19 de maio de 2025

REWIND

By In Petalhada

Como dois gêneros musicais diferentes, como o Drill e o Grime, dialogam entre si e ganham uma nova roupagem a partir da transformação que passam ao serem incorporados à cultura periférica brasileira.

texto Peu Hassan
publicado 20.05.2025

Para além dos estereótipos, o Drill e o Grime são hoje dois estilos musicais consolidados na periferia brasileira, que bem representam a diversidade do Brasil quando se trata de sonoridade. Mas, normalmente, para quem não conhece muito desses dois estilos, é comum achar que são a mesma coisa. Só que não é bem assim, eles possuem algumas diferenças, tanto nas produções em si, quanto nas suas origens. Contudo, é somente revisitando o passado que é possível perceber que as histórias de ambos os gêneros musicais estão ligadas por uma mesma raiz, a cultura Sound System jamaicana. Quando os MCs do Sound System jamaicano se dividiram em duas direções ao deixarem a Jamaica, para os Estados Unidos e para o Reino Unido, novas possibilidades de ritmos surgiram.

No Reino Unido, essa cultura jamaicana se misturou com a cultura da dance music. Nesse processo, ela passou pelo House, Ragga (Dancehall), Jungle, Drum and Bass, Dub, Dubstep e UK Garage. Mas, basicamente, com pouca interferência de elementos do Hip-Hop — ainda que ele estivesse um pouquinho presente. Esse, por sinal, é o motivo pelo qual o Grime é muito mais alinhado a músicas dançantes, rápidas e eletrônicas.

Nascido da música eletrônica urbana, mais especificamente nas periferias de Londres no início dos anos 2000, o Grime — com suas batidas mais agressivas e aceleradas — tem como principal influência o UK Garage. Caracterizado por usar vocalizações, linhas de baixo do Drum and Bass e batidas de Two-Step ou Breakbeats, girando em torno de 140 batidas por minuto (bpm).

Grime Original – Lloyd Bradley and Simon Wheatley (Reprodução: Hennessy©)

Esse movimento se consolidou naquele período, principalmente, quando grupos de MCs se reuniam para rimar em cima de batidas feitas com poucas variações, em versos de oito compassos. Mas tudo centrado na figura do DJ, que criava as bases a partir de músicas eletrônicas, misturando sons de influências jamaicanas e do Afrobeat presente na região. Culturalmente, é até por isso que às vezes o Grime nem é considerado uma vertente do Hip-Hop, por sua raiz ser muito mais da música eletrônica e jamaicana.


Outro marco importante na história do Grime foi no início dos anos 2010, quando rádios piratas londrinas passaram a ajudar na divulgação de músicas do gênero, antes mesmo da propagação via YouTube — que viria a se tornar um dos principais meios de distribuição dessas músicas. Sobretudo, com nomes que se tornaram referências e influenciaram toda uma geração de artistas e produtores, como Dizzee Rascal, Skepta e Stormzy.


Aqueles outros MCs jamaicanos que partiram para os Estados Unidos, ao deixarem a Jamaica, se direcionaram mais para o Hip-Hop. Suas músicas passaram a ser mais sobre as letras, técnica, história, política, representatividade, as ruas, a luta e o conhecimento. O Drill se originou por esse caminho, com poucos elementos dançantes, como é o caso do Grime. Por isso, suas batidas são menos eletrônicas, mais lentas, com letras mais alinhadas ao Rap estadunidense.

O Drill, na verdade, surge como uma nova vertente do Trap — uma versão mais violenta do mesmo. Nascido nas periferias de Chicago, por volta do fim dos anos 2000 e início dos anos 2010, seus beats geralmente são mais secos, marcados por um som mais sombrio. Sua estética é mais underground e possui um instrumental muito mais presente, com graves que deslizam sobre as marcações do 808 e do Hi Hat, girando em torno de 60 a 70 bpm.

