4 de dezembro de 2025

HISTÓRIAS RENDADAS

By In Fraude 27

A tradição das rendeiras de bilro na Bahia

texto Amanda Menezes e Brenda Nascimento
capa Arthur Stering, Brenda Nascimento e Lucas Soares
multimídia Sofia Pato
diagramação Arthur Stering
audiodescrição Tainá Pereira

Olê, mulher rendeira
Olê, mulher rendá
Tu me ensina a fazer renda
Que eu te ensino a namorar

Lampião desceu a serra
Deu um baile em Cajazeira
E desceu a Saubara 
encontrou mulher rendeira

Autor: desconhecido

Quando o mar se esqueceu que deveria banhar só o litoral e entrou na terra em trajetória côncava, encontrou o município de Saubara, a 102 km da costa soteropolitana e no coração da Baía de Todos os Santos. Logo na entrada da cidade é possível ver uma placa indicando o caminho para a Casa das Rendeiras. Não precisa andar mais de 200 metros desde a rodoviária: à esquerda, numa pequena casa branca de porta e janelas verdes, fica a sede da associação. Do lado de fora, é possível ver as almofadas de bilros enfileiradas, material de trabalho das artesãs.

Pouco depois das nove da manhã, Dona Maria do Carmo, 78, chega para mais um dia de trabalho. Seus dedos ágeis tiram o molde no papelão e trabalham os bilros, pequenas peças de madeira onde se enrolam as linhas para formar os desenhos da renda. Conhecida também como Maria Rendeira, ela fundou a Associação de Artesãos de Saubara (Casa das Rendeiras) em 1992. Desde muito antes, o tilintar da madeira acompanha a artesã: o ofício que exerce hoje com tanto orgulho é um legado passado pela sua mãe, avó e bisavó.

Maria do Carmo
(foto: Sofia Pato)

A tradição de costurar renda envolve, além da prática manual, a construção de uma memória coletiva na região. Antigamente, era quase um ritual sentar na porta de casa para rendar. Ao som dos bilros tinindo, das cantigas tradicionais e do papear da vida, a linha ia sendo entremeada e a renda nascia. Um encontro coletivo reunia avós, mães, filhas, vizinhas e amigas, cada uma com sua almofada. Hoje em dia, apesar de não ser mais feito na porta de casa, por causa da poeira que o movimento dos carros levanta, o processo não mudou muito. As tardes na Associação ainda são regadas a conversa, reprises de novela e o “tec-tec-tec” dos bilros apressados.

Dona Maria conta que, desde o início, o sonho era mudar a história da renda e não deixá-la presa em Saubara. Coincidentemente, a maior ajuda para começar veio de fora, ainda na década de 1980. Antonina Neri, uma missionária italiana, foi a principal responsável pela doação da casa onde hoje funciona a Associação. O imóvel foi comprado pela Caritas, uma organização não governamental da Itália, para a qual Antonina trabalhava. Antes disso, outra missionária, dessa vez canadense, levou Dona Maria para o Instituto Mauá, em Salvador. “Foi minha salvação. Toda a produção a gente levava para o Instituto Mauá. Compravam tudo”, lembrou a rendeira. O esforço foi coletivo, envolvendo até o Instituto de Patrimônio Histórico e Nacional (IPHAN) do Rio de Janeiro. O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) também apoiou a formação da associação e dá suporte até hoje.

Com as redes sociais, a Associação consegue vender as peças mais facilmente, inclusive para outras regiões do Brasil. Edijane dos Santos, 37, trançadeira de palha da Casa, conta que o valor do frete dificulta as vendas, já que pode sair mais caro do que o próprio produto. “Tem gente que compra mesmo assim, porque vão revender. A gente vende um mocó desse de feira, sem enfeite nenhum, por 70 reais. A moça colocou duas rodinhas de crochê, aí botou no Instagram por 200 reais”, conta Edijane. “A gente pede é que revendam mesmo, para comprarem mais”, completa rindo.

“Não quero sair de Saubara, quero que vocês venham para Saubara, porque eu não vou crescer sozinha.”
Maria do Carmo

Apesar da vontade de levar a renda para fora, tanto para vender quanto para aumentar o reconhecimento do ofício, Dona Maria é receosa em viajar. “Todo mundo quer me tirar daqui de Saubara”, brincou. A rendeira, que em 1991 foi dar aula na Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, também já recusou convites para ir a Portugal e à França, para o evento de lançamento da linha de sapatos da marca Alexandre Birman em colaboração com a Casa das Rendeiras. “Não quero sair de Saubara, quero que vocês venham para Saubara, porque eu não vou crescer sozinha. Se eu crescer um dia, vou crescer junto com minha comunidade.” afirma Dona Maria.

