31 de outubro de 2023

SCREAM QUEENS

By In Petalhada

O protagonismo feminino nos filmes de terror

texto Iris Morena
rediagramação Tainá Sousa
publicado 31.10.2023

O termo “terror feminista” refere-se a um subgênero de filmes de terror que aborda a experiência através da perspectiva feminina nas tramas. As obras do gênero subvertem a tradicional fórmula usada para o horror ao dar destaque às mulheres que excedem o papel de vítima. Midsommar (2019), Pearl (2022), Garota Infernal (2009) e Fresh (2022) são apenas algumas das obras cinematográficas que caracterizam a categoria. 

Alfred Hitchcock, um dos cineastas mais aclamados do mundo, durante as filmagens de um de seus suspense, Os Pássaros (1963), afirmou: “Sempre acreditei em seguir os conselhos do dramaturgo Sardou. Ele disse: ‘Torture as mulheres!’ O problema hoje é que não torturamos mulheres o suficiente.” (J. Clover, Carol, 1987). O conselho de Victorien Sardou foi, por muito tempo, rigorosamente seguido. Agora é a vez delas.

O cinema tem o poder de refletir e influenciar o momento atual em que a sociedade se encontra. No caso da relação mulheres-terror, é possível traçar um panorama da chegada da versão original da “final girl”, a única garota merecedora de sobreviver e derrotar o vilão no fim dos filmes, nos anos de 1970, até sua versão mais recente, dos anos 2000.

No meio da Segunda onda do feminismo, quando se debatia os estereótipos de gênero, é discutido o arquétipo da final girl, termo cunhado por Carol J. Clover, no artigo “Her Body, Himself: Gender in the Slasher Film” de 1987, que consiste em uma mulher forte que sobrevive por causa de sua garra, além de, é claro, seu comportamento puritano. A vitória da garota final é quase sempre questionável. Se o assassino sobrevive ela venceu? Se ela tem ajuda na cena final de terceiros, a vitória é dela? 

Laurie Strode, do terror slasher Halloween (1978), foi uma das primeiras dessa categoria. No primeiro filme da franquia, diferente das outras garotas que buscam diversão na noite de halloween, Laurie cuida de crianças e até esculpe uma abóbora. Enquanto suas amigas Annie e Lynda são assassinadas sem chance de defesa, respectivamente, pré e pós sexo. Laurie, que não tem nenhuma interação com garotos durante a trama, luta contra a morte desde o momento em que se depara com ela, depois de pôr as crianças na cama, e obtém êxito. 

Halloween' 1978: The Times Finally Reviews a Horror Classic - The New York  Times
laurie strode e seu perseguidor michael myers/imagem do filme

Nos anos de 1980, permeada pelo conceito de garota final, a expressão “scream queens” volta a ganhar destaque. O termo que antes caracterizava a personagem feminina atraente e amedrontada que ao topar com o perigo exprime um grito emblemático, na década de 1980, exige mais de quem for levar esse título. O grito agora precisa ser não só de uma mulher atraente, assustada e triste, mas também vigilante e astuta. Deve ser um grito que performe o desespero pré-vitória. 

Entre o período de 1990 e final da década de 2010 a fórmula dos slashers continua funcionando e grandes sucessos como a franquia Pânico (o primeiro em 1996), A Casa de Cera (2005), a franquia Premonição (o primeiro em 2000) e Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado (1997) surgem. Só em 2009, vimos uma das mais icônicas obras cinematográficas de terror com protagonismo feminino, Garota Infernal.

Estrelado por Megan Fox, no auge de sua popularidade, e Amanda Seyfried, o longa que divide opiniões é pioneiro no tropo abordado. Jennifer, a protagonista, é atacada por um banda, formada apenas por homens, que tem a intenção de sacrificar uma virgem num ritual que os deixaria famosos, mas, por Jennifer não ser mais virgem, o ritual dá errado e ela acaba possuída por um demônio e apenas matando homens ela consegue saciar a fome dessa entidade.

O filme aborda questões importantes para a temática ao subverter estereótipos. A mulher atraente e não moralista até performa o papel de primeira vítima, mas volta ao enredo no papel de “vilã”, e coloco o último termo entre aspas, porque não considero Jennifer a vilã do filme. Numa narrativa em que há um grupo de homens que “assassinam” uma jovem e também essa jovem que volta à vida e precisa de sangue masculino para sobreviver e manter sua relevância, é nítido quem são os verdadeiros malvados. 

A história também foca na amizade entre a personagem de Megan Fox e Needy (Amanda Seyfried), sua melhor amiga desde a infância. A maneira que elas se relacionam é alvo de comentários desde a estreia, apesar de não ser relevante nas motivações para matar da protagonista. Needy mesmo sendo afastada pela nova personalidade de sua melhor amiga, ainda se importa e tenta ajudar. Mesmo após o clímax divisor de águas para a amizade das duas, Needy busca vingança pelo que aconteceu com Jennifer. O arco do relacionamento das duas marca algo que só poderia ser escrito em uma obra que explora tópicos femininos, a forma que é retratada é tão inédita que gerou até teorias sobre possível subtexto queer na trama.

