texto Amanda Menezes
Publicado 26.08.2025
Vamos voltar um pouquinho… 2025, 2024, 2023, 2022, 2021, 2020, 2019, não, pera, passei. 2020, isso. O auge da pandemia. Todo mundo trancado em casa, morrendo de medo. Meu 3° ano do ensino médio, virtual. Minha formatura? Um link no youtube. Uma Amanda cronicamente online, viciada em pinterest e tentando não enlouquecer. Tá tudo bem, sério. Eu já superei (mentira, não faça perguntas sobre por favor). E, em uma dessas scrolladas de feed, me deparei com algo que ia mudar muita coisa na minha vida. A última peça da coleção n° 13 de Alexander McQueen (vamos voltar a ela daqui a pouco).
Acredito que eu precise contextualizar vocês um pouco mais antes de contar a experiência. Vejam bem, eu era uma adolescente artística. Adorava arte, história da arte, pintar, desenhar, o pacote todo. Mas, como todo artista, eu entrei em crise. E foi aí, no meio de um feed interminável e um algoritmo que sabe até demais, que eu vi um vídeo do final da coleção de primavera/verão de 1999 de Alexander McQueen. E, leitores, eu tive uma epifania. Sabe aquelas que parecem que a sua cabeça tá explodindo e tem uma montagem do universo e de galáxias se formando e neurônios se conectando e muita coisa que você não entendia ou nem imaginava simplesmente faz sentido? Foi mais ou menos assim. Vou matar a curiosidade de vocês, vai:
Moda é arte. Moda também é economia, utilitarismo e política, mas moda é arte. E quando eu percebi isso, uma chavinha virou aqui dentro: me apaixonei. Eu acredito que, ao assistirem o vídeo, uma chavinha vai virar dentro de vocês também. Talvez não da mesma forma que a minha virou, porque toda experiência é individual, mas algum sentimento vai surgir, com certeza. Talvez vocês odeiem. Talvez fiquem indignados com a falta de sentido. Talvez até provoque indiferença. Mas a arte, em toda sua controvérsia, pode ser categorizada como “aquilo que faz sentir”. Simples. Puro. Toda obra de arte surge, afinal, de um artista e do que ele está sentindo no momento da criação. Você, como observador, provavelmente não vai sentir a mesma coisa que o artista sentiu (e tá tudo bem). Mas vai sentir algo. E é só isso que importa aqui.
Muitos estudos e análises já foram escritos sobre essa performance (porque é, inegavelmente uma performance artística digna de ser contada e recontada na história da moda): discussões sobre tecnologia, sexualidade, patriarcado, criação, a função do artista. A modelo, Shalom Harlow, não ensaiou antes. Tudo que vemos é sua reação verdadeira, seu corpo reagindo às máquinas. sabemos que Harlow está reagindo aos robôs, mas o que aparenta é que os robôs que estão reagindo à presença dela. A modelo contou, na época, que parecia que as máquinas estavam acordando, se esticando depois de um longo tempo paradas, e reconhecem uma presença estranha ali: ela. Os robôs percebem, sondam e determinam. Naquele momento o relacionamento muda: Harlow é uma ameaça. Eles atacam, ato ilustrado pelos jatos de tinta que pintam o vestido branco simples, e depois se afastam.

Não podemos deixar de sentir uma aura de agressividade, invasão, não consensualidade. Harlow comentou que a sensação era quase de “uma sexualização agressiva e predatória da mecanização do mundo moderno interferindo em algum aspecto muito cru da feminilidade”. Quando os robôs recuam, Harlow sai da plataforma e exibe o resultado para o público, “em completo abandono e rendição”. Ela própria relacionou a performance ao modo que McQueen interpretava a criação. O ato de criação era só o ser humano sendo criado, o ato sexual? Ou era como o Big Bang, com todo o caos, violência e rendição que sucedem. As análises e interpretações são praticamente infinitas. Modernidade agressiva? O ser humano, que criou a máquina, que ataca o ser humano? Misoginia, possessividade, objetificação e agressividade masculina? O robô é o homem? Em todas as possibilidades, a violência estará presente.





Alexander Mcqueen cometeu suicídio em 2010, aos 40 anos. O mundo perdeu um dos maiores artistas e gênios que a moda já teve. Na primavera de 1999, ele lançava sua 13ª coleção, finalizada pela performance de Shalom Harlow “criando” o vestido que ficaria conhecido como “The dress”. Hoje ele está exposto no Metropolitan Museum of Art e entrou para o hall de vestidos mais importantes da história. Para sempre, vou ser grata a McQueen por sua criação, que despertou em mim um novo mundo, uma nova paixão e uma nova forma de arte.
