O grão que conecta memória, fé e tradição
texto Ana Francisca
capa Arthur Stering, Brenda Nascimento e Lucas Soares
diagramação Gabriel Jones
audiodescrição Lucas Soares
Há muito tempo, um povo vivia em harmonia, cercado pela fartura da natureza. Até que o velho sábio da aldeia teve um sonho premonitório: tempos de escassez e sofrimento viriam. Sentindo a morte se aproximar, o ancião chamou os mais jovens e pediu que, quando chegasse sua hora, fosse enterrado em uma cova rasa, coberta com palha e pouca terra, sob o sol e o vento. E assim foi feito.
Dias depois, do lugar onde o velho descansava, começou a brotar algo novo. Uma planta com folhas que lembravam sua lança e uma flor que parecia o cocar que usava em vida. Quando as primeiras espigas amadureceram, o povo entendeu. O velho sábio havia se transformado em sustento. Da sua morte nasceu o alimento de fartura, o milho, um presente de um sábio ao seu povo.
Desde então, o milho atravessou o tempo e o mundo. Nativo das Américas, suas primeiras sementes brotaram há mais de quatro mil anos, em terras que hoje pertencem à América Central, ao México e ao sudoeste dos Estados Unidos. Chamado “abati” ou “avati” pelos povos tupis, “milium” no latim , ou “sustento de vida”, pelos povos originários caribenhos. Mais do que alimento, o milho é base de vida e história. Não só das Américas, mas do mundo. Com a colonização, o grão cruzou oceanos e chegou à Europa como iguaria exótica. Logo, se espalhou por todos os continentes e hoje é a cultura agrícola mais cultivada do planeta, presente do campo às indústrias de alta tecnologia.
No Brasil, um dos maiores exportadores mundiais, o grão faz parte da cultura viva do país, seja na alimentação, na memória ou nas festividades. Rei do São João, é ele quem dá sabor à festa, na forma de pamonha, canjica, bolo, assado ou cozido. Cerca de 70% da produção mundial é usada para alimentar animais, o restante aparece em diversas formas do nosso dia a dia. Seja no amido, que um dia serviu para engomar roupas, na polenta, no cuscuz, nos pães e broas, no uísque, na cerveja e até nos biocombustíveis, o milho se mostra como um produto importante para a vida moderna.
Pensando nisso, a Revista Fraude decidiu seguir o caminho dos grãos, para entender como o milho junta o passado ao presente e une fé, tempo e memória. Nesta audiorreportagem, entrevistamos Maria de Lourdes, 77, e Ronilson Albin, 57, agricultores do interior da Bahia, além de Uelder Almeida, 34, vendedor de cuscuz, sobre o alimento que marca o tempo de tantas pessoas. O que começou com a generosidade de um velho sábio para sustentar seu povo, atravessou milênios, e hoje alimenta a história, a cultura, a fé e o mundo.

Ana Francisca
Essa audiorreportagem foi produzida por Ana Francisca, estudante de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia e integrante do PETCOM.
Fotografia: Lucas Soares
Assistência de Fotografia: Brenda Nascimento
Edição: Lucas Soares
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