onde a fé encontra acolhimento para os muçulmanos em Salvador
texto Arthur Stering e Gabriel Jones
capa Gabriel Jones, Pedro Hassan e Reuel Nicandro
multimídia Ana Francisca
diagramação Marlon Chagas
audiodescrição Sofia Pato
Salaam aleikum é uma das principais saudações da língua árabe, especialmente entre os seguidores do islamismo. Essa expressão significa “que a paz esteja convosco” e pode ser utilizada ao chegar e ao se despedir. Quando invertida, a frase alaikum assalam significa “que a paz esteja sobre vós também” e serve como resposta ao cumprimento. O próprio nome islã tem origem na palavra salaam, que representa submissão e entrega à paz divina.
Em Salvador, parte da identidade cultural se desenvolveu a partir da diversidade religiosa, expressa em mosaicos de santos e orixás. Dentre tantos credos que coexistem no território soteropolitano, no bairro de Nazaré o islamismo se faz presente com orgulho de sua história e de portas abertas para quem deseja compreendê-lo.
Atrás de muros verdes marcados com o nome “Mesquita de Salvador”, o Centro Cultural Islâmico da Bahia (CCIB) funciona como ponto de comunhão da fé para a comunidade muçulmana e destaca-se como o único do estado. Com um salão de orações e uma biblioteca, o centro oferece aulas de árabe, leitura religiosa e palestras para o público interno e externo. Além de um local voltado à prática, o espaço representa uma fonte de pesquisa e conhecimento sobre a cultura do islã.

Início da oração obrigatória, Dhur, oração do meio-dia
(Foto: Ana Francisca)
Ao adentrar as instalações, os sapatos são deixados para trás. Os pés descalços pisam no extenso tapete azul, que se destaca em meio às paredes brancas e cortinas coloridas. O salão de orações é a alma do ambiente e está decorado com quadros contendo trechos do Alcorão e fotos da Caaba, local mais sagrado do Islã. Os fiéis se reúnem às sextas para ouvir a mensagem do sheik, figura que assume função de liderança nos estudos aprofundados da religião.
O presidente do Centro Islâmico Imã Hassan, 70, afirma que apesar de ser indicada, a comunhão não é obrigatória. “O islã pode ser praticado em casa ou em qualquer outro lugar, até mesmo em uma praça.” As orações obrigatórias, salat, realizadas antes do nascer do sol, ao meio-dia, à tarde, ao pôr do sol e à noite, devem ser precedidas por um ritual de purificação. O procedimento consiste em lavar-se com água sempre que possível.
A fim de estabelecer um padrão no rito, os seguidores da religião recitam versículos do Alcorão em árabe e se curvam em direção a Meca, local de origem do profeta Maomé, na atual Arábia Saudita. A posição do Sol era originalmente usada como uma forma de guia, tanto para saber o horário das orações, quanto a direção para onde os fiéis deveriam se curvar. Ao longo do tempo, a prática se tornou mais simples, com o uso de relógios e bússolas.
“a religião é unida. Se você é brasileiro, não ora em português. Rezamos todos em árabe, rezamos todos juntos”
sheik ahmad
A preservação dessas práticas e costumes se conecta com a própria essência desa fé. Todo muçulmano precisa aprender árabe, uma vez que a liturgia é feita quase integralmente nesse idioma e as traduções dos escritos são usadas somente para fins didáticos. “A religião é unida. Se você é brasileiro, não ora em português. Rezamos todos em árabe, rezamos todos juntos”, explica o Sheik Abdul Ahmad, 73, líder religioso da mesquita, durante um sermão. A memória das palavras é considerada por eles uma emissão divina e contribui para o sentimento de irmandade que paira entre os praticantes do islamismo.
Após o sermão, Ahmad explica que propagar a religião é como ensinar a uma criança, de modo que é impossível obrigá-la a seguir pela força, sendo preciso ensiná-la a “enxergar as belezas”. Para ele, uma das coisas mais belas que aprendeu com o islã em seus estudos foi a valorização da vida. “Tirar a vida de uma pessoa é como tirar a vida da humanidade inteira. No contrário, uma pessoa que consegue salvar um único indivíduo também salva a humanidade. O objetivo é aprender a salvar a vida”, afirma Sheik Ahmad.
NOSSA PRÓPRIA HISTÓRIA
Natural da Nigéria, Abdul Ahmad estudou a sharia, lei islâmica, em universidades especializadas na Arábia Saudita para se tornar um sheik. Em 1992, foi convidado para conduzir espiritualmente a primeira mesquita da Bahia, planejada pela população muçulmana de Salvador. Ahmad lembra que, inicialmente, não queria vir para o Brasil por causa da distância de sua terra natal, mas veio mesmo assim. Quando chegou na capital baiana, conheceu a história dos malês e sentiu que havia algo de especial na cidade.
Com o nome derivado do ioruba imàle, que significa muçulmano, o povo malê é original da Africa Central e protagonizou a maior revolta de escravizados da história brasileira. Com cerca de 600 revoltosos, eles lutaram contra a imposição do catolicismo e tentaram criar uma república islâmica no Nordeste. Esse episódio de 1835 é fundamental para entender a influência muçulmana em Salvador e para perceber o esforço do Estado em conter manifestações religiosas não cristãs. Se nesse momento a maioria da população era analfabeta, os malês se destacavam pelo conhecimento da língua árabe, utilizada para escrever instruções secretas para o planejamento do grupo.
A história dos muçulmanos na capital baiana remonta também a influência moura na cultura portuguesa, expressa no período do Brasil colonial. Os traços árabes se manifestam nas sutilezas da cidade, desde a arquitetura hispano-muçulmana da Paróquia da Lapinha até a culinária com azeite doce que banha todo o Mediterrâneo, trazido para o Brasil durante o período das Grandes Navegações.
ELE É QUEM FAZ RIR E FAZ CHORAR
Sodica Ahmad, 68, esposa do sheik, fala sobre sua perspectiva acerca do islã e como se relaciona com a própria religiosidade. “Uma paz dentro de si mesmo, com os outros e com tudo aquilo que Alá criou”. Esses sentimentos de plenitude e compaixão definem sua forma de enxergar o mundo e as relações dentro da fé. “No Alcorão, Alá nos conta que para além do islamismo, somos todos irmãs e irmãos e devemos nos acolher”, reforça Sodica sobre o caráter fraterno dentro do islã.
Nigeriana e de família muçulmana, Sodica estudou em escolas árabes no Ensino Médio, onde conheceu seu companheiro. Ela explica que faz parte de sua rotina transitar entre o Brasil e seu país de origem, uma vez que não reside fixamente na Bahia. Entre as idas e vindas, ela se baseia na religião para guiar sua vida com equilíbrio e esperança.
“o islã nos trata como rainhas”
sodica ahmad
Ao falar sobre sua perspectiva como mulher dentro da comunidade islâmica, ela explica que, como muçulmana casada, é cuidada por seu marido, algo que considera uma grande bênção. Acrescenta ainda que as mulheres que seguem o islamismo precisam ter as necessidades asseguradas e receber a devida atenção. “O islã nos trata como rainhas”, finaliza.
Apesar do alicerce dessa religião ser a prática da paz e respeito mútuo, toda a comunidade sofre com muita hostilidade fora de suas áreas de predominância, como África e Ásia. Sodica Ahmad lamenta o temor que se tem do que é diferente. Para ela, quando as pessoas não dão uma chance para o que há de novo, se fecham cada vez mais e o que resta é a agressividade.