Entrada da Casa das Rendeiras
(foto: Sofia Pato)

No Recôncavo, o dia das mulheres é ritmado pelas marés. Enquanto a pesca é considerada um trabalho masculino, as mulheres se ocupam da mariscagem e complementam os ganhos com o artesanato. “O dinheiro da maré é imediato. Você vai para a maré de manhã e de tarde já está com dinheiro. O artesanato é diferente, você vai esperar alguém comprar”, conta Dona Maria. A Casa das Rendeiras, que já contou com 110 associadas, hoje é formada por 53 mulheres: 46 rendeiras e 7 trançadeiras de palha. Exceto as que já se aposentaram, todas as artesãs também são marisqueiras.

O “tec-tec-tec” dos bilros veio de… Portugal?

Os mesmos ventos que trouxeram as caravelas portuguesas, trouxeram também a renda de bilro para a Baía de Todos os Santos. Com a chegada dos colonizadores, a técnica de tecelagem se espalhou pelo país, principalmente na região Nordeste. Os escravizados foram ensinados a fazer renda para a nobreza vestir. Faziam toda a cadeia produtiva: plantavam a semente do algodão, colhiam, teciam o fio e depois costuravam a renda.

Dinoélia Trindade, 51, é sobrinha de Maria do Carmo e, assim como a tia, faz renda desde a infância. O primeiro contato com o ofício veio através de sua avó, que lhe ensinou os pontos e os segredos dos fios. Apesar de dominar a técnica, ela conta que nunca viu a avó vestir as próprias criações. “No inconsciente, ela fazia algo que não pertencia a ela, fazia pro outro”, refletiu a rendeira. Ao contrário da avó, ela veste suas próprias peças com muito orgulho, transformando a renda em extensão de sua identidade e de sua história.

Dinoélia Trindade
(foto: Sofia Pato)

Dinoélia gostava de admirar sua avó fazendo renda. “Ela fazia de uma forma tão linda. (…) Ficava ali sempre observando ela fazer, (ela) saía e eu mexia na almofada dela. Assim foi me despertando a vontade de aprender”, conta. A rendeira diz que, quando amadureceu, se deu conta da responsabilidade que tinha em preservar essa técnica centenária. Mesmo presente em vários estados, o produto final é sempre diferente. “Renda de bilro é que nem caligrafia. Ninguém faz igual a ninguém”, costuma dizer Dona Maria do Carmo.

A costura, ou coser, da renda é um trabalho meticuloso. As artesãs entrelaçam os fios enrolados nos bilros, seguindo o molde de papelão pregado sobre uma almofada cilíndrica. O número de bilros varia de acordo com a experiência da rendeira: começam com quatro e, à medida que aprimoram a técnica de coser, o número e a complexidade aumentam. Enquanto trabalham, vão fixando alfinetes para guiar as mãos sobre o desenho. Em Saubara, o espinho da planta mandacaru era usado como alfinete, mas surgiu a crença popular de que, se as crianças se furassem com o espinho, ele iria até o coração e as mataria, contou Dona Maria, que agora usa alfinetes comuns de metal.

Do outro lado da Baía de Todos os Santos

O novelo de linha que tece a renda de bilro no Recôncavo se desenrolou e encontrou a Região Metropolitana de Salvador. Foi no município de Dias d’Ávila, a 91 km de Saubara, que Dinoélia resolveu continuar a tradição da família e unir as duas cidades. Em busca de um lugar tranquilo e afastado da cidade grande, ela e o marido mudaram-se para lá em 2004, no bairro de Varginha. A comunidade vivia um alto índice de violência e as mulheres da região tinham baixa autoestima. A vontade de mudar a realidade local fez surgir a ideia de levar a renda de bilro para Dias d’Ávila. “Eu vou ensinar o que eu sei para essa comunidade”, disse a rendeira, como quem planta uma semente.

Cinco anos depois, a semente germinou. Assim nasceu a Rendavan: um pontão de cultura e associação de rendeiras que mantém viva a tradição do artesanato local. Entre 2005 e 2006, o caminho até a estrutura de hoje foi de tropeços e recomeços. Dinoélia lembra que era o casal que fazia tudo. “Errava, refazia (os documentos), ia ao cartório achando que estava tudo certo e quando chegava lá, descobria que estava tudo errado”, recorda sorridente. Ela sabia que, para conquistar recursos, a oficialização era indispensável. Hoje, a associação se mantém por meio de projetos submetidos a editais. Ano passado, foi contemplada em uma seleção da Braskem, que garantiu o aporte de 50 mil reais e possibilitou o pagamento das instrutoras e a realização dos cursos.

