Mahjong de Edward Yang e as idas e vindas de uma sociedade em transformação
texto Yan Inácio
publicado 26.03.2024
Quando questionado sobre a motivação para fazer o longa Um Dia Quente de Verão (1991), Edward Yang diz que se inspirou numa história que presenciou há três décadas atrás, a seguir, ele se define como uma eye witness testimony, usando o termo em inglês mesmo. Em Mahjong, lançado em 1996, esse testemunho ocular se vira para a alta classe da capital do Taiwan, Taipei. Dessa vez, o diretor taiwanês investiga as relações entre nativos da ilha e estrangeiros no fim do século.
A narrativa percorre a vida do filho de um empresário que acumulou dívidas no submundo. Red Fish é um daqueles rebeldes sem causa e representa um coringa no meio social dos mais abastados. O filme também acompanha o cotidiano de seus amigos. Hong Kong, um cabeleireiro mulherengo que não nasceu em Hong Kong. Lunlun, o novato tradutor. E Little Buddha um religioso fajuto de cabeça dura. Mahjong reenacta uma Taipei recheada de estrangeiros que também têm seus arcos dentro do enredo.
Nessa Taipei de apartamentos chiques e ambientes não tão luxuosos, o dinheiro flui através das falas e dos acordos tácitos entre os personagens. Uma conversa quase sempre mascara uma tentativa de manipulação. E dentro dessas negociações é complicado encontrar veracidade nas falas. Longe de apontar como um problema de atuação, já que a crueza da câmera, que não ousa dar close-ups e se contenta apenas com travellings contextuais contribui para interpretações simples, naturais e eficientes que potencializam a pureza das cenas.
A poética de Mahjong está na mis-en-cene que Yang executa tão bem. O diretor domina o espaço fílmico para construir momentos realisticamente possíveis para os olhos de quem assiste. É como se executasse perfeitamente o que uma testemunha ocular deve eticamente fazer, mas dessa vez, relatando um país 50 após seu embate fundador, o conflito entre nacionalistas e comunistas.
Como um testemunho é dado por apenas uma pessoa, ele está sujeito aos caprichos da subjetividade de quem conta. Em Mahjong, Edward Yang exibe seus rancores contra estrangeiros na figura de Marcus, um designer inglês, predador colonial, um mero prestador de serviços para os ricos de verdade. Ao fim, Marcus diz que “em dez anos esse lugar vai ser o centro do mundo”, da fala pode-se inferir um retrato da visão externa da ilha, uma sociedade atravessada por disputas entre a China Continental e governos apoiados pelos EUA.