( Foto: Ana Francisca)
Em contraste com quem nasceu dentro da fé, muitas pessoas conhecem o islamismo na idade adulta e se encontram nessa comunidade. Nas terras baianas isso não seria diferente. O empresário Marcos Mamede, 53, neto de sírios e criado numa família árabe em Salvador, relata que, apesar dos parentes muçulmanos, não teve interesse em aprender sobre o islã quando era mais novo. “Eu fui criado nesse meio. Comendo as comidas, ouvindo a cultura, vendo a reza, mas nunca me interessei, por estar na Bahia.”
Durante um sermão no CCIB, em outubro de 2024, Mamede completou um importante passo para sua entrada na sociedade muçulmana e declarou a shahada, se apresentando formalmente como membro-irmão. O empresário ressalta que mantinha uma relação distante com qualquer religiosidade, mas que isso mudou depois da primeira ida ao Mundo Árabe. Ele pôde sentir o impacto da religião, pela grande quantidade de fiéis, além de conseguir estudar mais sobre o islamismo e se sentir conectado com algo maior. “O primeiro grande contato que eu tive [com a religião] foi no Egito. Quando eu vi, tudo parou e todos viraram para um lado só”, relembra.
Segundo a Federação das Associações Muçulmanas no Brasil, FAMBRAS, em 2022 havia cerca de 800 mil a 1,5 milhão de praticantes da religião no país. Por causa da pouca disseminação do islã no território nacional, existe um certo distanciamento de grandes setores da sociedade com essa cultura, que resulta em muitos casos de preconceitos e intolerância. Apesar disso, o que predomina no contato de muçulmanos com outros habitantes de Salvador é uma relação positiva, nas palavras de Hassan. “As pessoas conhecem a gente só por estar usando o takia [gorro islâmico de crochê]. Perguntam ‘você é muçulmano?’ e falam algumas coisas em árabe. ‘Salaam aleikum!’, e a gente responde. O povo gosta. O povo daqui é muito amável, muito amigo”, afirma o presidente.

Arthur Stering e Gabriel Jones
Essa reportagem foi produzida por Arthur Stering e Gabriel Jones, estudantes de Produção em Comunicação e Cultura e Jornalismo da Universidade Federal da Bahia e integrantes do Programa de Educação Tutorial em Comunicação.
Fotografia: Airí Assunção e Lourdes Maria / Labfoto ©️ 2024
Assistência de Fotografia: Airí Assunção e Lourdes Maria / Labfoto ©️ 2024
Edição: Lourdes Maria e Airí Assunção / Labfoto ©️ 2024
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