Produtos da Rendavan
(foto: Sofia Pato)
Almofada de bilro de lembrancinha
(foto: Sofia Pato)
Almofadas de bilros
(foto: Sofia Pato)
Entrada da Rendavan
(foto: Sofia Pato)

Quando a formalização se concretizou, novas oportunidades chegaram. A parceria com o SEBRAE foi uma das agulhas que ajudaram a tecer essa etapa. Tatiana Martins, 54, coordenadora de economia criativa do SEBRAE Bahia, explica que o objetivo é ajudar a transformar a arte em negócio, sem perder as características culturais do produto. “Desenvolver esse lado empreendedor, para que, cada vez mais, elas vivam da própria arte”, conta a coordenadora sobre as capacitações em precificação, liderança e marketing que a instituição oferece, além da consultoria de design.

“Levamos para a França os produtos de um bairro com alto índice de violência. A gente mudou a realidade local.”
Dinoélia Trindade

A concretização da Rendavan tomou proporções que Dinoélia não imaginava. “Foi atraindo pessoas de outros municípios para virem fazer a formação, porque o artesanato de renda de bilro é raro de encontrar”, relata. A procura é tão grande que a associação precisa fazer cadastros de reserva, porque não conseguem atender a todos que querem fazer as aulas. E, assim como na Casa das Rendeiras, o artesanato também levou a Rendavan para a França em 2013. Dessa vez em Lyon, participaram do evento de economia solidária “Dialogues en Humanité”, onde expuseram por três anos. “Levamos para a França os produtos de um bairro com alto índice de violência. A gente mudou a realidade local”, conta Dinoélia.

O muro pintado com um mural de rendeiras e o letreiro rosa anunciam a nova sede da Rendavan, numa casa cedida pela prefeitura em 2023. Na entrada, uma janela de madeira entalhada e um bordado com a frase “Sejam bem-vindos”. As linhas que costuram a história da comunidade de artesãs não são apenas as da renda de bilro: há também pontos de crochê, desenhos de bordado e o corte e costura. De segunda a quinta-feira, a associação oferece aulas gratuitas de cada uma dessas técnicas. Adeilza Invenção, 45, é aluna de renda de bilro mas dá aula de crochê na associação há 16 anos. “É prazeroso demais, é muito gratificante ouvir ‘Pró, eu tô ganhando dinheiro hoje por causa da senhora”, diz a instrutora, sorridente.

“Hoje, a Rendavan tem uma mestra imortal. Isso é muito importante, foi uma conquista nossa.”
Dinoélia Trindade

Na parede da “Sala de Memória”, está pendurada a menção honrosa de “Mestra Imortal IOV Brasil”. Em 2023, o título foi concedido a Dinoélia Santos Trindade pela The International Organization of Folk Art (IOV), organização ligada à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). A menção é conferida a detentores de saberes tradicionais que representam os pilares do patrimônio imaterial brasileiro. Mestra Dinoélia conta com exaltação que foi uma de quatro brasileiros a receber o título na época. “Hoje, a Rendavan tem uma Mestra Imortal. Isso é muito importante, foi uma conquista nossa”, exclamou Dinoélia.

Entre linhas, bilros e almofadas, mulheres seguem mantendo viva a tradição de costurar renda. Se antes o trabalho era reservado aos escravizados que rendavam para a nobreza, hoje, quem tece transforma cada ponto em orgulho, expressão de identidade e guardião de memórias. À frente desse legado, a Mestra Maria do Carmo e sua sobrinha, Mestra Dinoélia Trindade, conduzem associações que fazem do artesanato muito mais que arte: um elo vivo entre passado e futuro.

Amanda Menezes e Brenda Nascimento

Essa reportagem foi produzida por Amanda Menezes e Brenda Nascimento, estudantes de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia e integrantes do Programa de Educação Tutorial em Comunicação.

Fotografia: Gustavo Maia/Labfoto ©️ 2025
Assistência de Fotografia: João Marcus Moura e Gustavo Maia/Labfoto ©️ 2025
Edição: João Marcus Moura e Gustavo Maia/Labfoto ©️ 2025

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