texto Rafaella Paternostro
publicado em 28.05.2024
O diretor mexicano Guillermo Del Toro construiu uma carreira notória a partir de narrativas fantasiosas, com destaque para a representação de criaturas sobrenaturais. Em seus filmes, as criaturas aparentemente monstruosas raramente se apresentam como vilões, mas sim vítimas incompreendidas de suas circunstâncias, como em Hellboy (2004); agentes catalisadores dos arcos dos protagonistas, como em O labirinto do fauno (2006); ou ambos, como A espinha do diabo (2001). Del Toro relata que desde criança sentia empatia pelos monstros titulares de filmes como King Kong (1933) e O Monstro da Lagoa Negra (1954) e, posteriormente, revisita esse sentimento no filme A Forma da Água (2017), abordando de forma direta e metatextual simbologias e temáticas relacionadas a histórias de monstros.
Contemplado com quatro prêmios da Academia, dentre eles, o Óscar de melhor diretor, A Forma da Água (2017) centra-se em Elisa (Sally Hawkins), uma mulher órfã e muda que trabalha como zeladora em um laboratório experimental secreto do governo estadunidense em meio à Guerra Fria. Nele, ela conhece e se afeiçoa por uma criatura aquática (Doug Jones) ali mantida para experimentações que levariam os Estados Unidos a uma posição vantajosa em relação à União Soviética, e recorre à ajuda de seu vizinho Giles (Richard Jenkins) e sua colega de trabalho Zelda (Octavia Spencer) para libertá-la.
O romance desenvolvido por Elisa e a criatura é pautado pelos seus sentimentos de isolamento e incompreensão advindos de não se encaixarem no que é socialmente convencionado como aceitável. Elisa se enxerga na criatura e por ela é enxergada, em suas palavras, por quem ela é, e não pelas suas marcas de alteridade. Assim, o amor entre os dois não existe apesar de suas diferenças, mas por causa da identificação gerada a partir delas.
Historicamente, a simbologia em torno dos monstros esteve associada a temas de uniões românticas, papéis de gênero e quem pode socialmente ser lido como o “outro”. Diversos contos antigos, como A Bela e A Fera e O Príncipe Serpente, na Índia, retratam mulheres levadas a casarem-se com homens-besta, curados de sua bestialidade através da paciência e compaixão da protagonista, servindo para instruir jovens garotas a portarem-se bem em casamentos arranjados, para que seus maridos pudessem mostrar-lhes seu “lado bom”. Já o cinema de monstros desenvolvido em Hollywood entre 1930 e 1960 pode ser analisado por uma lente de racismo, com criaturas como o King Kong e o Monstro da Lagoa Negra, nativos de regiões de “terceiro mundo” e distantes da cultura branca estadunidense, representando uma ameaça para as mulheres brancas por quem se sentem atraídos, que por sua vez têm de ser salvas pelos bons homens brancos, que abarcam valores tradicionais estadunidenses.
Del Toro se vale do arcabouço temático das histórias de monstros para subvertê-lo deliberadamente. Em A forma da água, Elisa não representa uma mulher convencionalmente atraente ou pura que precisa ser salva da impureza do monstro, e ele, por sua vez, não precisa passar por uma redenção transformativa para ser digno de seu amor. Elisa é agente de sua própria história, inicia os atos sexuais entre os dois e claramente se sente atraída por ele extamente como ele é, e seus amigos acatam suas decisões não por motivos racionais, mas por serem as decisões dela, respeitando sua agência. O homem branco tradicional, cristão e provedor da sua família é a maior ameaça aos personagens por causa de seus valores tradicionais e a crueldade neles implícita.
O filme é enriquecido pela compreensão das referências e inversões de Del Toro, mas não se perde sem esta. A direção de arte de Nigel Churcher e o design de produção de Paul D. Austerberry são sublimes e criam ambientes estilizados e fantasiosos, variando de amedrontadores a oníricos, mas ainda estéticamente coesos. A sensação romântica de estar em sonho é exacerbada pela direção do próprio Del Toro, cuja camêra é fluida e contínua, ajudando o espectador a absorver as emoções dos personagens e cenas, não apenas vê-las. Aliado a esse processo está a trilha sonora de Alexander Desplat, que estabelece com precisão as emoções de cada cena.
A produção grandiosa e sanitizada, mais tradicionalmente Hollywoodiana, é um dos fatores de distinção de A forma da água do resto da obra de Del Toro. Suas histórias de monstro desenvolvidas na Espanha, O labirinto do fauno (2006) e A espinha do diabo (2001), contam com menos espetáculo e narrativas mais irreverentes, com exposições em diálogos menos diretas. Um espectador acostumado e afeiçoado ao estilo narrativo de Del Toro em suas obras espanholas pode se decepcionar com o fator mainstream de A forma da água, porém a narrativa romântica clássica e a produção grandiosa e tradicionalmente Hollywoodiana são intencionais e estratégicas por parte do diretor.
Infelizmente, a temática de abraçar e aceitar quem é lido como o outro é um tanto minimizada pela representação estereotipada de Zelda enquanto uma mulher negra “sassy” ou atrevida. Enquanto personagem secundária que serve tanto como ajuda genuína para a protagonista quanto para alívio cômico, sua caracterização serve seu propósito, entretanto, o uso de estereótipos para construir a personagem destoa da mensagem central do filme.
Apesar da caracterização destoante de Zelda e de conter uma narrativa mais sanitizada, A Forma da Água (2017) defende, com muita sensibilidade e uma ternura genuína, a radicalidade que há em abraçar os fatores marcantes de alteridade social; e a compreensão, não idealização, como força motriz do amor.
