4 de dezembro de 2025

OSKE

By In Fraude 27

Hirosuke Kitamura e sua visão de uma Salvador marginal

texto Gabriel Jones e Henrique Carneiro
capa Arthur Stering, Brenda Nascimento e Lucas Soares
multimídia Artur Soares
diagramação Caio Neves
audiodescrição Bernardo Maia

Hirosuke Kitamura, ou simplesmente Oske, 58, nasceu em Osaka, no Japão. Criado em Bangkok, na Tailândia, ele vive há mais de três décadas na cidade de Salvador. Fotógrafo de múltiplas camadas, transforma a câmera em extensão do próprio olhar, um instrumento para enxergar beleza onde há dor e presença onde antes havia ausência. Como ele mesmo descreve, seu trabalho é “uma mistura do bem e do mal atravessando o tempo.” Suas imagens permeiam a carne, o sexo e o espírito, explorando o entrelaçamento do documental com o poético. Admirador da cultura latina, especialmente das expressões populares e espirituais, Oske revela, por meio de suas lentes, uma Salvador viva, complexa e pulsante. Nesta entrevista, a Fraude te convida a ver a cidade e suas pessoas por esse outro olhar.

FRAUDE – Por que decidiu começar a fotografar em Salvador?

OSKE –
Cheguei aqui por um programa de intercâmbio em 1990. Sempre me interessei pela cultura latina e caribenha. Algo na música e no cinema, essa ideia tropical. Um dos kanjis do meu nome é uma referência ao kanji para ‘Europa’ porque era disso que meus pais gostavam, mas eu não. Comecei a estudar literatura portuguesa na faculdade depois de ouvir músicas de Clara Nunes e me apaixonar pelos sons da língua. Vim para Salvador pensando em conhecer mais sobre a cultura afrolatina porque considerava mais autenticamente brasileira. Tinha a opção de ir para São Paulo e ficar perto da comunidade japonesa de lá, mas decidi conhecer algo diferente e me afastar ao máximo do japonês. Quando eu cheguei, precisava fazer algum curso e até fiquei dividido entre cabeleireiro e fotografia, mas desde que escolhi ser fotógrafo nunca mais parei.

FRAUDE – Você acredita que seu trabalho fotográfico é uma extensão do seu olhar como imigrante?

OSKE –
Sim e não. Eu entendo que, no inconsciente, meu olhar é objetivamente estrangeiro. A bagagem muda a forma de ver o mundo, mas isso não muda o resultado do meu trabalho. Não quero que olhem para as fotos e limitem para ‘isso foi feito por um japonês.’ Respeito minhas subjetividades, mas continuo fotografando conforme o mundo vai me estimulando. Minha percepção é de fora para dentro.

FRAUDE – Qual o limite entre o ofício e a diversão?

OSKE –
Para mim, não há uma linha clara entre hobby e trabalho. A fotografia sempre foi algo que eu gostava e a que dedicava meu tempo com paixão. Hoje ainda tenho dificuldade em me enxergar como profissional, mesmo sendo meu principal sustento. Foi esse envolvimento natural e constante que fez a fotografia se tornar, para além de um ofício, uma verdadeira forma de escuta e conexão com o mundo ao meu redor.

Hidra (2012)
(foto: Hirosuke Kitamura)

FRAUDE – Como você lida com a fronteira entre o documentário e o poético?

OSKE –
Quando comecei a estudar e trabalhar com a fotografia, meus primeiros contatos foram com um estilo documental e jornalístico, mas era tudo muito óbvio. Fui mudando pouco a pouco meu olhar, mas as mensagens ainda eram claras demais, não abriam espaço para o mistério. Meu interesse com a arte é fazer com que cada um sinta algo diferente e único. É como na música, mesmo um pop ou um brega pode soar poético, dependendo da escuta e da interpretação de cada um.

FRAUDE – A Bahia muitas vezes é reduzida aos estereótipos de festa, cor e alegria. O que você procura quando caminha com sua câmera por aqui?

