texto Sofia Pato
publicado 08.07.2025
Em 1902, Anton Tchekhov começa a escrever o que seria uma das suas mais apreciadas peças de teatro: The Cherry Orchard (O Jardim de Cerejas). Apesar de tamanha magnitude, ele nunca pôde ver sua história tomar vida, já que faleceu em 15 de julho de 1904, meses antes da peça estrear. Ainda que centenária, a obra do escritor russo é repleta de elementos muito mais do que reconhecíveis, com personagens construídos quase como arquétipos junguianos e
um enredo atemporal, que assombra a sociedade contemporânea numa comédia que faz chorar e uma tragédia que faz rir.
Lyubov Ranevskaya retorna para a Rússia e para o seu amado jardim de cerejas após passar cinco anos em Paris. Em casa, ela e sua família estão afogadas em dívidas, e por isso o terreno será leiloado pelo Estado em breve. Lopakhin, um rico comerciante e conhecido da família, dá a solução: se livrar da velha casa e das cerejeiras – que há muito tempo são inférteis – e alugar o terreno para a construção de dachas (casas de campo), permitindo um ganho anual de 25 mil rublos (19 mil dólares). Apavorada pela ideia de perder sua casa de infância, Ranevskaya repudia a sugestão instantaneamente, e mesmo com os avisos frequentes, perde o terreno para o próprio Lopakhin, obrigando ela e sua família a deixarem o que foi o seu lar por gerações.
The Cherry Orchard não tem apenas um, mas vários sujeitos que, apesar de fictícios, se associam de forma bem clara a figuras do dia a dia:
Lyubov Ranevskaya, a herdeira presa no passado
Yermolay Lopakhin, o empresário capitalista que sempre visa o lucro
Leonid Gayev, o tio conservador com falas antiéticas
Porém, dentre essas representações, uma chama a atenção. Em uma conversa com Trofimov, Anya confessa:
“Por que eu não amo mais o Jardim como eu amava antes? Eu o amava tão
profundamente, achava que não havia lugar melhor no mundo.”
E ele responde:
“Seu avô, seu bisavô e todos os seus ancestrais eram proprietários de servos. Todos aqueles seres humanos estão olhando para você de cima de cada árvore deste jardim, cada folha, cada tronco. Não consegue ouvir suas vozes? A
propriedade de almas é o que formou todos vocês. […] Para começar a viver no presente precisamos nos redimir de nosso passado.”
É Anya, de dezessete anos, que cessa uma tradição de séculos. Sua percepção de que o pomar de cerejas impede a possibilidade de uma vida nova a faz ousar ver um futuro possível com a perda da propriedade. Enquanto o espectador se indigna com a traição de Lopakhin e é movido pela desolação de Ranevskaya, Anya rompe com o apego pelas árvores que deram frutos pela última vez há 50 anos e uma geléia da qual a receita ninguém se lembra mais. Anya, da nova geração, enfrenta bravamente a incerteza da mudança, e comemora:
“Uma nova vida está começando, mamãe!
Ao redor do globo, estão milhares de Lopakhins, Ranevskayas e Gayevs. Da mesma forma, Trofimovs e Anyas constituem uma juventude que, ainda que vítima das escolhas dos seus antecessores, não tem medo de fazer as próprias. Acima de tudo, assim como Tchekhov prevaleceu esperançoso nos fins de suas obras, na vida real também acontece de maneira similar.
“Agora podemos começar a nossa jornada”
“Nossa jornada.”

Muito emocionada com a narrativa.