4 de dezembro de 2025

O OURO DE GANDU

By In Fraude 27

Sementes de cacau que geram oportunidade

texto Lucas Soares e Tainá Sousa
capa Brenda Nascimento
multimídia Lucas Soares
diagramação Brenda Nascimento
audiodescrição Amanda Menezes

Cacau é boa lavra
Eu vou colher 
Na safra do verão,
Eu vou vender 

Cacau é boa lavra
Eu vou colher 
Na safra do verão,
Eu vou vender 

Cacau é boa lavra
Assim diz o lavrador
(…)

autor: Projeto Fé e Alegria, Ilhéus 

Em dias de sol intenso, encontrar abrigo na sombra é um alívio profundo, um suspiro de prazer que suaviza o calor e acalma a pele. Para o jovem cacaueiro, esse refúgio também é um respiro vital em seus primeiros meses, momento em que a vida cresce com calma e paciência. Em Gandu, sob a sombra serena da bananeira, o cacau nasce protegido, embalado pela brisa suave e pela umidade do Baixo Sul da Bahia. Os agricultores acompanham de perto o floreio da planta e o amadurecimento do fruto, que depois revela seu verdadeiro potencial no chocolate. Essa iguaria, repleta de aroma e sabor, é resultado da dedicação que atravessa linhagens e mantém viva a tradição do cuidado com a terra. 

A comerciante Luzia de Jesus, 44, cresceu em meio ao cultivo do cacau, legado que acompanha sua família há gerações. Tudo começou com seu avô, Guilhermino Januário, que passou seus conhecimentos ao filho, o agricultor Nildo de Jesus. Ela conta que, assim como o pai, Nildo, 70, preservou a tradição familiar e transmitiu seu conhecimento agrícola aos 10 filhos. No entanto, o trabalho na lavoura nem sempre garantiu uma boa renda. “A gente passou muita dificuldade, o dinheiro do cacau mal dava para sobreviver. Era muita gente e muita despesa. Conforme foi passando (o tempo), meu pai foi lutando, foi trabalhando. Ele é um guerreiro”, relembra.

Durante a infância de Luzia, a arroba do fruto (15 kg) custava menos de R$100 e, como os ganhos eram baixos para pagar as despesas da família, Nildo vendia farinha e verduras, além do cacau. Na mesma região, diferentes lavradores enfrentavam os mesmos problemas, por isso, produziam outras culturas agrícolas, como banana, cupuaçu e graviola. O valor do cacau subiu com o passar do tempo e chegou a uma alta histórica, com o arroba sendo vendido por R$ 1000 no final de setembro deste ano.

A trajetória dele é marcada por conquistas simples, mas significativas. Quando comprou o primeiro carro, a filha não conteve as lágrimas. “Ele é muito experiente. Apesar de analfabeto, é um professor. É professor dos meus irmãos, é meu professor e dos meus primos. Ele ensina todo mundo”, afirma a ganduense. A maior parte da família de Nildo, com idades entre 18 e 70, participa de todas as etapas do trabalho, desde a sementeira até à secagem, seguindo seus passos nessa tradição.

Assim como Luzia, Valdinei Barreto, 42, outro produtor da área, esteve conectado ao cacau durante sua vida inteira. Começou a trabalhar na roça por volta dos oito anos e nunca mais parou. “Quem trabalha com cacau já nasce dentro do cacau”, ressalta. Explica que sempre ajudava os pais no cuidado da terra, enquanto equilibrava com os estudos. Depois da morte do pai, decidiu abandonar o vestibular de Direito. Mas em 2003, ingressou na Universidade Federal da Bahia (UFBA) para cursar Engenharia Agronôma, com o propósito de continuar o trabalho dele no campo.


“Se eu tivesse que colocar uma nova cultura hoje, colocaria cacau novamente, sou apaixonado.  Qualquer um que trabalhar com cacau, se apaixona.” 

Valdinei Barreto

Atualmente, Valdinei é vice-presidente da Cooperativa Agrícola de Gandu Ltda (COOPAG) e instrutor do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR). Além dessas duas funções, ele mantém sua própria plantação de cacau e administra as terras da família. Apesar de ter sido guiado pela herança familiar, menciona um afeto genuíno pelo que faz. “Se eu tivesse que colocar uma nova cultura hoje, colocaria cacau novamente, sou apaixonado. Qualquer um que trabalhar com cacau, se apaixona”, ressalta.

Esse sentimento vai além do vínculo pessoal. O agrônomo destaca também as vantagens de cultivar essa planta. Diferente de outras culturas, como o abacaxi, onde os trabalhadores enfrentam o sol escaldante, no cultivo do cacau eles encontram sombra nas horas mais quentes do dia. Com os cuidados certos e o clima ideal, o pé de cacau cresce e começa a frutificar em pelo menos dois anos. Então, os lavradores colhem suas bênçãos de fevereiro a dezembro, saboreando o fruto de seu trabalho.

Entre a safra e o temporão 

Assim como na lavoura existem os períodos de colheita, o mercado cacaueiro já passou por seus períodos de escassez. No início da década de 1990, a doença vassoura-de-bruxa, originada do fungo Moniliophthora perniciosa, devastou a produção de cacau e provocou um temporão, período com baixa obtenção de frutos. Como consequência, o Brasil, antes o 2º maior produtor de cacau do mundo, teve que importar a fruta por anos. Castigo divino ou ação criminosa, as teorias fazem parte do imaginário da região e são debatidas até hoje.