OSKE –
Prefiro não olhar para a Bahia através dos estereótipos, porque já estou cansado de ver tudo sempre da mesma maneira. Uso muito da minha própria percepção e do inconsciente, como falei, algo que mora dentro das minhas sombras. Acredito que a espiritualidade aqui é muito mais forte que no Japão e isso também me atrai. O caos e os corpos se misturam e começam a parecer com esculturas ou mesmo cenas de cinema, enquanto eu viro telespectador. Me sinto ligado com aquilo que é marginal, invisível e ambíguo.

FRAUDE – Suas obras abordam muito sobre erotismo e movimento. Como você se encontrou nessa temática?

OSKE –
A fotografia deve captar aquilo que não se espera ver. Para mim, existem aquelas coisas que são artificiais, como uma lata no supermercado, e aquelas que são orgânicas, como em um açougue. São as orgânicas que realmente me interessam. Eu sentia muito disso nas obras de Mário Cravo Neto e queria seguir por esse caminho. Talvez haja alguma influência do trabalho de Mário e de Miguel Rio Branco. É algo meio religioso. É romântico.

Casa de encontro (2002)
(fotos: Hirosuke Kitamura
)

FRAUDE – Existe algum cuidado especial para retratar intimidade e vulnerabilidade sem expor demais?

OSKE –
Infelizmente, não era tão comum ter esse cuidado entre os fotógrafos quando comecei, mas é uma mudança necessária. Nunca tirei uma foto de alguém que se recusasse a aparecer. Em geral, prefiro não focar no rosto das pessoas e me interesso mais pelo movimento dos corpos nos ambientes. Tecnicamente, gosto de usar velocidades (do obturador) baixas para criar um efeito borrado, que ajuda a preservar a privacidade e evita expor demais quem está sendo retratado. Além disso, esse recurso deixa a imagem mais misteriosa, abrindo espaço para a imaginação do espectador, em vez de mostrar algo óbvio.

FRAUDE – Como transmitir suor e sangue nas suas obras sem tratar o outro como exótico?

OSKE –
Na minha imagem não tenho intenção de mostrar a narrativa de lugares e evito contar a história da pessoa retratada. Isso vira documental e eu quero evitar isso. Não é dizer que aquela fragilidade é boa, porque não é. É uma situação triste e sensível mas, ainda assim, existe beleza nela. A coletividade e traição, alegria e tristeza, tudo se mistura e tudo que sinto é paz. Me sinto verdadeiramente ligado a esses cenários, como um oásis. Há algo puramente humano nessas contradições.

FRAUDE – Você acredita que suas fotografias trabalham com a denúncia social ao retratar situações de vulnerabilidade?

OSKE –
Apesar de ter fotografado lugares marginais, minha intenção nunca foi fazer uma denúncia ou levantar questionamentos de fato. Se eu fosse denunciar, seria como negar o lugar e a realidade das pessoas que vivem ali. Ao contrário, eu aceito essa realidade reconhecendo tanto a força quanto a fragilidade presentes nesse ambiente. De certa forma, me identifico com a letra da música ‘Garoto de Aluguel’, do Zé Ramalho, ‘Minha profissão é suja e vulgar (…) dê-me seu dinheiro que eu quero viver.’

Hidra (2012)
(foto: Hirosuke Kitamura)

FRAUDE – Como você concilia o momento de contemplação com o de captura da imagem?

OSKE –
Eu não penso muito em nada. Quando estou com a câmera na mão, estou tirando fotos. Às vezes, mesmo quando estou sem ela, eu paro para contemplar as coisas inusitadas da paisagem e fico imaginando as imagens. Não acredito que precise realmente pensar sobre. É muito mais como um sentimento de conexão com a cena.

FRAUDE – Existe alguma fotografia que você nunca mostrou a ninguém?

OSKE –
Tenho um vídeo de um homem que era viciado em drogas e sexo. Durante a produção, ele dizia ‘vamos fazer o documentário.’ No entanto, depois de um tempo, ele mudou de vida, constituiu família, abandonou as drogas e preferiu não se expor. Por respeito à sua decisão, optei por não publicar o material.

