15 de dezembro de 2023

RIFEIRAS? SIM!

By In Fraude 24

Mulheres que encontram nas rifas uma alternativa de renda

Audiodescrição da reportagem

texto Anne Meire Ribeiro e Iris Morena
vídeos Anne Meire Ribeiro e Iris Morena
multimídia Edson Barbosa
colagem Arthur Soll, Daniel Araújo e Vanessa Cunha
diagramação Lara Paula
audiodescrição Luanda Costa

“2 pra 30!”, “6 pra 100!” É comum para quem mora nas periferias de cidades baianas ouvir frases como essas pelas ruas de seus bairros. O ofício das rifeiras se popularizou e tem mostrado ser uma ocupação com forte representação feminina. Em Salvador, o trabalho informal representa 42,4% das ocupações segundo a Síntese de Indicadores Sociais (SIS) de 2020 feita pelo IBGE. São considerados trabalhadores informais quem não tem carteira de trabalho assinada e não contribui para a Previdência Social.

A cientista social e organizadora do livro “Trajetórias da Informalidade no Brasil Contemporâneo”, Léa Marques, em entrevista à Rede Brasil Atual (RBA), afirmou que a maioria dos trabalhadores que vivem na informalidade, sem direitos, são negros, mulheres e da periferia. Dentre esses trabalhadores, se encontram, agora em maior quantidade, as realizadoras de jogos de azar.

A rifa consiste em um sorteio que vende bilhetes numerados e, caso o número seja sorteado, o ganhador leva um prêmio, seja em produtos ou dinheiro.  Pouco se sabe sobre a origem dessa prática, estima-se que chegou ao Brasil entre 1880 e 1930, com o processo de imigração dos europeus. As rifeiras, nome popular dado às realizadoras dos jogos, estão perto de estabelecimentos nas periferias das cidades e são até personagens de músicas do pagode baiano, como “Rifeira” da banda 7kssio. 

“com esse trabalho faço o mercado de casa, pago a internet, compro calçados e roupas para meus filhos e para mim”
aurilane oliveira

Aurilane Oliveira, 27, trabalha com os sorteios desde o início da pandemia de COVID-19, quando precisou ter uma renda extra em casa após o movimento do seu negócio como trancista diminuir. “A rifa é minha principal fonte de renda hoje. Com esse trabalho faço o mercado de casa, pago a internet, compro calçados e roupas para meus filhos e para mim. Ainda consigo ter dinheiro pra sair”, conta.

Valdivia Lima, 52, também começou a trabalhar com os sorteios para aumentar a renda familiar. Antes das rifas, estava sem trabalho há 16 anos, desde que seus filhos mais novos nasceram. Durante esse tempo, fez apenas ‘bicos’ como diarista para manter sua família. Em 2020, com a baixa demanda de trabalho, começou a vender rifas após sugestão de uma amiga que já trabalhava com o jogo. “Eu tinha vergonha de fazer, mas ela ia comigo. Daí pra cá não parei mais”, comenta.

Vídeo da reportagem (fotografia: Anne Meire Ribeiro e Iris morena)

A advogada Janine Souza, 30, especialista em ciências criminais e direito das mulheres, explica que, desde 1941, o jogo de azar tornou-se contravenção penal, mas continuou sendo feito por muitos brasileiros que encontraram nas rifas uma fonte alternativa de renda. “A primeira evidência dessa incompatibilidade entre os termos de lei que criminalizam jogos de azar e os princípios que norteiam o direito penal é a naturalidade que esse comportamento impõe. Falando dessa naturalidade, tem um princípio no direito penal sobre adequação social, que diz que não se deve considerar crime aquele comportamento comum na sociedade, que não viola evidentemente um bem jurídico que o Estado deve proteger.”

Pelas ruas ou pelas redes

A forma tradicional de vender rifa nas ruas não é mais a única alternativa. Através das redes sociais a prática tem conquistado novos apostadores. Aurilane trabalha exclusivamente online e usa seu WhatsApp para vender os bilhetes. “Quando comecei, passava [rifa] na rua, mas logo meus filhos começaram a estudar, foi muita correria. Faz três anos que meu trabalho é todo online, via pix”, relata.

A trancista defende a rifa digital pela facilidade de encontrar os compradores. “Algumas pessoas estão no trabalho, outras você não encontra em casa e pelo digital é tudo mais rápido”, explica a rifeira que usa designs diferentes, inclusive com sua própria foto, para chamar atenção dos clientes. A realizadora do sorteio diz que sua clientela varia de jovens adultos até senhores de 70 anos. 

Segundo o DataReportal, o Instagram registrou 113,5 milhões de usuários no Brasil no início de 2023. As mídias sociais se tornaram ferramentas que podem ampliar o alcance das rifas. A mudança para o digital foi uma alternativa para Aurilane, no entanto há quem já tenha começado dessa forma. Lore Rufis, influenciadora baiana, iniciou após seus vídeos de humor envolvendo o ofício bombarem nas redes. Hoje ela tem um perfil à parte para os sorteios semanais, com mais de 90 mil seguidores no Instagram.

