18 de setembro de 2023

MAIS QUE UM DIÁRIO PARA LIBERDADE

By In Petalhada

texto Mariana Passos
rediagramação Tainá Sousa
publicado em 19.09.2023

Sugestão de música para a leitura

A sensação de assistir dorama sempre foi mais libertadora do que achei que fosse ser quando comecei. Se tornou uma caverna de platão para a correria semanal, uma plena ignorância disfarçada de entretenimento. É um tempo reservado para simplesmente assistir coisas que te chamem a atenção e te prendem, sem grandes artifícios críticos a depender do gênero assistido . É o momento que você não precisa ser crítico ao assistir certos tipos de besteirol. No geral, é um momento libertador, principalmente quando a história é boa.

My liberation notes é mais do que uma história bem estruturada e apresentada no streaming da Netflix. A história consegue capturar a agonia da vida cotidiana, sem grandes expectativas e sem muitas reviravoltas a partir de 4 personagens. O que no início parece ser uma história lenta e superficial, ganha  forma quando a história passa a ser desenvolvida e os personagens passam a ser aprofundados. Personagens estes que parecem ser insuportáveis no início, passam a ter a identificação do público com a crescente narrativa.

Imagem do drama My Liberation Notes

Nesse sentido, a dualidade psíquica entre bem e mal caracterizada por vilão e herói deixa de existir na produção do diretor Kim Seok Yoon e da roteirista Park Hae Young. A existência do mal performa em cada personagem colocado em cena e a existência de um vilão definido em personagem é inexistente. A partir disso, o drama explora a complexidade humana para além de uma simples dualidade. O ser humano é representado a partir do lugar de um enigma.

O que acontece depois do encontro da felicidade?

Viver seria encontrar a felicidade? Por que sempre pensamos que no futuro vamos alcançar a felicidade? A Yeom Mi Jung – protagonizado por Kim Ji Won- se desenvolve a partir dessa busca. Como irmã do meio na trama, ela tenta passar despercebida em comparação ao seu irmão mais novo e sua irmã mais velha.

De maneira tímida, calada e indiferente à felicidade da vida, a Min Jung é um reflexo de grande parte da sociedade moderna. Ela quer se camuflar, não quer chamar a atenção e está cansada demais. Para a personagem, trabalhar e estar em casa consomem 24h do seu dia. Ela não tem espaço para saídas à noite após o expediente por morar em uma região metropolitana da cidade de Seul.

Imagem do drama My liberation notes. Tradução literal: “Eu não estou infeliz, mas não estou feliz também”

Nesse sentido, não morar na capital é um dos maiores pesadelos para os irmãos da família Yeom. Estar tão distante do ciclo de sociabilidade da empresa, de relacionamentos interpessoais e amorosos por conta da distância é o que faz os irmãos se sentirem tão isolados da cidade em que passam mais tempo do que a sua própria casa.  

Para eles, tudo de bom está em Seul e tudo de ruim está no vilarejo em que moram. Para eles, a felicidade não pode ser encontrada em um lugar tão distante e pacato. Para eles, o lugar onde estão não existe amor, nem felicidade ou um objetivo. 

“Se eu tenho que ter um objetivo? Não posso viver minha vida sem um? Não posso me forçar a viver por algo que realmente não desejo.”
chang hee

Apesar de parecer um drama melancólico, ele é caracterizado como “slice of life”, onde  o uso do realismo mundano representa experiências cotidianas. A partir disso, a felicidade é representada em pequenos momentos, nos quais nem os personagens têm noção da sua própria felicidade. Estão ocupados, estressados, cansados demais para reconhecer a alegria. Eles só sentem. E muito do que é passado no drama envolve sensações que fazem parte da construção humana.

A morte em câmera lenta

O que fazer quando a morte vem antes da felicidade? Para os existencialistas de plantão, não acontece nada. Mas para My Liberation Notes a morte funciona como um lembrete para a temporalidade e para a liberdade.

Ao longo dos episódios, é perceptível as amarras que prendem cada personagem. Álcool, medo de não casar, medo de morrer infeliz são alguns dos receios apresentados.De maneira gradativa, cada um morre de uma forma diferente. Aos poucos, cada um desiste de buscar a felicidade pois o cotidiano esmaga suas esperanças. É a partir disso que a Mi Jeong cria um diário para liberdade, que funciona como a sua última chance contra o mundo caótico em que vive. 

“Cinco minutos por dia… Se você tem cinco minutos de paz,
é suportável.”

mi jeong

Aos poucos, o medo da morte deixa de ser mais importante que o medo de viver. Dessa maneira, My liberation notes afaga o coração em relação a pressa de ser feliz, ao medo do futuro incerto e corrida contra si mesmo. O que parece uma simples história no início, desencadeia a complexidade da vida.

1 Comment
  1. Valéria 1 de maio de 2024

    Que legal, gostei da resenha de vocês. Achei o dorama de começo bem lento, mas de fato, vai ganhando mais ritmo na medida em que a gente passa a se identificar com a história dos próprios personagens. Foge do comum. Parabéns pelo site!

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