FRAUDE – Pensando na fotografia como esse olhar sobre o outro e uma forma de acessar o espaço alheio, alguma vez já foi impedido de fotografar?

OSKE –
Lembro de uma vez em Bangladesh, quando fui fotografar em uma zona de prostituição pela primeira vez. Assim que tirei a câmera do bolso, alguém me disse para não fotografar naquela área. Tive que guardar o equipamento imediatamente. Isso me mostrou que, quando há uma relação prévia de confiança, as pessoas tendem a aceitar melhor a presença do fotógrafo. Em contraste, por exemplo, na série sobre um prostíbulo em Salvador eu já tinha contato com as pessoas há muitos anos. Por isso, nunca tive problemas. Aquele lugar sempre foi tranquilo para mim e era muito mais fácil fotografar ali do que em outros lugares. As pessoas já me conheciam bem. Não sentia que estava invadindo nada e acredito que elas também não sentiam isso.

“Meu olhar é de aceitação, não de julgamento”
Hirosuke Kitamura

FRAUDE – Como você pensa os limites entre aproximação e invasão, especialmente ao fotografar pessoas em situação de vulnerabilidade social?

OSKE –
Antes de fotografar em contextos de vulnerabilidade, é fundamental entender a situação e a dinâmica do lugar. Sempre procuro pedir permissão com antecedência e explicar claramente o motivo do trabalho. A relação de confiança é essencial. É importante que as pessoas conheçam o fotógrafo antes que a câmera apareça. Fotografar alguém em situação vulnerável não pode ter como único foco expor essa situação. Se a intenção for apenas essa, acredito que não vale a pena fotografar.

FRAUDE – Existe alguma imagem que você sentiu que era impossível capturar sem ferir algo? Qual o seu limite para fotografar?

OSKE –
Sim. Já aconteceram momentos em que senti que fotografar poderia ferir algo essencial: a dignidade da pessoa, a intimidade do momento, ou mesmo a relação de confiança que eu tinha com aquele ambiente. Quando alguém não quer ser fotografado ou não autoriza o uso da imagem, isso é um limite claro e inegociável. Mas também existem situações mais sutis, em que a câmera pode atravessar uma linha invisível, como fotografar um morador de rua, por exemplo. Quando trabalhava na Ladeira da Conceição, uma das meninas que eu já conhecia estava chapada e jogada no chão. A dona do brega tentou me convencer a tirar uma foto e disse que seria interessante. Era uma cena surreal e eu não era capaz daquilo. Nunca quis usar a fotografia como denúncia, porque isso implicaria uma rejeição daquele lugar. Meu olhar é de aceitação, não de julgamento. E é justamente por respeitar isso que, às vezes, escolho não fotografar. Não se aproveitar da dor do outro é um dos meus limites.

FRAUDE – Existe alguma imagem que ainda não conseguiu fazer?

OSKE –
Eu não faço planos para fotografar. O que vou encontrando no meu caminho vai sendo registrado, sempre descobrindo alguma coisa nova. Depois, quando vou selecionar as fotos, também preciso sentir na hora como unir cada uma daquelas imagens e contar uma história maior. Tudo tem muito sentimento e é feito de forma espontânea. É como eu faço hoje.

Atração gravitacional (2021)
(foto: Hirosuke Kitamura)

https://hirosukekitamura.com

Gabriel Jones e Henrique Carneiro

Essa entrevista foi produzida por Gabriel Jones e Henrique carneiro, estudantes de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia e integrantes do Programa de Educação Tutorial em Comunicação.

Fotografia: Gustavo Maia/Labfoto ©️ 2025
Assistência de Fotografia: João Marcus Moura e Gustavo Maia/Labfoto ©️ 2025
Edição: João Marcus Moura e Gustavo Maia/Labfoto ©️ 2025

A Fraude é uma revista laboratorial do Programa de Educação Tutorial em Comunicação (PETCOM) da Facom, UFBA e não possui fins lucrativos. Caso uma das imagens te pertença ou em caso de dúvidas, entre em contato pelo e-mail revistafraude@gmail.com para acrescentarmos a referência ou retirarmos da publicação.

Leave a Comment