4 de dezembro de 2025

SELO FRAUDE DE QUALIDADE: 4 FEIJOADAS DE RASPAR O PRATO

By In Fraude 27

Onde comer feijoada em Salvador com melhor custo-benefício

texto Arthur Stering e Caroline Rios 
capa Brenda Nascimento, Maria Fernanda Paixão e Gisele Alves
multimídia Arthur Stering, Brenda Nascimento e Lucas Soares
diagramação Vanessa Jesus
audiodescrição Bernardo Maia

Em sua quinta edição digital e no retorno às indicações gastronômicas, dessa vez o Selo Fraude de Qualidade decidiu ir em busca de diferentes versões para um dos pratos mais populares da culinária brasileira: a feijoada. Preparada com feijão, cortes bovinos e suínos, além de diversos temperos, é símbolo de uma nação feita de misturas, sabores e histórias.

Sua origem ainda é motivo de debate. Uma das histórias mais difundidas no senso comum conta que a receita teria sido criada por pessoas negras escravizadas, a partir dos pedaços menos nobres do porco rejeitados pelos senhores de engenho. 

No entanto, o sociólogo Câmara Cascudo atribui, em seu livro “História da Alimentação no Brasil”, o preparo da feijoada brasileira à influência do cassoulet, prato típico do Sul da França feito com feijão branco. Já o historiador Ivan Alves traz outra versão: a feijoada seria uma adaptação do cozido madrileño, um prato europeu à base de grão-de-bico e carnes variadas.

Com o passar dos séculos, o prato foi moldado pela influência dos povos originários e da culinária africana. Hoje, cada região do país tem sua própria receita, com variações que vão além do tipo de feijão. No Rio de Janeiro, vem acompanhada de couve refogada; em São Paulo, de bisteca suína frita; já na Bahia, é cozida com miúdos bovinos. Segundo uma pesquisa feita em 2024 pelo Guia Viajar Melhor, a feijoada ficou em primeiro lugar dentre os 10 melhores pratos típicos do Brasil.

Inspirada por essa identidade tão plural, a Revista Fraude percorreu os quatro cantos da capital baiana, em uma rota que partiu da Saúde, no Centro, até Itapuã, na orla, para atender públicos diversos. Em cada restaurante visitado, avaliamos os seguintes critérios: espaço, atendimento, custo-benefício, sabor, ponto do feijão e acompanhamentos. O resultado? Quatro feijoadas dignas de raspar o prato. Nos acompanhe nesta missão e, como disse Chico Buarque, “vamos botar água no feijão!”

Bar Du Kabaça (@bar_du_kabaca)
📍
R. Paulo Afonso, 381 – Candeal

Nossa primeira parada foi no Candeal, onde fica o Bar du Kabaça, ponto de encontro tradicional do bairro. O espaço fica em frente à Associação Pracatum e bem próximo do Candyall Guetho Square. Fora da rota turística convencional, o local surpreende pela energia tipicamente brasileira. Ao chegarmos, uma apresentação do trombonista Ednei Ípojucan alegrava os clientes com clássicos da música brasileira. O lugar ocupa as duas calçadas da rua, com mesas organizadas dentro e fora do bar. Preferimos ficar na área interna, onde o ambiente é menos ventilado, mas é movimentado e cheio de vida. Mesmo com a alta demanda, o atendimento foi ágil e realizado com simpatia.

A versão preparada por Rafael “Kabaça”, segue a receita mais tradicional feita na Bahia. Cozida em panela de barro, é feita com feijão mulatinho, uma variedade de carnes e até algumas vísceras, como o fato. O arroz é servido como único acompanhamento, mas muitos clientes preferem comer só o feijão com a farinha que, por sinal, é bem fresca. O molho de pimenta é feito no dia, mas para quem não está acostumado com um sabor picante, a recomendação é ir com calma e experimentar aos poucos. Na montagem, os pratos são preparados pelo próprio “Kabaça”, em frente ao bar, com capricho e em porções generosas.

Espaço  – ⭐⭐⭐⭐⭐

Atendimento – ⭐⭐⭐⭐⭐

Custo-benefício – ⭐⭐⭐⭐⭐

Sabor – ⭐⭐⭐⭐⭐

Ponto do feijão – ⭐⭐⭐⭐

Acompanhamentos – ⭐⭐⭐

Feijoada da Angela (@feijoadadaangelasalvador)
📍
Av. Fernandes da Cunha, 51 – Mares

Saindo do Candeal, descemos até a Cidade Baixa, no bairro dos Mares, para conhecer o restaurante Feijoada da Angela. O local, que é conhecido como o pós-festa dos moradores, também é frequentado por famílias e trabalhadores da região. Apesar de simples, com apenas algumas mesas e cadeiras no estacionamento de um prédio inativo, o espaço serve uma comida feita com muito carinho e cuidado por Angela de Matos e sua equipe. Fomos recepcionados com muita simpatia por todas as funcionárias, que rapidamente serviram nossos pratos.

As vendas começam cedo. Por volta das 5h, a comida já está pronta para sair. Feita com feijão carioca, cortes bovinos e suínos além de alguns miúdos, a feijoada também segue o padrão baiano de preparo. As carnes ganham destaque ao serem servidas separadamente, junto com arroz e uma salada de alface e tomate. A farinha estava fresca e o molho de pimenta equilibrado entre sabor e ardor. À frente das panelas, a dona do negócio comanda o serviço com simpatia, servindo, ela mesma, a maioria das porções aos clientes.

