4 de dezembro de 2025

DELIVERY DE ATENÇÃO

By In Fraude 27

Em tempo de relações superficiais, a solução é desabafar com estranhos

texto Artur Soares
capa Arthur Stering, Brenda Nascimento e Lucas Soares
multimídia Lucas Soares e Gabriel Jones
diagramação Gabriel Jones
audiodescrição Arthur Stering

De início parecia loucura, mas se os aplicativos de namoro conseguiram normalizar o conceito de “cardápio humano”, então nenhuma ideia poderia ser considerada ruim. Assim surgiu o Delivery de Atenção, um app em que pessoas de qualquer lugar do mundo podiam solicitar que um profissional fosse até sua casa apenas para ouvir o que elas tinham a dizer. A duração do serviço era escolhida pelo consumidor e, quanto mais longa a sessão, mais alto o valor.

Conforme a internet evoluiu e nossas vidas ficaram cada vez mais indissociáveis do mundo digital, surgiram centenas de soluções virtuais para os problemas enfrentados no cotidiano. Quer um livro? Amazon. Assistir um filme? Netflix. Pedir uma comida? iFood. Uma conversa vazia? Tinder. Embora a tecnologia aparentemente estivesse resolvendo todos os problemas que se pudesse imaginar, restava um sem solução. Caso uma pessoa quisesse atenção, ainda era preciso sair de casa em busca de alguém que a oferecesse.

Atencionista bate à porta do cliente
(foto: Lucas Soares)

As pessoas queriam alguém que as pudesse escutar de forma atenciosa, sabe? Não necessariamente trazer as respostas para seus problemas, mas realmente demonstrar interesse no que elas tinham para dizer. A internet por si só não conseguia reproduzir isso. Você até podia postar o que quisesse em sua conta no Facebook, mas isso não substituía a troca de olhares durante uma conversa. As pessoas não queriam uma atenção falsa e sem vínculo como a de um influenciador com seus seguidores, tampouco investir tempo o suficiente para criar um laço genuíno com alguém. A solução foi criar algo que substituísse uma relação verdadeira, mas que funcionasse de forma quase instantânea.

De cara as pessoas não se agradaram muito com a ideia de ter um estranho em suas casas. Porém, não demorou para o Delivery de Atenção se tornar uma febre em todos os cantos. Do jovem otaku ao aposentado sem família presente, todos estavam criando suas contas. A interface do app era como a do Uber e, assim como existe gente com a bag do iFood em qualquer buraco, também existiam “funcionários” do delivery em todo fim de mundo que você pudesse imaginar.

Qualquer um podia se cadastrar como atencionista, nome dado aos profissionais do aplicativo. Não precisava ter formação, experiência anterior ou carteira de motorista — apesar de que, nesse último caso, a pessoa poderia acabar recebendo notas baixas pela demora para chegar ao local do atendimento. O único requisito era gostar de ouvir os outros falarem. Os atencionistas não julgavam ou criticavam. Seu papel era ouvir e instigar para que a conversa durasse mais. Quando achavam necessário, faziam algumas perguntas para que o assunto se desenrolasse.

Atencionista confere endereço do serviço no aplicativo
(foto: Lucas Soares)

Existiam atencionistas que não gostavam muito de papo, apenas de ouvir. Outros eram mais conversadeiros e agiam como se fossem amigos de longa data dos clientes. Todas essas características poderiam ser selecionadas antes da sessão, mas claro, somente se você fosse usuário premium — para os pobres, restava rezar para que o ouvinte fosse, no mínimo, alguém agradável. Do outro lado da moeda, também existiam clientes de todos os tipos. Alguns eram mais quietos e só chamavam o delivery para ter a sensação de companhia, enquanto outros eram dependentes do aplicativo porque os amigos não aguentavam mais ouví-los.

Após o fim de cada sessão, o cliente avaliava a experiência em até cinco estrelas. Acho que você deve saber melhor do que ninguém que as pessoas costumam exagerar quando algo envolve reputação. Não era muito difícil encontrar pessoas que cancelavam ao perceber que o atencionista tinha uma média baixa de estrelas. E, como era de se esperar, existiam vários motivos para receber uma avaliação ruim. “O silêncio do ouvinte era muito silencioso”, disse uma. “NÃO GOSTEI. A PESSOA NEM ME CONHECE E JÁ QUER SABER DA MINHA VIDA”, bradou outra. Pode soar sádico, mas confesso que já perdi boas horas rindo dessas reviews absurdas.

