29 de julho de 2025

Pecadores (2025) – Entre o Blues e o Surrealismo Negro

By In Petalhada

O filme Pecadores (2025), dirigido por Ryan Coogler, rompe as barreiras do terror convencional para criar um mosaico simbólico, onde o blues é mais que trilha sonora: é um signo de resistência, um código ancestral capaz de convocar espiritualidade e identidade. Ambientada no Delta do Mississippi, a narrativa acompanha Smoke e Stack, gêmeos interpretados por Michael B. Jordan, que retornam para reabrir uma serraria e a transformam em um juke joint: um espaço cultural negro. O que poderia ser apenas uma história sobre música e reconciliação comunitária se transforma em um ritual, onde ancestralidade, opressão e horror colidem.

A linguagem visual do filme é repleta de códigos. A serraria convertida em juke joint opera como signo de subversão: um espaço antes marcado pela exploração se torna palco de afirmação negra. As cenas de fumaça, sombras, símbolos africanos e corpos em transe remetem a um imaginário ritualístico, em que o visível e o invisível se sobrepõem. Segundo a perspectiva peirceana, os ícones presentes na mise-en-scène — caveiras, sangue, instrumentos — não são meros ornamentos, mas índices de um trauma histórico que se recusa a desaparecer.

Essa estética dialoga com o conceito de afro-surrealismo, termo popularizado pelo manifesto de D. Scot Miller (2009), que define essa vertente como “a arte que manifesta um mundo invisível, já presente, mas oculto”. Em Pecadores, o sobrenatural não é fuga, mas revelação: os vampiros irlandeses, que prometem imortalidade, simbolizam o racismo estrutural e a apropriação cultural — uma atualização imagética do colonialismo espiritual. A promessa vampírica ecoa as críticas de Frantz Fanon em Pele Negra, Máscaras Brancas (2008), ao denunciar as ilusões de assimilação impostas à população negra.

O chamado surrealismo negro ou afro-surrealismo é uma estética de insurgência. Como explica Amiri Baraka em seus textos sobre cultura e resistência, trata-se de uma resposta simbólica ao realismo colonial que aprisiona corpos negros em categorias rígidas. Ao mesclar real e fantástico, Coogler rompe com o naturalismo esperado de narrativas sobre racismo e transforma a luta em experiência mística. Esse gesto remete também à tradição das religiões afro-diaspóricas, onde o espírito permeia o cotidiano. Aqui, a música — especialmente o blues — é operador semiótico dessa conexão: não apenas trilha, mas linguagem de invocação.

A obra também encontra ressonância no pensamento de autores como Abdias Nascimento (1980), ao propor o quilombo não apenas como espaço físico, mas como projeto estético-político. O juke joint de Pecadores é um quilombo simbólico: local de encontro, resistência e reinvenção da memória. A música, nesse contexto, cumpre o papel de oriki — palavra de origem iorubá que remete à força vital da palavra-canto, preservando histórias e potências.

Pecadores não é um simples filme de terror, mas um ritual cinematográfico. Sua potência está na fusão entre horror, crítica racial e estética afro-surreal, deslocando a experiência do espectador para uma zona onde política e espiritualidade se entrelaçam. Ao convocar fantasmas literais e históricos, Coogler reafirma que o terror negro não é apenas gênero, mas linguagem insurgente. O filme é, portanto, uma obra essencial para pensar as estratégias simbólicas de resistência e a potência estética da negritude na contemporaneidade.

Referências

BARAKA, Amiri. Black Art. Nova York: Akashic Books, 2014.

FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.

MILLER, D. Scot. Afro-Surreal Manifesto. San Francisco Bay Guardian, 2009.

NASCIMENTO, Abdias. O Quilombismo. Rio de Janeiro: Fundação Palmares, 1980.

PECADORES. Direção: Ryan Coogler. Estados Unidos: Warner Bros., 2025.

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