Pedimos a feijoada para duas pessoas, que custa R$75 e nos serviu muito bem. O preço é convidativo, principalmente ao considerar a qualidade da refeição. O restaurante oferece uma comida feita com afeto, demonstra muita preocupação com todos os processos de preparo e, com certeza, merece a sua visita.

Espaço  – ⭐⭐⭐

Atendimento – ⭐⭐⭐⭐⭐

Custo-benefício – ⭐⭐⭐⭐⭐

Sabor – ⭐⭐⭐⭐⭐

Ponto do feijão – ⭐⭐⭐⭐⭐

Acompanhamentos – ⭐⭐⭐⭐

Ajeum de Preto  (@ajeumdepreto)
📍
Largo do Abaeté, 24 – Itapuã

Em seguida, atravessamos a cidade e fomos até Itapuã experimentar a feijoada do restaurante Ajeum de Preto. Localizado em frente ao Parque do Abaeté, famoso por sua lagoa e espaço de lazer, é parada obrigatória para quem visita esse ponto turístico e procura um tempero diferente. O negócio surgiu a partir da vontade de comer uma feijoada tipicamente carioca em Salvador e da dificuldade dos proprietários, Ahosi Ayo e Nzila Zebu, em encontrar essa versão do prato na cidade. O casal começou a servir o prato todos os domingos na garagem de casa e, em pouco tempo, conquistou um público fiel.

Logo na chegada, fomos recebidos ao som de um samba de roda animado tocando. O ambiente conta com algumas mesas no quintal e na calçada da casa onde o Ajeum funciona. Decorado com plantas e alguns objetos que remetem à estética afro-brasileira, o espaço é muito arejado e confortável. A feijoada “cariocana” já se destaca por suas peculiaridades. Feita com feijão preto, cortes bovinos e suínos, acompanha arroz branco refogado no alho, couve na manteiga e farofa de bacon. A pimenta, diferente do tradicional molho lambão, é batida junto com outros temperos, dando uma consistência aveludada à mistura, sem ardência excessiva.

O restaurante funciona apenas aos domingos, a partir das 8h, servindo porções para até quatro pessoas. Pedimos o “Ajeum + 1”, que custa R$39,99 e serve de uma a duas pessoas. O preço é justo e acessível, considerando a localização turística, espaço agradável e bom atendimento. O Ajeum De Preto é um lugar de memória, afeto e ambiente familiar. Através de uma receita passada por gerações, tudo que é servido lá reflete o cuidado por trás dessa iniciativa.

Espaço  – ⭐⭐⭐⭐⭐

Atendimento – ⭐⭐⭐⭐⭐

Custo-benefício – ⭐⭐⭐⭐⭐

Sabor – ⭐⭐⭐⭐⭐

Ponto do feijão – ⭐⭐⭐⭐⭐

Acompanhamentos – ⭐⭐⭐⭐⭐

Casa di Rosa Feijoada e Afins (@casadirosafeijoadaeafins)

📍R. Jogo do Carneiro, 174 – Saúde

Rumo ao nosso destino final, demos outra volta e fomos ao Centro da cidade, mais precisamente no bairro da Saúde, conhecer a Casa Di Rosa Feijoada e Afins. A ideia de abrir o espaço surgiu do hábito que Rosângela Silva sempre teve de servir feijoada em suas comemorações, e do desejo da filha, Roberta, de retornar ao empreendedorismo.

Próximo ao Sesc Nazaré, o local, que começou como um pequeno comércio, hoje oferece um quintal amplo e espaçoso, localizado aos fundos do saguão, onde fomos acomodados depois de um atendimento feito com atenção e agilidade. A decoração traz a ideia de casa e aconchego, mas sem perder a sofisticação. A feijoada é feita com feijão mulatinho, cortes bovinos e suínos, acompanha arroz, vinagrete, salada de folhas e farofa com couve e bacon. A pimenta é batida como um tipo de molho de ervas aromáticas, de sabor levemente picante. Pedimos a porção para duas pessoas, que custa R$75, mas sentimos que a quantidade foi um pouco menor em relação aos outros estabelecimentos.

A Casa funciona às sextas, a partir das 16h, servindo apenas alguns petiscos e caldos e, aos sábados e domingos, a partir das 11h30, com todas as opções do extenso cardápio. Além da feijoada convencional, servem a versão de frutos do mar e até pratos veganos, como moqueca de vegetais. Projetos como a Casa Di Rosa ajudam a dar vida aos bairros centrais muitas vezes esquecidos, fomentam a cultura ao abrir espaço para rodas de samba e oferecem uma comida de qualidade por preços acessíveis.

Espaço  – ⭐⭐⭐⭐⭐

Atendimento – ⭐⭐⭐⭐⭐

Custo-benefício – ⭐⭐⭐

Sabor e tempero – ⭐⭐⭐⭐

Ponto do feijão – ⭐⭐⭐⭐⭐

Acompanhamentos – ⭐⭐⭐⭐

Arthur Stering e Caroline Rios

Essa reportagem foi produzida por Arthur Stering e Caroline Rios, estudantes de Produção em Comunicação e Cultura da Universidade Federal da Bahia, integrantes do Programa de Educação Tutorial em Comunicação.

Fotografia: Lucas Soares
Assistência de Fotografia: Brenda Nascimento
Edição: Lucas Soares

A Fraude é uma revista laboratorial do Programa de Educação Tutorial em Comunicação (PETCOM) da Facom, UFBA e não possui fins lucrativos. Caso uma das imagens te pertença ou em caso de dúvidas, entre em contato pelo e-mail revistafraude@gmail.com para acrescentarmos a referência ou retirarmos da publicação.

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