O grande segredo para o funcionamento do Delivery de Atenção era o anonimato. Como ninguém se conhecia, não havia receio de falar sobre nada — afinal, eles nunca mais iriam se encontrar. O cliente não tinha medo de criticar o fulano, invejar o sicrano ou se declarar para o beltrano porque, depois do fim daquela sessão, ele não iria nunca mais esbarrar com seu “confessionário por encomenda”. De uma forma quase poética, é como se aquele estranho evaporasse e levasse consigo todos os segredos ditos durante aquelas longas horas. Para muitos, essa era uma forma segura de se livrar do peso de um segredo ou do rancor por uma inimizade.

Cliente recebe atencionista em sua casa, ainda receoso
(foto: Lucas Soares)

Parte dos usuários aproveitava para falar sobre suas individualidades. Alguns expressavam suas opiniões políticas sem medo de serem taxados disso ou daquilo, outros falavam sobre seus fetiches mais obscuros. “Não bastasse a putaria que está esse país, quando vou trabalhar ainda sou obrigado a escutar o cara falando sobre como ele fica excitado vendo pé”, lamentava um atencionista em uma mesa de bar, carregando a fúria de toda uma legião de azarados que foram contratados por gente esquisita.

Por mais que fosse um completo desconhecido à sua frente, esse estranho se tornava, por um breve momento, a pessoa mais confiável do mundo para quem solicitasse seu trabalho. Além disso, o serviço também era um terreno fértil para quem tem uma personalidade questionável. “Só tem maníaco nesse negócio. E olha que eu uso Twitter”, defendia um internauta. “Quem usa normalmente gosta de ser ouvido sem ser questionado. Acho meio perigoso para nossa geração”, dizia o especialista em coisa nenhuma.

Depois de muito desabafar, cliente se sente próximo do atencionista
(foto: Lucas Soares)

É óbvio que algo assim exigia uma série de protocolos. Primeiro, todo atencionista precisava assinar um contrato de sigilo sobre o que fosse dito nas sessões. Houve alguns poucos casos de vazamento de informações, que foram resolvidos com os clientes recorrendo à justiça e obtendo indenizações milionárias. Como toda boa big tech, a empresa por trás do serviço se fez de boba e quem precisou pagar a indenização foi o atencionista, que apenas havia achado uma boa ideia mencionar uma das histórias de seu trabalho durante uma conversa de bar. Confesso que senti pena na época, já que o relato sobre o cliente com fetiche em pé me tirou boas gargalhadas.

Além do sigilo, também era terminantemente proibido a troca de contatos entre o usuário e seu prestador de serviços. Caso contrário, os dois poderiam acabar formando um laço entre si e com isso surgiria a insegurança de conversar sobre certos assuntos, medos e desejos. Assim como no primeiro protocolo, também houve aqueles que se arriscaram a descumprir. Nesses casos, as coisas sempre terminavam de uma maneira trágica. O que inicialmente era uma liberdade incondicional para falar sobre tudo, lentamente dava espaço para o receio em magoar o outro. Normalmente, quando isso ocorria, ambas as partes paravam de se falar e deixavam de usar o aplicativo.

Em tempos em que o amor é líquido e a falsidade é mecanismo de defesa, investir em uma amizade — se é que podemos chamar assim — que não exige tempo se tornou uma opção viável para muitos. Também era uma alternativa para quem desejava fazer terapia, mas sem precisar lidar com a dificuldade de buscar um psicólogo. Além de ser consideravelmente mais barato, utilizando o Delivery de Atenção você não teria alguém que te instigasse a confrontar seus problemas, mas sim um funcionário para apenas escutar suas reclamações e, às vezes, amaciar seu ego — convenhamos, é uma proposta muito tentadora.

Após sessão, cliente paga pelo serviço oferecido no aplicativo
(foto: Lucas Soares)

No fim, acabei aceitando que tudo isso faz parte da transformação que o mundo está sofrendo. Pessoas tratando bonecos como bebês, inteligências artificiais substituindo seres humanos reais e agora um aplicativo feito exclusivamente para quem quer ser escutado sem ser contestado. Boas ou ruins, as coisas são assim agora e o que resta é aceitar. E olha só pra mim, reclamei tanto e tô aqui usando o aplicativo também. Mas não dá  pra me julgar, gosto de contar crônicas e é legal ter certeza que alguém as escutou pelo menos uma vez. Já terminei o que tinha para te dizer, pode esperar aqui que vou pegar seu dinheiro. Você foi um bom ouvinte, a nota no aplicativo realmente não era uma ilusão.

Artur Soares

Esse conto foi produzido por Artur Soares, estudante de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia e ex-integrante do Programa de Educação Tutorial em Comunicação.

Fotografia: Lucas Soares

A Fraude é uma revista laboratorial do Programa de Educação Tutorial em Comunicação (PETCOM) da Facom, UFBA e não possui fins lucrativos. Caso uma das imagens te pertença ou em caso de dúvidas, entre em contato pelo e-mail revistafraude@gmail.com para acrescentarmos a referência ou retirarmos da publicação.

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