Ainda que tenha nascido em Chicago, essencialmente para falar sobre as questões de violência nos subúrbios norte-americanos, o Drill chegou a Londres, onde ganhou uma nova roupagem antes de voltar para os Estados Unidos — mais especificamente, para Nova York. Além de ter dado origem ao subgênero UK Drill, esse intercâmbio permitiu que o Drill ganhasse o mundo e fosse conhecido como é hoje. O principal nome para essa conexão e revolução do gênero foi o rapper Pop Smoke.

Pop Smoke – (Reprodução: YouTube)

É importante lembrar que todo esse movimento só foi possível graças a Chief Keef, Fredo Santana e Lil Durk — artistas que, por meio de suas mixtapes gravadas e lançadas diretamente no YouTube, foram precursores e responsáveis pela popularização do Drill lá no início.


Aqui no Brasil, o Drill foi incorporado e adaptado a elementos da nossa cultura, como o futebol, as dificuldades e a vivência de favela. A ideia original do Drill é que os beats acompanhem o tom mais pesado das composições. Mas, como ele é fruto de um dos pilares do Hip-Hop — o Rap —, os artistas brasileiros se aproximam ainda mais das batidas de Trap, que por aqui são mais fluidas e também permitem temas mais amplos. O mesmo vale para o Funk quando incorporado, trazendo uma identidade única ao Drill brasileiro.

O mesmo acontece com o Grime ao chegar na periferia brasileira, ele se mistura muito com o que já é presente por aqui, nas variações do Funk, no Afrobeat e em muitos outros ritmos da nossa cultura. A manifestação do Grime brasileiro e sua incorporação a estilos regionais enriquece a música brasileira, promove e acolhe a inclusão de novos gêneros.

Os dois estilos têm semelhanças nas letras, que costumam falar sobre vivências, como a busca por melhores condições de vida, criminalidade, autoestima e até futebol — assunto, por sinal, muito recorrente tanto nas músicas quanto nas roupas dos artistas. Mas, apesar de fazerem parte de uma cena cultural muito parecida — musical, de rua e periférica —, o Grime e o Drill, como já apontado, são diferentes em suas histórias e composições. Ambos possuem origens distintas.

O que ajudou muito a unir os caminhos entre o Drill e o Grime foi a incorporação do gênero pelos ingleses, por meio do UK Drill — com uma característica mais acelerada e bpm mais próximo ao Grime. Por isso, é comum ouvidos desavisados se confundirem ao tentar distinguir os dois estilos, principalmente quando o bpm é dobrado. Os dois gêneros podem soar como a mesma coisa — mas não são.

No entanto, ainda que fique claro que não são a mesma coisa, por nascerem de berços diferentes — já que o Drill é Hip-Hop por ser filho do Trap/Rap —, talvez não seja tão errado dizer que o Grime também seja filho do Hip-Hop, uma vez que um de seus pilares está centrado na figura do DJ. E, afinal de contas, o que seria da música eletrônica se não fosse o DJ? Bom, ainda que isso possa não fazer muito sentido, o Grime ainda pode ser chamado de filho do Rap — nem que seja adotivo. Até porque, sem um MC rimando em cima do beat, onde estaria o propósito?

Cada vez mais, na verdade, esses laços têm se estreitado. Hoje é comum ver artistas mais completos trabalhando com os dois lados da moeda. Especialmente agora, em que a música eletrônica tem se tornado mais influenciada pelo que é produzido nos Estados Unidos e o Rap norte-americano vem se aproximando do Grime. Então, basicamente, tudo está se fundindo e sendo misturado em um enorme caldeirão de Rap — onde o Grime é o molho.

