2 de setembro de 2025

Sócrates e Cristo preferem não assinar

By In Petalhada

Texto Bernardo Maia
Publicado 02.09.2025

Scrollando pelo YouTube para sofrermos juntos a crise dos 20, me deparei com um guia definitivo de pseudônimos, desses de canais pequenos de literatura  que seguem o estereótipo de jovem leitor à risca. O vídeo, produzido por uma escritora e produtora de conteúdo de pseudônimo Natália Palha, definia, classificava, apontava prós e contras e exemplificava alguns casos famosos de utilização desse recurso de identidade. Nesse último, Natália, cujo nome verdadeiro eu não consegui encontrar, mencionou Homero como figura que ela acreditava piamente ser um pseudônimo coletivo, como o Victor Leal – identidade assumida por Olavo Bilac, Aluísio de Azevedo e outros dois entusiastas da literatura.

Não consegui acompanhar os outros contemplados pela curadoria da escritora. Minha mente viajara para as aulas de “Monge”, teólogo e meu antigo professor de Filosofia, que pregava que os dois maiores gênios do ocidente – Sócrates e Jesus Cristo – nunca assinaram um papiro. Sempre admirador da prática da escrita, e mais ainda dos feedbacks positivos, me soou como um insulto essa falta de prestação de contas ao leitor, a quem devemos os louros?

Ao ser questionado por mim, Monge, com seu apelido esporadicamente pseudonímico, afirmou que os dois pregadores eram apegados demais a sua dialética, além de quererem mexer com o juízo de quem fosse pesquisar sobre as figuras séculos depois. Continuei sem entender. Escrever é se projetar na folha, exibir partes de si mesmo que dizem mais sobre si mesmo do que qualquer autoavaliação. Preferi acreditar que, por decoro, dois dos maiores pensadores da cultura ocidental encarregaram seus seguidores de contar a sua história ao mundo e dividir os méritos.

Anos passados, com o córtex pré-frontal mais desenvolvido e estudando comunicação, ainda não posso dizer com completa certeza que entendo o que passava na cabeça dos dois. A ironia da resposta de Monge parece até respingar uma intenção maldosa oculta de quebrar a cabeça dos que pensam demais. A autoria, hoje, é a ferramenta dos que caçam um lugar ao sol. Em uma dinâmica de mundo em que a economia se liga à atenção e a atenção à personificação, bato o martelo ao dizer que nem Sócrates nem Jesus Cristo assinariam uma publicação de sua autoria nos tempos atuais, no máximo à la bell hooks. Não por medo de ter sua identidade revelada, como Eric Blair ou enaltecer a obra da sua vida, como Peshkov, mas por um motivo que só um verdadeiro mestre da dialética saberia. Monge e seu sorriso trivial pareciam entender, já eu, ainda me encontro nessa jornada.

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