A cidade de Gandu não saiu ilesa dessa situação. Luzia se lembra do ocorrido, mesmo sendo criança na época. “A vassoura-de-bruxa, no começo, foi desesperadora, muita gente ficou preocupada em perder a roça, era muito cacau  estragado.” Valdinei também relembra que a plantação do seu pai ficou danificada por causa da epidemia, tendo sido necessário fazer um novo plantio. “O controle químico não funciona 100%, o que funciona mesmo é o controle físico, como melhorar a poda, deixar a área mais arejada, para dificultar a sobrevivência do fungo”, recomenda o agricultor.

Cacau infectado com vassoura-de-bruxa
(foto: Lucas Soares)

Entre as técnicas que fortalecem a criação do cacau, a “clonagem” é uma das mais utilizadas. Ela consiste em um método de enxertia que une duas árvores em uma só. O tronco, chamado de cavalo, é unido nos galhos de outra muda, o cavaleiro. Essa fusão cuidadosa resulta em um cacaueiro capaz de resistir às doenças do solo e, ao mesmo tempo, ser produtivo em seus galhos. A COOPAG oferece cursos e auxílios necessários para que os agricultores aprendam esse método de cultivo.

Ter expertise no assunto ajuda a aumentar o lucro na produção, mas isso não basta quando a mão de obra é insuficiente. A busca por um futuro melhor nas cidades reduziu a mão de obra nas plantações. Um estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) mostra que, entre 2022 e 2023, cerca de 433 mil pessoas deixaram o campo em busca de novas oportunidades, contexto que afeta a agricultura familiar.

A fantástica fábrica de chocolate

Depois de sair das mãos dos produtores, o cacau segue para um novo destino — a transformação em chocolate. A Fábrica Escola de Chocolate do Baixo Sul da Bahia, em Gandu, desempenha um papel influente na valorização desse trabalho junto à comunidade. Os trabalhadores rurais têm acesso às máquinas e utensílios da fábrica por meio de agendamento, oferecendo, em troca, uma porcentagem dos grãos de cacau que torram. Mais tarde, com esses grãos, os alunos do Centro Territorial de Educação Profissional do Baixo Sul (CETEP), aprendem todo o processo de fabricação do doce.

“Quando a gente pensa em chocolate, a gente pensa em sabor, né? Mas ele traz uma mensagem de esperança, de que a região pode muito.” 

Ana Tailane Silva

A nutricionista e professora da instituição, Ana Tailane Silva, 33, se formou na Faculdade de Tecnologia e Ciências (UNIFTC) e fez, em Ilhéus, uma capacitação na produção de chocolate. Além das aulas em sala, Ana ministra oficinas de confecção das barras na fábrica, e ensina dezenas de alunos por semana. A princípio, ela não pensava em seguir nessa área, mas ressalta que trabalhar com o chocolate transformou sua vida. “Quando a gente pensa em chocolate, a gente pensa em sabor, né? Mas ele traz uma mensagem de esperança, de que a região pode muito”, reconhece a profissional. 

Ana Tailane Silva na Fábrica Escola de Chocolate do Baixo da Bahia
(foto: Lucas Soares)

Essa esperança é impulsionada pelas conquistas dos seus alunos. Um dos exemplos é Leonardo Argolo, que após concluir o curso, criou sua própria marca, a Choco Raiz. Atualmente, ele presta consultoria para empreendimentos de grande porte em São Paulo. “A oficina de chocolate vai além do ‘vou ensinar algo diferente pro meu aluno.’ A gente tá ensinando o aluno a empreender, a viver de uma forma mais digna, a melhorar financeiramente”, relata a professora.

Primeiro, os alunos transformam o cacau em nibs, que são pequenos fragmentos do fruto após ser seco, descascado e moído. Em seguida, são levados à melanger, máquina que tritura e refina a massa durante 72 horas, para moldar a textura em busca da melhor consistência. Por fim, vem a temperagem, momento delicado em que a temperatura do chocolate é elevada, depois reduzida e ajustada novamente, para garantir o brilho e a maciez. É assim que nascem, pelas mãos dos estudantes, as barras e bombons nas versões 50% e 70% cacau.

As guloseimas produzidas pelos alunos ultrapassam as fronteiras de Gandu. Eles participam regularmente de eventos como o Festival Internacional de Chocolate, em Ilhéus, e a Feira Nacional de Agropecuária do Norte-Nordeste (Fenagro), em Salvador. Nessas ocasiões, são fabricados e oferecidos ao público entre 8 e 10 mil chocolates, permitindo que pessoas de diferentes lugares conheçam e experimentem a qualidade e o aroma marcante do cacau do baixo sul.

Mesmo encantando as pessoas com seu sabor único, esse chocolate representa mais do que um agrado ao paladar. Todo o ciclo de cultivo e cada mão que participa do processo até a obtenção dessa iguaria, simboliza trajetórias de vida. A plantação do grão traz o sustento para muitas famílias da região que, mesmo trabalhando em etapas diferentes da produção, unem-se pela mesma raiz. Essa tradição é motivo de força e orgulho para os moradores de Gandu, uma potência cacaueira onde o maior tesouro nasce da terra.

Lucas Soares e
Tainá Sousa

Essa reportagem foi produzida por Lucas Soares e Tainá Sousa, estudantes de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia e integrantes do Programa de Educação Tutorial em Comunicação.

Fotografia: Gustavo Maia/Labfoto ©️ 2025
Assistência de Fotografia: João Marcus Moura e Gustavo Maia/Labfoto ©️ 2025
Edição: João Marcus Moura e Gustavo Maia/Labfoto ©️ 2025

A Fraude é uma revista laboratorial do Programa de Educação Tutorial em Comunicação (PETCOM) da Facom, UFBA e não possui fins lucrativos. Caso uma das imagens te pertença ou em caso de dúvidas, entre em contato pelo e-mail revistafraude@gmail.com para acrescentarmos a referência ou retirarmos da publicação.

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