A BANDA UÓ E SUA CRÍTICA PUBLICITÁRIA NA PUBLICIDADE
texto Juliana Barbosa
rediagramação Lucas Soares
A Banda Uó foi um grupo musical brasileiro que existiu entre 2010 e 2018 composto por três integrantes, sendo eles Candy Mel, Davi Sabbag e Mateus Carrilho que focaram nos ritmos Pop, Tecnobrega e Eletrobrega. A banda possuía como público-alvo a comunidade LGBTQIAPN+, trazendo representatividade pelo fato dos três integrantes fazerem parte desta comunidade.
No ano de 2014, após vencerem o programa “Batalha de Quiosques” (uma batalha entre a Banda Uó e o grupo Choque do Magriça para saber qual deles conseguia gerenciar melhor um quiosque na praia do Pepê – Rio de Janeiro) da emissora MTV, a banda teve como prêmio a gravação de um single com a participação do Mr. Catra e, no ano seguinte, “Catraca”, nome do single, foi parte da trilha sonora da novela “I Love Paraisópolis” da Rede Globo, consagrando o sucesso da banda.
Ainda no ano de 2015, a Banda Uó lançou seu segundo álbum chamado “Veneno”, que contou com a participação da artista Karol Conká e várias músicas de sucesso como “Arregaçada” e “Cremosa”, sendo esta última a música que dará origem ao videoclipe que será analisado.
O videoclipe de “Cremosa” foi lançado em 2016 com exclusividade no MTV Hits, indo em seguida para a plataforma do Youtube. Atualmente, ele possui mais de dois milhões e setecentas mil views na plataforma supracitada. O videoclipe conta com o patrocínio da marca de bebidas alcoólicas “Catuaba Selvagem” e com a participação da atriz Lilian Blanc e da drag queen e apresentadora Penelopy Jean.
Apesar do sucesso da Banda Uó, o grupo não costumava ter muito orçamento para a produção de seus videoclipes, sendo a maioria deles feitos em cenários únicos, com pouca produção e utilizando de efeitos mais simples.

Entretanto, “Cremosa” quebra esse paradigma e vem com novos elementos que ainda não tinham sido explorados pela banda. O videoclipe de pós-produção possui diferentes cenários, figurantes, figurinos e efeitos visuais que dão uma nova personalidade para a banda e suas novas propostas musicais. Além disso, há uma história sendo contada, caracterizando-o também como um videoclipe narrativo.


O videoclipe de “Cremosa” foi dirigido pela Cristina Streciwik, uma das fundadoras da Produtora Planalto, que trabalha com a banda desde o videoclipe de “Catraca”. Streciwik também já dirigiu projetos para empresas como Netflix, Chanel, Melissa e Dove. Porém, mesmo ela atuando na área publicitária e o videoclipe de “Cremosa” sendo patrocinado, a diretora junto aos integrantes da banda construíram uma narrativa que faz uma crítica à publicidade.
Esta crítica torna-se perceptível nos primeiros segundos do videoclipe, já que a personagem da Lilian Blanc ao sentar-se na poltrona de sua casa liga a televisão e passa por cinco canais, sendo que em três deles estão passando propagandas até chegar no que a chama a atenção que é o canal qual está passando o programa “Cremosa Show”. Vale ressaltar que através dos cenários é possível perceber que a história está sendo contada nos anos 90 e, por isso, haverá várias referências a este período ao longo do videoclipe.
Logo no início do programa, o apresentador Tom Rubens (Mateus Carrilho) anuncia a chegada da estrela da noite, Creme Mel (Candy Mel), que aparece utilizando uma roupa curta e justa, além do cabelo loiro, reforçando o padrão de beleza da época. Para este primeiro momento, também é visível os produtos Cremosa ao fundo do cenário, acompanhado do seu preço: R$39,95, mostrando como a publicidade está sempre presente, mesmo que não seja o foco do momento e que não é possível ignorá-la. Em seguida aparece o segundo apresentador do programa, também chamado de Tom Rubens (Davi Sabbag), reforçando mais uma vez um padrão de beleza, visto que ele é branco e possui olhos claros, enquanto ele apresenta os produtos e canta a letra da música.
Não é feitiçaria, é tecnologia
Sei que você também vai gostar
‘Tá se sentindo feia, se achando horrorosa
Essa solução vai te salvar
A propaganda feita pelo apresentador tem por objetivo convencer o telespectador de que apenas o seu produto tem a capacidade de deixar a pessoa bonita, seguindo os padrões de beleza impostos pela sociedade. A personagem da Lilian Blanc que acompanha o programa parece estar sendo convencida pelo que o Tom Rubens diz e se permite ser atraída pelas falsas promessas.
