9 de outubro de 2023

TEATRALIDADES NEGRAS E O CINEMA DE OUSMANE SEMBÈNE

By In Petalhada

texto Anne Meire Ribeiro
publicado 11.10.2023

Um menino nascido no interior do Senegal durante a colonização francesa veio a se tornar o pai do cinema africano. Ousmane Sembène, se estivesse vivo, estaria completando 100 anos em 2023 e nos ensinou bastante sobre a construção de novas narrativas  de uma arte esteticamente negra e africana. 

Diretor, escritor, cineasta, são apenas algumas das profissões que o pan-africanista acumulou durante sua trajetória. Em 1946,  se mudou para a França onde trabalhou como estivador no porto de Marselha. Durante esse período, Sembène integrou o movimento sindicalista e o Partido Comunista Francês. Estudiosos do pensador acreditam que esse momento foi marcante para construção das concepções políticas e econômicas do diretor que frequentava aulas sobre teoria marxista nesse período.

Partindo para o outro lado do Atlântico, no texto “Sobre infinitudes e teatralidades desejantes de festa”, a doutoranda mineira Soraya Martins Patrocínio evocou uma reflexão sobre as fissuras e fábulas que o teatro negro é capaz de gerar e como isso contribui para construção estética de uma arte negra afrodiaspórica. Fissurar, segundo a autora, é reconstruir narrativas que nos foram dadas, respeitando esteticamente nossa multiplicidade. Fabular é abstrair dos estereótipos atribuídos à negritude, se permitir representar outras possibilidades de existir, de sonhar. Uma coisa alimenta a outra, e esses termos podem ser utilizados como lente de análise da estética de obras feitas no continente africano, como as de Sembène. 

Trailer do filme ‘La noire de…” de 1966

O filme “La noire de…”, também conhecido como “Black Girl”, no português como “A Negra de…”, o primeiro longa do diretor, conta a história de uma jovem que sai de Dakar, capital do Senegal, para trabalhar na França em condições análogas à escravidão. Durante o longa, estamos nos pensamentos da Diouana, personagem principal, ouvindo as críticas, percepções e subjetividades de uma mulher insubmissa perante as violências que sofre. Apesar do final trágico de “La noire de…”, Sembène nos anos 60 através do cinema fabulou sobre negritude, em uma África pós colonização. O diretor, que começou como escritor, escolheu o cinema como linguagem devido à baixa escolaridade do povo senegalês na época. Os filmes foram as suas ferramentas de democratização para exibir histórias de um novo Senegal. 

Nesse ano de centenário, é importante resgatar as obras do artista que contribuiu para construção de uma arte que ressignificou o que quiseram definir sobre o que e ser negro nesse mundo. Ousmane Sembène, construiu novos imaginários sobre negritude, sem negar as dores causadas pela colonização. Fabular não é inventar novas possibilidades de existência, mas reconstruir as memórias e assumir a pluralidade da negritude, quanto a isso, temos muito a aprender com a obra de Sembène.

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