Garota Infernal: amizades problemáticas e possessões demoníacas -
jennifer e needy/imagem do filme

O longa foi revolucionário para o gênero. Ainda que não tenha sido bem recebido pela crítica e público, com apenas 46% de aprovação no Rotten Tomatoes, por exemplo, abriu portas para que novas produções abordassem o arco feminino de forma diferente nos filmes. Como no caso dos longas A Bruxa (2015), Suspiria (2018) e Midsommar (2019), que abordam um terror mais místico e sombrio, longe do slasher. Os três filmes passam em épocas e cenários distintos, mas possuem uma linha narrativa parecida. 

As três personagens centrais têm problemas familiares, principalmente com a rigidez e desprezo das mães, saem do cenário inicial do filme para viver em uma comunidade isolada (no caso de Dani, sendo apenas por um período), desconfiam que há mais do que sabem nesses lugares (mas não temem como os outros personagens da narrativa) no clímax da história (da qual não são vítimas) sentem satisfação com o horror (que vai além de assassinos mascarados) e não só sobrevivem como passam a fazer parte de uma nova família, essa com características matriarcais. 

Em Midsommar, o terror que se passa a luz do dia, temas sensíveis como relacionamentos amorosos disfuncionais, maternidade e hierarquia, e a autonomia feminina sobre o próprio corpo são trazidos à tona durante a autodescoberta de Dani, que está enfrentando uma tragédia familiar no início da narrativa. Em A Bruxa, Thomasin e sua família se mudam para um lugar remoto por acreditar que só isolados poderiam seguir verdadeiramente a vontade de Deus. Acusada de bruxaria por toda sua família após acontecimentos inexplicáveis, ela se vê obrigada a abraçar o “título” em certo momento da narrativa. A produção debate as temáticas através da figura da bruxa que é um símbolo de empoderamento, pelo contexto histórico e social do termo que ainda hoje é usado em certos contextos para mulheres que não seguem as normas socialmente estabelecidas. Thomasin é chamada assim no momento em que está na transição de adolescente para adulta e seu corpo começa a denunciar isso. Apesar de toda repressão causada a imagem da mulher no geral dentro da história ser motivada pelo fanatismo religioso e Thomasin parecer uma vítima vulnerável, no fim é ela quem tem o poder nas mãos.

dani como rainha de maio em midsommar/imagem do filme

Suspiria acontece na Alemanha de 1970 e tem um núcleo principal majoritariamente feminino. As professoras e dançarinas da companhia acolhem Susie como uma nova irmã e ainda que seja comum um arco de rivalidade nas narrativas que envolvam dança, em Suspiria isso não acontece. Mesmo Susie conquistando o papel principal nos primeiros dias de estadia, suas “irmãs” apoiam e torcem por ela. Assim como as professoras que enxergam mais do que talento na garota. O coletivo representa a força que existe na sororidade e autonomia feminina, o desfecho só acontece porque Susie quer que aconteça e todo o grupo se empenha para isso, de certa forma. Sua orientadora, Madame Blanc, a prepara desde o ínicio para esse momento, principalmente exigindo dela perfeição nas coreografias, mas reforça a todo instante que só com o consentimento da dançarina o ato seria consumado. Suspiria também explora o arquétipo da bruxa, já que as professoras fazem todas parte de um clã e são intocáveis, assim como suas protegidas. 

Voltando aos slashers, X – A Marca da Morte (2022) apresenta Maxine, uma atriz que vai gravar filmes adultos em uma fazenda alugada junto a uma equipe. O que era pra ser um período de trabalho, acaba se tornando um pesadelo quando os membros do grupo começam a ser assassinados. Fazendo de Maxine, uma atriz pornô aspirante a celebridade, a única sobrevivente e responsável por derrotar os assassinos, contrariando totalmente a moral que o arquétipo da final girl impõe. 

X – A Marca da Morte é o primeiro de uma trilogia, seguido de Pearl (2022), que conta a história da vilã do primeiro. Pearl vive com os pais numa fazenda, enquanto seu marido, Howard está na guerra. Ela vê num teste para ser dançarina de uma companhia a oportunidade de sair da monotonia de sua vida, no mesmo período que conhece um rapaz que trabalha no cinema e que, diferente de sua mãe, acredita nas chances dela na audição. Os instintos assassinos de Pearl surgem antes de X, quando ela assassina sua família pela falta de apoio, assim como o garoto do cinema antes do teste. Teste esse que ela faz e falha. O monólogo de Pearl para sua cunhada depois da não aprovação foi compartilhado milhares de vezes nas redes sociais na época do lançamento do filme, os muitos comentários de mulheres expressando identificação com a sensação de frustração da personagem foi o que trouxe Pearl para esse texto. 

monólogo de pearl no filme

Gubernikoff (2016) argumenta que para entregar elementos de representações, o cinema tem o papel de se relacionar com o imaginário social e criar uma história para a personagem feminina, muitas vezes com a narrativa secundária, e/ou com ausência de suas próprias questões. Foi justamente pelo contrário disso que Pearl tornou-se uma vilã tão aclamada. A justificativa por trás de seus atos, representou o sentimento de medo e revolta causados pelo fracasso que muitas mulheres parecem ter e não admitir, e que o cinema não parecia interessado em explorar.

A discussão sobre o tropo é consideravelmente recente, e ainda não há um consenso sobre o tema. Terror feminista pode ser feito por homens? Ainda que essa perspectiva feminina esteja em destaque, os bastidores continuam sendo majoritariamente masculinos. De todos os filmes citados classificados como terror feminista, apenas Garota Infernal é dirigido e roteirizado por mulheres. Pearl tem co-direção de Mia Goth e dos 9 roteiristas, apenas duas são mulheres.

 

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