As semelhanças entre a jornada de Raskolnikov e Don Draper
texto Daniel Araújo
rediagramação Tainá Sousa
publicado 02.04.2024
Contém spoilers de Crime e Castigo (1866) e Mad Men (2007–2015)
O romance Crime e Castigo do autor russo Fiodor Dostoievsky é um dos maiores clássicos da literatura, tratando de temas como injustiça, culpa e punição, é considerado a maior obra da literatura russa. Assim como o romance russo, a série de tv americana Mad Men (2007-2015) também é um forte estudo psicológico de seu protagonista e apesar da distância temporal das obras, se parecem em muitos pontos de suas temáticas.
Em ambas narrativas, o protagonista tem que lidar com a culpa e o autojulgamento por um crime cometido e não descoberto por outras pessoas, assim a maior consequência destes crimes está relacionada a forma como estes lidam psicologicamente com seus próprios pecados, incluindo a paranóia constante de serem descobertos.

Raskolnikov ou Ródia, o protagonista do livro assasina uma velha agiota para se apropriar da riqueza desta e com este dinheiro concluir seus estudos na universidade e ajudar sua familia. Já na série, Dick Whitman no front da guerra da Coréia (1950-1953), ao sobreviver de uma explosão, rouba a identidade de seu superior e volta para os Estados Unidos e passa a viver como Don Draper e trabalhar como publicitário.
Em Crime e Castigo, Raskolnikov acredita que as pessoas estão divididas entre as “ordinárias” e as “extraordinárias”: as ordinárias devem viver na obediência, não possuindo o direito de quebrar as regras sociais enquanto as extraordinárias possuem o direito de transgredir as leis e cometer qualquer crime, visto que tenham boas intenções motivando tais atos. O próprio Ródia acreditava ter as mais nobres das intenções ao matar a velha, todavia não demorou para a angústia da culpa o mostrar que ele não pertencia a este grupo de pessoas extraordinárias.
O mesmo aconteceu com Don, não que àquela altura ele se considerasse conscientemente uma pessoa extraordinária, mas sim acreditava que suas intenções eram nobres, afinal o roubo da identidade daquele homem lhe dava a chance de se livrar da pobreza e das desgraças o que teria sofrido até aquele momento. Já a ambição de Don dentro de sua carreira, é sua tentativa de justificar-se extraordinário e assim legitimar seu crime.
Ainda que o foco das duas narrativas sejam os dramas psicológicos decorrentes da culpa pelos crimes, tanto na série quanto no livro várias narrativas se desenvolvem paralelamente a isso, e por certo momento o crime deixa de ser foco, mas a culpa está sempre pairando sobre os protagonistas e fortalecendo a paranoia em ambos.
Durante essas narrativas paralelas é possível perceber a relação dos dois personagens com as pessoas ao seu redor, e ver como eles alternam cinicamente entre a indiferença e a empatia, centrando sua humanidade na figura de duas mulheres; Ródia vive um romance com Sonia e é para ela que confessa pela primeira vez o seu crime, sendo a mesma também que o convence a confessar o crime e se entregar após ler para ele a ressureição de Lázaro na bíblia, já Dick tem Anna, a esposa do homem cujo ele roubou o nome, como sua maior confidente, servindo como uma figura quase materna para ele.
É visível que tanto Don quanto Ródia são considerados extremamente inteligentes por quase todos de seu convívio e por vezes os próprios se consideram gênios, mas apesar de admirados, os dois possuem grandes dificuldades de convívio social; Raskolnikov odeia multidões, Don não suporta festas como se quase todas as pessoas os importunassem. É implícito porém que não são as pessoas que incomodam os dois, mas suas próprias consciências que os atormentam.

Torna-se ainda mais poderosa a comparação entre as duas obras quando se posiciona os contextos históricos de ambas. O grande questionamento do romance é a possibilidade de haver crime sem castigo, e isso revela-se em um profundo estudo sobre a moral de um individuo em relação com a sociedade que o cerca, nesse caso; a extremamente moralista e religiosa Rússia czarista do século XIX, logo, mesmo que Ródia não se sentisse culpado, a sociedade representa uma pressão moral sobre ele, algo que se agrava com a chegada de sua irmã e mãe extremamente religiosas a sua cidade, perturbando ainda mais a mente do jovem.
Ainda que distante historicamente, Don também está numa sociedade extremamente conservadora e moralista (apesar de viver conflitos e revoluções sociais), que são os Estados Unidos na década de 60. Para ele que desertou do dever militar e roubou a identidade do seu superior, trabalhar com vários veteranos de guerra fortalece seu sentimento de culpa. Existe nos dois personagens o medo do julgamento de serem descobertos e da reação dos outros quando isso ocorrer.

É visível também em ambas as obras, a sombra do socialismo, em face das desigualdades e contextos sociais visíveis nas duas obras primas. De saldo total comparar tais obras explicita o caráter atemporal das duas produções, e suas capacidades singulares de trabalhar o psicológico de seus personagens frente a sociedade, trabalhando com filosofia politica e existencialismo de maneira que as eterniza na galeria de obras-primas eternamente.
