1 de dezembro de 2023

MODA PARA (RE)EXISTIR

By In Fraude 24

O empreendedorismo na moda pela perspectiva de pessoas negras

Audiodescrição da reportagem

texto Lara Paula e Vanessa Cunha
colaboradora Juliana Barbosa
multimídia Reuel Nicandro
colagem Arthur Soll
foto de capa Marcelo Cardoso
diagramação Edson Barbosa
audiodescrição Yan Inácio

Das ruas às passarelas, a moda passa por etapas de fabricação e faz parte da construção estética de uma identidad e individual e coletiva. Em Salvador, a busca por uma representação visual é desenvolvida por marcas do ramo como Dendezeiro e Bixa Costura, nas quais artistas negros reforçam a resistência e a beleza da negritude através da criação de coleções. Além disso, a importância destinada aos cuidados durante a construção das peças revela um diferencial nas marcas desses artistas.

Em uma perspectiva europeia, a moda como dinâmica de diferenciação entre as pessoas surge no período do Renascimento, por volta do século XIV. No Brasil, essa história é contada a partir da colonização portuguesa, que impôs uma nova cultura para os povos que viviam aqui, incluindo normas de vestuário. Essa é uma questão que atinge o ramo e reforça a perpetuação de um viés  hegemônico até os dias atuais.

Modelos vestindo as peças da marca Bixa Costura (fotografia: Maiara Cerqueira)

Segundo relatórios do Sebrae de Santa Catarina, o termo moda afro-brasileira tem sido apresentado desde os anos 2000. Antes disso, o fazer moda já ocupava um espaço de protagonismo na vivência da população negra. Com a necessidade de manifestar uma nova narrativa, esse termo, em conjunto com mobilizações tal qual o movimento Black Power e a Marcha do Orgulho Crespo, propôs estéticas da negritude para a construção de uma imagem como forma de resistir ao padrão estabelecido historicamente.

Tauan Carvalho, 25, estilista e dona da marca Bixa Costura, considera importante ter esse termo consolidado porque, para ela, a moda afro-brasileira tem seu próprio modo de criação. “É uma teoria e prática ao mesmo tempo. Na moda, falamos de muitas coisas que nos perpassam, sobre a espiritualidade, sobre a mudança que queremos ver no mundo e sobre nossas reivindicações enquanto lutamos para respaldar nossa identidade”, defende.

Colcha de retalhos ancestral

Ró Morais, 48, estilista e dona da marca Tia Ró Fuxiqueira, relata que a ancestralidade faz parte dos intuitos de sua marca. “Eu quero que minha marca mantenha vivo o legado. Quando eu digo isso, falo dos nossos avós, das nossas mães, do nosso estilo.” Esse objetivo em conjunto com a representação da sua identidade são elementos chave que constroem a forma de fazer moda e empreender. A busca pelas memórias dos seus antepassados resgatam modos de criação históricos, como o tingimento de tecidos e o fuxico.

“fuxico não é só coisa de gente que não tem condições de comprar uma peça de roupa. Também é luxo, caro, e trabalhoso”
ró morais

O fuxico é uma técnica artesanal em que são formadas trouxinhas através do uso variado de retalhos. Dessa forma, é possível reaproveitar tecidos e formar peças inovadoras, incluindo acessórios como brincos e bolsas. Ró Morais comenta que, por ser proveniente da história de muitas famílias brasileiras de baixa renda, que utilizavam da técnica como fonte de sustento e sobrevivência, o fuxico ainda é desvalorizado e chega a ser classificado como um método fácil. Ela tenta ressignificar essa técnica através da sua marca. “Fuxico não é só coisa de gente que não tem condições de comprar uma peça de roupa. Também é luxo, caro, e trabalhoso”, afirma.

A inspiração desses artistas que trabalham diretamente com este tipo de criação e estão a todo momento em busca da inovação também está atrelada aos seus processos espirituais. Tauan comenta que uma das suas últimas coleções, intitulada Aláfia, surgiu através da busca desse contato. “Eu sou abian de uma casa de Oxum atualmente. Mas, antes disso, já sentia que a [minha] espiritualidade afrodiaspórica estava principalmente voltada para o candomblé e essa coleção foi como uma espécie de confirmação.”

“o homem hétero que botava Maria Bethânia pra ficar costurando fala muito sobre o que eu acredito”
tauan carvalho

A família de Tauan costuma compará-la com um tio que também costurava e que é uma inspiração para ela. “O  homem hétero que ouvia Maria Bethânia enquanto costurava fala muito sobre o que eu acredito, que é rom per certos padrões e imagens que a gente tem do que é ser um homem.” Essas relações marcam momentos que influenciam as ações e criações dessas pessoas.

A marca da ancestralidade é nítida nas memórias afetivas quando algumas figuras marcantes da família são lembradas. É o que acontece com Carolina Carvalho, 28, designer de moda e dona do ateliê Rayzez S.F, conhecida como Plantação de Lavanda nas redes sociais. “Minha avó e meu pai costuravam. Também sempre vi minha mãe reciclando coisas e customizando, não só roupas, mas também objetos. Então, quando pequena comecei a fazer algumas coisas parecidas”, conta.