“ou você anda ou as concorrentes passam na sua frente”
valdivia lima

Valdivia, por não ter celular, sempre fez suas rifas na rua e admite gostar da rotina. “Gosto de brincar, de conversar e adoro me comunicar muito, então não sei se eu ia conseguir ficar parada só no celular.” Mas fala do cansaço devido à sua idade e afazeres domésticos. “Não sou novinha, também não sou velhinha. Chego cedo, às sete horas, e paro ao meio dia. Quando não tem almoço, lancho pela rua. Quarta e sábado, dias de federal, não tem tempo de parar para comer. Ou você anda ou as concorrentes passam na sua frente.”

Só ganha quem joga

A forma de lidar com o público é particular de cada rifeira. Há quem prefira manter um contato objetivo, outras dividem com seus clientes até seus palpites de sorte. Acreditam que para quem tem fé, tudo pode ser um sinal. “Por exemplo, um cachorro mordeu minha amiga agora. Eu já tenho meu galo [assinado], mas tô oferecendo o cachorro pros meus clientes, vai que dá?” brinca Valdivia. Já Aurilane tem outra superstição, “Se hoje é dia 22, vou na cabra que tem esse número ou no tigre que é do grupo 22”, explica. 

As motivações de cada rifa são tão singulares quanto as relações cliente-vendedoras. Seja para juntar dinheiro para o famigerado baba, para reformar igrejas e terreiros ou para projetos pessoais e ações solidárias, a rifa é um recurso de arrecadação de fundos utilizado por diversos grupos. É o caso de Indiara Pereira, 60, socioeducadora de Feira de Santana, que utilizou o sorteio para ajudar nas despesas hospitalares da mãe. “Quando descobri que minha mãe estava com câncer de mama, percebi que não tinha condição de pagar os exames em tempo hábil e o SUS não cobria, aí comecei a fazer as rifas”, revela.

 “o propósito naquele momento, é contribuir”
indiara pereira

Indiara realiza os sorteios de forma filantrópica há 10 anos e também começou depois da sugestão de uma conhecida. “Às vezes são amigos que me doam o prêmio, e às vezes o ganhador fala ‘coloque de novo’ [a recompensa] porque prefere ajudar. Muitos fazem isso. O propósito naquele momento, é contribuir”, completa.

Ainda que existam pessoas dispostas a ajudar, Indiara relata sobre a quantidade de respostas negativas que recebe durante as ações. “Eu chego assim: ‘Por favor, assina essa rifa que eu estou fazendo para um exame da minha mãe. Poderia me ajudar, por gentileza?’ [Algumas pessoas] Já vêm assim: ‘eu não quero rifa, não! Sai de junto de mim!’, são agressivas. Já ouvi muitas críticas.” 

Vídeo da reportagem (fotografia: Anne Meire Ribeiro e Iris morena)

Aurilane não sente essa resistência por parte de seus clientes, principalmente, por grande parte de sua clientela ser fixa. “99% das pessoas são receptivas. [No WhatsApp] algumas visualizam e não respondem, mas dá tudo certo”, relata a realizadora de sorteios que ainda mantém jogadores de quando começou neste trabalho. 

“você leva vários ‘nãos’, um por cima do outro, mas eu sempre persisto.”
indiara pereira

A socioeducadora, que passa as rifas para os colegas de trabalho pessoalmente, também circula pelos mercadinhos do bairro e redondezas para fechar as cartelas e destaca a importância de criar uma relação com os clientes. “Eu tenho que ter confiança, porque não é fazer rifa por fazer. O bilhete é cinco reais, mas às vezes é um dinheiro que a pessoa não tem. Você leva vários ‘nãos’, um por cima do outro, mas eu sempre persisto”, compartilha Indiara.

Embora o sorteio gere opiniões controversas, é perceptível o papel cultural que tem nos subúrbios baianos. Em um cenário marcado pela informalidade e pelos desafios diários, essas mulheres encontraram na venda de rifas não apenas uma forma de sustento, mas também uma conexão com suas comunidades. Com criatividade e determinação, elas não só sobrevivem, como prosperam. A rifa, no caso delas, é um jogo de sorte.

Vídeo da reportagem (fotografia: Anne Meire Ribeiro e Iris morena)

Anne Meire Ribeiro e Iris Morena

Essa reportagem foi feita por Anne Meire Ribeiro estudante de Jornalismo e Iris Morena estudante de Produção em Comunicação e Cultura, ambas da Universidade Federal da Bahia e integrantes do PETCOM.

Fotografia: MAMIRAWÁ e Samara Said / Labfoto©2023
Assistência de Fotografia: Caique Silva e Raquel Franco / Labfoto
Edição: Meneson Conceição / Labfoto

A Fraude é uma revista laboratorial do Programa de Educação Tutorial em Comunicação (PETCOM) da Facom, UFBA e não possui fins lucrativos. Caso uma das imagens te pertença ou em caso de dúvidas, entre em contato pelo email revistafraude@gmail.com para acrescentarmos a referência ou retirarmos da publicação.

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