu redor, inclusive, com alguns prédios com vista para a Baía de Todos os Santos. Além disso, o largo Dois de Julho também abriga espaços culturais.
Mocambinho Bar
Localização: Rua da Faísca, 12 – Dois de Julho / próximo ao Largo dos Aflitos
- Ambiente:⭐⭐⭐⭐
- Atendimento:⭐⭐⭐⭐
- Variedade do Cardápio:⭐⭐⭐⭐⭐
- Custo-Benefício:⭐⭐⭐⭐⭐
- Sabor do Prato Escolhido:⭐⭐⭐⭐
- “Gelômetro” da Bebida:????
O que foi consumido: Pernil de Cachaceiro, acompanhado de dose de cachaça; Cerveja (600ml)
Para encerrar com chave de ouro, decidimos revisitar um bar que já tem um Selo Fraude de Qualidade, o Mocambinho! O visitamos na 11ª edição da revista, à procura do melhor local para se tomar cachaça em Salvador. E parafraseando Carolina Leal, autora daquele Selo Fraude, o boteco continua “tranquilo e aconchegante”.
O Mocambinho foi aberto há 16 anos por Ilza Barbosa, 50, que nos conta que a ideia do bar surgiu a partir do desejo de mudar de profissão. “Eu era enfermeira e decidi que não queria mais cuidar de doentes. Como gosto de cozinhar, resolvi fazer um bar diferenciado, com vários tipos de cachaça, com um tira-gosto característico e que abrisse a noite.”
Ao perguntar sobre sugestões do que consumir, Ilza nos deu uma enorme variedade de opções como carne de fumeiro com purê de banana da terra, carne suína com farofa de banana, charque com purê de abóbora, Cumbuca da Zira (charque desfiado com calabresa de pernil, farofa com gengibre e lascas de coco), Doritos Calientes (coalho na chapa com pimenta calabresa, manjericão, tomate fresco, geléia de goiaba), arrumadinho de bacalhau, arrumadinho vegano e vegetariano, e saladas de frutos do mar.
Com tantas opções do que comer, ficamos perdidos e acabamos por não escolher nenhuma daquelas tradicionais do cardápio. Como o Mocambinho competiu na 23ª edição do Comida di Buteco e resolveu manter o prato, nós resolvemos não deixar a oportunidade passar e optamos por ele, o Pernil de Cachaceiro. Trata-se de uma porção de pernil suíno assado na cachaça, com queijo cuia e batata no azeite de especiarias, além de ser acompanhado com uma dose de cachaça, que diga-se de passagem, forte, mas muito boa. O preço do prato se mantém o mesmo estabelecido pela competição, no valor de R$ 30,00. No mais, a escolha não poderia ser melhor, os itens combinam muito bem, seja com cerveja ou cachaça.
Além de consumir a dose de cachaça que acompanhava o prato, bebemos também cerveja (600ml), que estava bem geladinha e por um preço justo, R$ 12,00. O Mocambinho é um bar que acolhe todos os públicos, principalmente aqueles que desejam bater um papo, e os preços em seu cardápio, sejam das bebidas ou das comidas, cabe no bolso, e é bastante variado. O bar abre de quarta a sábado no final da tarde e funciona até o final da noite.