Entretanto, quando ela tenta mudar de canal, ela se depara com mais propagandas, e a cada canal que ela coloca, sempre volta para o Cremosa Show, o que a faz questionar se seu controle está quebrado. Esse momento é um reflexo de como as propagandas aparecem de forma exagerada nos programas e que não é mais possível fugir delas, restando apenas aceitar a sua presença e decidir qual delas mais te atrai, assim como a atriz faz.
Com o objetivo de fazer referência aos programas de auditório dos anos 90, os
apresentadores do Cremosa Show, jogam os produtos para a plateia, causando um alvoroço para saber quem consegue pegá-los. E, enquanto isso, a Creme Mel reproduz um clássico dos programas brasileiros desta época: a banheira do Gugu.
Banheira do Gugu / Imagens da internet
Ela entra em uma piscina inflável com um maiô, junto à um homem de sunga, demonstrando a sexualização que ocorre na televisão desde aquela época e que acontecia com muita intensidade e naturalidade na televisão aberta dos anos 90. Durante este momento a letra da música reflete esse sensacionalismo publicitário, que utiliza de uma linguagem imperativa e apelativa.
Eu quero um pratinho pra mim
Deslizando feito creme chantilly
Tem no estoque não deixa pra depois
Na liquidação paga um e leva dois! (Eta porra!)
Creme Mel e o personagem masculino no Cremosa Show / Imagens da internet
A personagem da Lilian Blanc fica incomodada com este programa, mas mais uma vez não consegue mudar de canal, fazendo de novo o paralelo a não ser mais possível escapar desse sensacionalismo. Neste momento, aparece um plantão do Jornal Normal, mostrando que os Produtos Cremosa são uma farsa e na verdade estão tornando as pessoas em um líquido. Entretanto, já é tarde demais para a personagem, que se tornou mais uma vítima da publicidade intrusiva, mesmo sem perceber. A cena final do videoclipe mostra os apresentadores do Cremosa Show invadindo a casa da personagem e quando ela tenta fugir, percebe que também está derretendo, dando um grito e deixando um ar de terror neste final.
Essa última cena remete à teoria da modernidade líquida do filósofo Zygmunt
Bauman, que vai afirmar que o capitalismo é uma relação natural e o consumo se tornou a principal base da sociedade atual. Por isso, tanto o auditório presente no programa, quanto a própria personagem da Lilian Blanc, podem até se sentir invadidos pela intensidade de propagandas presentes, mas esse ritmo frenético de publicidade se estabeleceu tão fortemente na sociedade que as pessoas só percebem os seus danos quando não é mais reversível.
Um estudo feito pela Media Dynamics em 2014 constatou que uma pessoa é exposta a cerca de 5 mil marcas por dia e vê, em média, 153 anúncios diariamente, guardando na memória, pelo menos, 86 deles. Isso comprova o porquê das publicidades estarem sendo cada vez mais chamativas e intrusivas e que, em uma sociedade marcada pelo consumo, a tendência é aumentar essa apelação cada vez mais. Por isso, mesmo nas cenas em que o foco não é a publicidade, os Produtos Cremosa aparecem ao fundo ou apenas a cor da sua marca (a cor rosa) é destacada, já que o objetivo é fazer com que o telespectador retenha na memória o produto divulgado.
Como já foi dito anteriormente, mesmo que o videoclipe faça uma crítica à
publicidade, ele é patrocinado. Sendo assim, comprovando a cena da Lilian Blanc e sua tentativa falha de fugir da publicidade, as propagandas da “Catuaba Selvagem” são introduzidas ao longo da narrativa, mas, na tentativa de não fazer algo intrusivo, elas são feitas de forma sutil e rápidas.
Em um primeiro momento, o nome “Catuaba” aparece como um dos componentes dos produtos Cremosa; em seguida a garrafa da bebida é utilizada quando a banda faz referência ao grupo É o Tchan e sua música “Na boquinha da garrafa”, com a Candy Mel dançando acima da garrafa; e por fim, a drag queen Penelopy Jean participa de uma cena fazendo cosplay da cantora Lady Gaga e trazendo uma alusão a música da cantora “Perfect Illusion” falando: “Não era amor, era Catuaba”.
As propagandas da “Catuaba Selvagem” tornam-se espontâneas em um clipe que utiliza de anúncios sensacionalistas para tecer suas críticas. Além disso, elas são memoráveis em decorrência de terem sido feitas em cima de memórias afetivas das pessoas que vivenciaram os anos 90, com a referência ao É o Tchan ou das que consomem o pop atual, com a menção a Lady Gaga.
Esse texto foi desenvolvido para o trabalho final da disciplina COM103 – Estética da Comunicação no semestre de 2022.1
