4 de dezembro de 2025

RELICÁRIO DA RESISTÊNCIA

By In Fraude 27

Um espaço que fortalece a cultura e os artistas de Simões Filho

texto Vanessa Jesus
capa Arthur Stering, Brenda Nascimento e Lucas Soares
multimídia Arthur Stering
diagramação Bernardo Maia
audiodescrição Henrique Carneiro

Acordar cedo para ver o dia nascer, mergulhar nas águas doces de um rio e prosear com os amigos na calçada parece fazer parte de um passado distante. O avanço urbano torna cada vez mais difícil apreciar gestos simples, que nos conectam com a natureza e as pessoas ao nosso redor. Mas há um lugar na Região Metropolitana de Salvador onde o tempo corre mais devagar e a arte ganha espaço como expressão desse modo de vida.

Localizado às margens do Rio Ipitanga, no bairro do CIA 1, em Simões Filho, o espaço de cultura alternativa Relicário se consolidou como um ponto de incentivo à cultura e aos artistas locais. A rua que dá acesso ao espaço, na Quadra 8, já antecipa o que está por vir. Pinturas em grafite estampam os muros e despertam a curiosidade de quem passa, como um convite silencioso para seguir adiante. Na fachada, uma placa identifica o espaço com o nome “Relicário”. Ao entrar, fanzines independentes e discos de vinil ocupam as mesas, enquanto tapetes de retalhos coloridos no chão criam uma sensação de aconchego.

Criado em 2013 pela multiartista Carla Vívian Mattos, 50, conhecida como Carla do Relicário, o espaço nasceu de uma simples barraca de rua. Lá eram vendidos livros usados, bebidas e produtos artesanais. Modelo que deu origem ao atual espaço cultural independente, hoje sustentado por eventos, aluguel e venda de produtos. O nome “Relicário” deriva de “relíquia”, aquilo que deve ser preservado. Para Carla, essa ideia de preservação vai além dos objetos e se estende à cultura alternativa, entendida por ela como tudo aquilo que propõe caminhos fora dos modelos convencionais e capitalistas. “Priorizamos formas mais autênticas, sustentáveis e que não sigam um padrão, tanto na arte quanto no jeito de consumir e de conviver”, enfatiza.

Carla Mattos, dona do espaço Relicário.
(foto: Arthur Stering)

Com o passar dos meses, o espaço improvisado, inspirado no estilo hippie, já dava sinais de que se tornaria um ponto de encontro para os amantes da arte. Trechos de músicas brasileiras espalhados pelas paredes e um violão sempre à disposição despertavam a curiosidade de quem passava. Logo, músicos, poetas e dançarinos começaram a se reunir para conversar, recitar poesias e participar de batalhas de rimas.  

“No relicário eu tive que me rasgar para dizer como eu era por dentro, (…) porque autenticidade exige muita coragem.”

Carla do Relicário

Organizar um projeto cultural independente vai muito além da arte. No inverno de 2013, com a movimentação reduzida de pessoas, Carla precisou interromper as atividades. Retomou em 2018, impulsionada pelo apoio da comunidade, mas em 2020, com o início da quarentena decorrente da Covid-19, foi obrigada a fechar as portas mais uma vez. Entre o cansaço, a persistência e a necessidade de permanecer fiel a si mesma, ela descreve o processo como um exercício constante de exposição e coragem. “No Relicário, eu tive que me rasgar para mostrar quem eu era por dentro, (…) porque autenticidade exige muita coragem”, afirma. 

A pandemia também levou Carla a repensar a sustentabilidade financeira do empreendimento. Embora muitas pessoas enxergassem o Relicário apenas como um espaço de convivência cultural, ela passou a reforçar seu caráter comercial. “O Relicário vai vir numa versão mais empreendedora mesmo, porque no final das contas os boletos eram todos meus”, afirma.

Em 2019, o espaço que começou de forma improvisada chamou a atenção da TV Aratu, que fez uma cobertura do evento “Ipadê das Pretas e Caribenhas”. O encontro criado para celebrar a história, cultura e resistência das mulheres pretas e caribenhas, permanece vivo na memória de Carla. “Foi de arrepiar, porque eu não fazia ideia daquela quantidade de pessoas sedentas por arte e literatura”, relembra. A programação contou com dança do ventre, palestras e música alternativa de bandas formadas no próprio Relicário. Segundo Carla, o evento reuniu 500 pessoas, entre moradores locais e visitantes vindos de Salvador e da Chapada Diamantina.

Passado algum tempo, a expansão das atividades e a mobilização da comunidade possibilitaram que, em 2021, Carla alugasse um espaço maior. Isso permitiu a abertura das portas para o público visitar e mergulhar nas histórias dos objetos dos anos 80. O Relicário também se transformou em um ponto de entretenimento cultural, que os artistas podem alugar para ensaiar, comemorar aniversários ou até mesmo fazer performances. O espaço não funciona apenas como um centro cultural, mas como um empreendimento. “Aqui é um lugar comercial também, de uma forma alternativa”, explica.

Hoje, o Relicário sustenta suas atividades por meio da realização de eventos, aluguel do espaço e venda de produtos artesanais. Lá, são vendidas bebidas naturais, ervas medicinais e produtos feitos manualmente por Carla e integrantes da própria comunidade. Para ela, a proposta do espaço é oferecer alternativas ao consumo convencional. “É uma alternativa de produto, de serviço e de entretenimento”, resume. O Relicário realiza, em média, quatro eventos por mês e a renda obtida é destinada à manutenção do local e ao pagamento de artistas convidados. Ao longo de sua trajetória, centenas de artistas independentes já passaram por ali.

A Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, publicada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 2001, afirma que todos os cidadãos têm direito ao acesso à cultura. Iniciativas como a da produtora de eventos Rosy Coelho, 59, idealizadora do projeto Arte Metropolitana, exemplificam na prática essa proposta. O coletivo desenvolve diversas manifestações artísticas na cidade, fortalecendo a cultura local e dando visibilidade a comunidades historicamente marginalizadas. Para Rosy, espaços independentes como o Relicário cumprem um papel que muitas vezes o poder público não alcança.

Entre os desafios enfrentados por quem produz arte, Rosy destaca como a escassez de políticas públicas limita o alcance e a continuidade dessas iniciativas. “Ainda não é real você ser um artista que pode viver da arte. A gente tem que ser um profissional e com o nosso dinheiro a gente paga para fazer arte.” Também destaca a contradição entre o reconhecimento simbólico e a falta de apoio real à produção cultural. “O sistema elogia, mas não permite que a gente atue. Dizem que apoiam, mas nos boicotam: fecham teatros, negam verbas, barram projetos. Fingem que ajudam, mas nos impedem de existir,” complementa.

Filhos do Relicário

Assim como as águas do rio seguem para o mar, retornam em forma de chuva, regam novos rios e desaguam no mar novamente, os jovens artistas passam pelo Relicário, constroem sua identidade artística, desenvolvem-se e inspiram outras pessoas. Luis Cruz, 23, cantor e compositor, iniciou sua trajetória musical ainda na adolescência. Começou tocando teclado na igreja, mas logo descobriu que sua verdadeira paixão era o violão e passou a se dedicar ao instrumento.

A sua história com o Relicário iniciou aos 15 anos quando um amigo, que também tocava violão, falou sobre um lugar onde as pessoas se reuniam para tocar música. Movido pela curiosidade, em 2017, conheceu o espaço e foi amor à primeira vista. Ele não imaginava, mas ali se iniciava sua trajetória como um artista independente. Na mesma epóca, realizou a sua primeira apresentação em público. “Me lembro até hoje da sensação ao ouvir a galera cantando as músicas do Tim Maia junto comigo. Aquilo mudou a química do meu cérebro. Foi aí que pensei: ‘É isso que eu quero’”, relembra. Ao refletir sobre o impacto do espaço em jovens periféricos, Luís acredita que ambientes culturais podem mudar trajetórias marcadas pela vulnerabilidade social. “Muita gente que eu conheci talvez ainda estivesse aqui se tivesse tido contato com o Relicário”, disse.

Assim como muitos artistas brasileiros, Luis também já pensou em desistir da trajetória musical, especialmente quando passou a exercer outro trabalho para se sustentar. No entanto, mudou de ideia quando participou de um evento no Relicário, em 2024, chamado “Canta e Conta”. O projeto convidava os artistas a cantar clássicos da música brasileira, canções autorais e, ao mesmo tempo, contar histórias. Para muitos artistas, o Relicário representa a primeira oportunidade de transformar a própria arte em fonte de renda. “Aquele dia foi sensacional. Eu pensei: ‘é, não tem mais pra onde fugir. Eu sou música, é isso, realmente vou ter que trabalhar com isso’”, disse. Até então, suas apresentações rendiam apenas pequenos valores simbólicos. Neste dia, além do pagamento, ele encontrou estrutura, divulgação e um público disposto a ouvi-lo. “Foi o primeiro show bem remunerado que eu fiz”, recorda.

Em meio a conversas, olhares, abraços afetuosos e risadas de tirar o fôlego, nascem bandas formadas por artistas de diferentes vertentes musicais. Um exemplo disso é a Banda Amarela, formada no final de 2019, por seis mulheres, com músicas autorais e uma sonoridade marcada por instrumentos como ukulele, violino, sanfona e percussão. A estreia aconteceu em 2020, durante o “Sarau Poeme-se”, que apresentou ao público as bandas e projetos musicais nascidos no Relicário. É nesse tipo de encontro que os artistas começam a se apresentar, formar público e enxergar a arte como possibilidade de sustento.

“Quando eu conheci o relicário eu pensei: ‘meu Deus, era um lugar como esse que eu estava buscando na minha vida’.”

Kailane Carmo

Entre as integrantes está Kailane Carmo, 23, violinista da banda. Apaixonada pela arte desde a infância, ela estudava violino no Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia (NEOJIBA) quando encontrou no Relicário uma oportunidade para iniciar sua trajetória na música. “Quando eu conheci o Relicário eu pensei: ‘meu Deus, era um lugar como esse que eu estava buscando na minha vida’”, conta. 

Musicista e graduanda em História na Universidade Federal da Bahia (UFBA), Kailane está prestes a concluir o curso e dedica-se à pesquisa sobre a presença de mulheres negras nas orquestras sinfônicas da Bahia. Ao longo de sua trajetória acadêmica e artística, o Relicário tem funcionado como uma extensão de suas criações. Por isso, os projetos culturais e sociais idealizados por ela costumam ganhar vida ali, seja em forma de oficinas ou até mesmo em rodas de conversa. 

No Relicário, aprende-se na convivência, na troca constante entre performance, experiência e escuta. O espaço funciona como uma porta de entrada para gerar renda com a própria arte, promove iniciativas de acolhimento e a valorização de artistas. E assim como o rio que transborda com a chuva e depois volta à serenidade, os filhos do Relicário mergulham na experiência coletiva, aprendem e descobrem o seu lado mais autêntico.

                   

Vanessa Jesus

Essa reportagem foi produzida por Vanessa Jesus, estudante de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia e integrante do Programa de Educação Tutorial em Comunicação.

Fotografia: Gustavo Maia/Labfoto ©️ 2025
Assistência de Fotografia: João Marcus Moura e Gustavo Maia/Labfoto ©️ 2025
Edição: João Marcus Moura e Gustavo Maia/Labfoto ©️ 2025

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