Na cena brasileira, a coisa não é muito diferente. Afinal, o mais comum é encontrar artistas que se saem muito bem entre esses dois estilos, transpassando suas barreiras e produzindo em ambos os gêneros. O jeitinho brasileiro fez com que produtores e MCs dessem uma cara nova ao Grime e ao Drill, incorporando o universo das periferias brasileiras, estilos e ritmos nacionais como Funk, Afrobeat, Pagodão, Samba, entre outros — muito presentes na estética visual e sonora do Brasil, que cada vez mais vem sendo ostentado.

Bons exemplos de Grime são observados no Brasil Grime Show, projeto carioca que convida MCs diversos da cena — de diferentes vertentes e estilos — para fazer freestyle, improvisando nos beats de Grime. Uma produção cheia de brasilidade, que serve como uma espécie de vitrine. Além de dar espaço, apresenta os artistas para todo o Brasil. Sobretudo, artistas independentes do underground, que buscam sempre inovar em suas produções, fugindo do que é imposto pela indústria.

Alguns dos grandes nomes que já passaram pelo canal, bem como outros com relevância na cena, são: ANTCONSTANTINO, Diniboy, SD9, VND, Fleezus, Febem, CESRV, N.I.N.A, MC Naninha, Iza Sabino, Sant, Sain, Choice, Thai Flow, Pedro Apoema, Babidi, Big Bllakk, Derxan, Major RD, LEALL, Btrem, taldiBruna, TOKIODK, Felp22, Lipinho, Maru2D, MC Carol, MC Gorila, Vandal, Vhoor, Puterrier, FBC, Mu540, Bruno Kroz, dentre muitos e muitos outros nomes. Apesar de recente, existe uma cena em ascensão pelo país — e novos nomes aparecem a todo momento.


Nesse mesmo sentido, segue a cena do Drill ao redor do mundo, em constante expansão, ultrapassando fronteiras e ganhando novas formas e vozes. Assim como no Brasil, onde o gênero tem sido ressignificado e misturados a elementos locais, novos nomes continuam surgindo. Dessa forma, para além do eixo tradicional das raízes americanas e britânicas, vale a pena conferir três indicações de cenas internacionais que merecem sua atenção:


França

Com batidas marcantes e uma estética crua, “suja”, que aborda temas como desigualdade social e a vida nas periferias, a cena de Drill francesa tem ganhado certo destaque internacional. Artistas como Gazo e Ziak trouxeram o Drill francês para o mapa global, incorporando uma sonoridade única que mistura o lirismo agressivo do Drill com influências do Trap europeu.


Palestina

O Drill palestino é uma expressão poderosa da resistência e da luta pela identidade. Carregada de letras que refletem as realidades do conflito e da ocupação, a cena tem mostrado uma combinação de beats sombrios e produções densas, trazendo uma camada emocional ao estilo. Grupos como Shabjdeed estão ganhando força ao misturar Drill com elementos de música árabe, criando uma trilha sonora para as vivências diárias de opressão e resiliência. O mesmo vale para o trabalho feito pelo canal egípcio Rap Shar3, que permite que jovens árabes se expressem quanto às suas angústias e revoltas, em um formato similar ao de uma Cypher.


Japão

O Drill japonês já oferece uma abordagem mais distinta, ao misturar a agressividade do gênero com a precisão técnica e as particularidades culturais do país. Artistas como LOUD SANTANA, Vega KfK e Maddy Soma representam um movimento que reflete a modernidade urbana japonesa, com batidas mais cadenciadas e influências eletrônicas que criam uma sonoridade única. A cena, embora relativamente nova, vem ganhando atenção pelo seu estilo inovador e futurista, sem abrir mão de elementos tradicionais.


Essas cenas internacionais oferecem um olhar diverso sobre como o Drill está sendo ressignificado e adaptado em diferentes contextos culturais, refletindo as realidades sociais e políticas de cada região.


Peu Hassan

Esse Petalhada foi realizado por Pedro Hassan, estudante de Produção em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal da Bahia e integrante do Programa de Educação Tutorial da Faculdade de Comunicação da UFBA.

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