O Universo X-Men e as Representações de Minorias: Disputas, Hegemonia e Mediações
texto Peu Hassan
publicado 19.08.2025
Esse Petalhada é resultado parcial de um estudo elaborado na disciplina Comunicação e Cultura Contemporânea, do curso de Produção em Comunicação e Cultura da Facom UFBA. De autoria de Bárbara Letícia Santana Andrade, Pedro Hassan Santos Palmeira, Victor Hugo dos Santos Ribeiro de Jesus, Victor Nunes Quirino, Vinícius Andrade Juliano e Yan Inácio dos Santos.
O produto em questão é um videoensaio que busca analisar, por meio da comparação entre ficção e realidade, metáforas e alegorias relacionadas à opressão e à segregação vividas pelos mutantes da franquia X-Men. A proposta é mostrar como suas representações em diferentes mídias — quadrinhos, animações e filmes — dialogam com conflitos ainda atuais. Para isso, o trabalho se apoia nas noções de cultura e estrutura de sentimento de Raymond Williams, na conceituação de identidade e representação midiática de Stuart Hall e nas ideias de mediação cultural e dimensão recepcional de Jesús Martín-Barbero.
Se você acha que X-Men é só sobre gente com superpoderes e colante colorido dando voadora em robô gigante, é porque nunca olhou direito. Desde os anos 60, essa equipe de mutantes carrega nas costas um peso bem maior do que o de salvar o mundo. Eles funcionam como espelhos distorcidos, e às vezes dolorosamente fiéis, das nossas próprias brigas aqui fora. Racismo, intolerância religiosa, pandemias, apartheid… tudo isso já passou pelas páginas e telas da franquia.
Não é exagero dizer que os X-Men sempre trouxeram debates políticos. Quando Stan Lee e Jack Kirby criaram a equipe em 1963, o clima era o da Guerra Fria, da luta pelos direitos civis e do medo constante do “outro” que rondava o mundo. De lá para cá, cada geração de roteiristas e diretores colocou mais lenha nessa fogueira, criando histórias que são alegorias puras para o nosso caos social. E é nesse contexto que entram os três recortes abordados no vídeoensaio: “Deus Ama, o Homem Mata”, o Vírus Legado/Vampira e Genosha.
Fanatismo, poder e o ódio vestido de fé
Na HQ Deus Ama, o Homem Mata (1982), Chris Claremont e Brent Anderson nos apresentam William Stryker, um vilão que parece saído de um culto extremista desses de vídeos virais, mas com orçamento e influência de sobra. Pastor, carismático e completamente tomado por uma certeza: mutantes são uma aberração divina que precisam ser exterminados. A religião, aqui, serve como arma de guerra em sua cruzada.
Não ironicamente, Raymond Williams falava que a cultura é um campo de batalha onde valores estão sempre sendo disputados. Stryker é um general nesse campo, impondo sua “verdade” como a única aceitável, enquanto tenta apagar tudo que não se encaixa nela. Stuart Hall complementaria dizendo que a identidade se forma sempre em relação à diferença. E, nesse caso, o “diferente” é perigoso, indesejado, e, para Stryker, não merece existir.
Na adaptação para o cinema, X-Men 2 (2003) levou essa discussão para o clima pós-11 de setembro. O medo do “outro” justificava leis abusivas, vigilância em massa e até tortura. Ali, Stryker virou o rosto oficial da intolerância, lembrando como o discurso de ódio pode se travestir de proteção.
Doenças, estigmas e quem pode (ou não) ser tocado
Nos anos 90, as HQs dos X-Men nos trouxeram o arco do Vírus Legado, uma doença mortal que atacava mutantes e que, não por acaso, lembrava demais a epidemia de HIV/AIDS. Feridas, tosse, isolamento, pânico coletivo… tudo ali ecoava o que a comunidade LGBTQIAPN+ e outras populações marginalizadas viviam (e vivem) fora das páginas.
Jesús Martín-Barbero diria que essas histórias não apenas refletem a realidade, mas ajudam a construir como a entendemos. Nos X-Men, a cura para o vírus só veio quando humanos também começaram a ser infectados, uma metáfora dolorosa sobre como a empatia muitas vezes só surge quando o problema bate à porta da “maioria”.
Mas antes mesmo disso, já tínhamos a personagem Vampira como reflexo desse estigma. Criada nos anos 80 por Claremont e Michael Golden, a mutante não podia tocar ninguém sem sugar memórias, poderes e energia vital. Vivendo sempre coberta e isolada, carregava traumas profundos por conta disso. É impossível não relacionar seus “poderes” ao HIV, com o medo do toque, o peso de ser vista como “perigosa” e a culpa de carregar algo que a afastava do convívio humano.
Genosha: do apartheid ao streaming
Também no final dos anos 80, em Uncanny X-Men #235, Claremont mais uma vez trouxe ao debate críticas sociais relacionadas a segregação ao criar Genosha, um país fictício inspirado no apartheid da África do Sul que prosperava escravizando mutantes. Décadas depois, na série X-Men 97 (2024), o local volta como nação independente, desta vez retratado como refúgio e paraíso mutante… até sofrer mais um genocídio.
Aqui, voltamos com força à Martín-Barbero. Para ele, ou como ele diz, as histórias não são só sobre o que o autor quis dizer, mas também o que cada público lê nelas. Um bom exemplo da “receptividade por meio das mediações” foi como essa questão da trama abordada na animação levou parte da comunidade judaica a questionar e refletir sobre perseguições religiosas no contexto Israel-Palestina. Mas já para defensores da causa palestina, a série só ecoava a opressão sofrida pelo povo palestino, que perde território e direitos na escalada desse conflito. Ou seja, uma mesma obra, várias leituras, todas atravessadas por “competências culturais” diferentes.
No fim das contas…
Os X-Men nunca foram só entretenimento. Sempre foram comentários políticos disfarçados de aventura. Lembretes de que a ficção pode ser mais verdadeira do que o que está no noticiário. Como diria Williams, cultura é disputa, e nesses quadrinhos, filmes e animações essa disputa está estampada em cada página, cada fala, cada silêncio.
🎬 Ficha Técnica
Título: O Universo X-Men e as Representações de Minorias: Disputas, Hegemonia e Mediações
Formato: Vídeoensaio
Duração: 15min47s
Roteiro: Pedro Hassan Santos Palmeira, Vinícius Andrade Juliano, Yan Inácio dos Santos
Pesquisa: Pedro Hassan Santos Palmeira, Vinícius Andrade Juliano, Yan Inácio dos Santos
Narração: Bárbara Letícia Santana Andrade, Victor Nunes Quirino, Yan Inácio dos Santos
Edição: Victor Hugo dos Santos Ribeiro de Jesus
Referências Teóricas: Raymond Williams, Stuart Hall, Jesús Martín-Barbero
Ano: 2024
Link: https://youtu.be/NCypWbXNmgU

Peu Hassan
Esse Petalhada foi realizado por Pedro Hassan, estudante de Produção em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal da Bahia e integrante do Programa de Educação Tutorial da Faculdade de Comunicação da UFBA.
A Fraude é uma revista laboratorial do Programa de Educação Tutorial em Comunicação (PETCOM) da Facom, UFBA e não possui fins lucrativos. Caso uma das imagens te pertença ou em caso de dúvidas, entre em contato pelo email revistafraude@gmail.com para acrescentarmos a referência ou retirarmos da publicação.