Esse é um tecido difícil de costurar!

A realização de estar à frente de uma marca de moda independente não é uma tarefa fácil. Tauan comenta que o ato de empreender surgiu, entre outras coisas, da necessidade de sobrevivência. “Se não for assim, a gente tem poucas oportunidades dentro do mercado. Sempre foi e continua sendo um ato político e é importante que nós [pessoas negras] criemos nossos espaços de co-criação, prosperidade e sucesso.”

O Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade (IBQP) fez uma pesquisa em 2019 que mostra que a taxa de empreendedores pretos e pardos é maior do que a de brancos. O ponto de atenção é que 27,1% dos empreendedores negros iniciam um negócio por necessidade e/ou falta de emprego. “Uma das bases da Bixa Costura existir é econômica, porque eu quero viver bem e ter as coisas com o meu dinheiro, sabe? E ter, de certa forma, a independência. Sei que é difícil e acho que isso está muito na gramática do empreendedorismo negro hoje em dia, que é sobreviver sem se desvencilhar totalmente do que você gosta de fazer”, relata Tauan.

Tauan Carvalho (fotografia: Maiara Cerqueira)

As questões de precificação também interferem no fluxo do empreendimento de pessoas negras. Mesmo com a consciência de que o trabalho que está sendo realizado é minucioso e custoso, muitos artistas ainda se sentem inseguros em cobrar um preço justo. “Sabe quando você fica com receio de cobrar realmente o valor que a peça vale? Porque eu já passei por isso. E o medo de acabar tendo um prejuízo absurdo?”, conta Ró Morais.

“eu não sou a Lapa ou uma fast fashion”
carolina carvalho

Carolina não tinha noção da precificação de uma forma justa, é algo que começou a entender há pouco tempo. “Meu trabalho não é só entregar a roupa que a pessoa queria. Eu não sou a Lapa ou uma fast fashion. Se eu perco muito tempo do meu dia desenvolvendo uma ideia que vai ser uma peça exclusiva e feita sob medida, eu tenho que cobrar de acordo com isso”, ressalta.

Almofada de alfinetes

A falta de confiança e o receio t ambém estão relacionados ao processo de construção das peças. “A gente faz, acredita, mas não é 100%. Mesmo que usemos todas as ferramentas e saibamos que podemos erra r, a insegurança permanece ali”, pontua Tauan. Esse sentimento pode desestabilizar emocionalmente esses corpos e gerar consequências voltadas à saúde mental.

Carolina traz o yoga enquanto uma atividade importante para ajudar com a ansiedade e cuidar da mente. A designer expõe como a forma de lidar com a quantidade de tarefas foi modificada ao longo do tempo para preservar seu bem-estar. “Antes eu falava ‘Não, eu sou de boa com pressão, faço tudo ao mesmo tempo’. Mas quando tem muita coisa pra fazer, não é legal. É preciso estar bem mentalmente pra entender que nem tudo você tem que aceitar.”

“poder me responsabilizar pelo que é meu, mas também separar o que é do outro e que está me afetando […] tem contribuído para o meu processo de criação”
tauan carvalho

Os cuidados psicológicos são essenciais para conseguir se manter na área e continuar as criações. “Agora tenho uma psicóloga que está me ajudando nesse processo de autodescoberta, de descobrir as minhas falhas e impulsionar a algo melhor. Poder me responsabilizar pelo que é meu, mas também separar o que é do outro e que está me afetando também é muito importante e isso tem contribuído para o meu processo de criação”, constata Tauan.

Mesmo com esses percalços, artistas negros continuam no empreendedorismo na área da moda como uma forma de manter suas memórias vivas. “Empreender é assim. Ainda não sei tudo sobre isso, a vida é um aprendizado. Você tem que buscar todos os dias um pouquinho. Mas sou muito feliz, de verdade. É uma coisa que me realiza, que traz paz”, conclui Ró.

Tauan explica o porquê de não desistir do mercado. “É meio complicado, mas empreender, para mim, fala sobre minha vida. Então, tudo o que eu faço na minha história e trajetória é em torno disso.” A artista reitera a importância de uma moda que seja pautada em marcadores interseccionais. “Existem várias modas e ativismos trans no mundo para serem reconhecidas, vistas e sentidas”, finaliza.

Lara Paula e Vanessa Cunha

Essa reportagem foi feita por Lara Paula e Vanessa Cunha, ambas estudantes do curso de Comunicação em Produção e Cultura da Universidade Federal da Bahia e integrantes do PETCOM.

Fotografia: MAMIRAWÁ e Samara Said/ Labfoto©2023
Assistência de Fotografia: Caique Silva e Raquel Franco/Labfoto
Edição: Meneson Conceição/Labfoto

A Fraude é uma revista laboratorial do Programa de Educação Tutorial em Comunicação (PETCOM) da Facom, UFBA e não possui fins lucrativos. Caso uma das imagens te pertença ou em caso de dúvidas, entre em contato pelo email revistafraude@gmail.com para acrescentarmos ou retirarmos da publicação.

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