A cultura surda em Salvador
texto Caroline Rios e Gabriel Jones
capa Arthur Stering, Brenda Nascimento e Lucas Soares
multimídia Caio Neves, Caroline Rios e Gabriel Jones
diagramação Amanda Menezes
audiodescrição Henrique Carneiro
As entrevistas com Elenilson Soares, Marcos Neves e Jamile Simeia foram feitas com o acompanhamento dos intérpretes de libras Alex Gurunga,44, e Rebeca Mattos, 37.
Conhecida como “Capital da Alegria”, Salvador tem seus dias e noites embalados por ritmos que pulsam de tambores, do axé à seresta, que contagiam o ar e vibram até os ossos. A música, embora tradicionalmente associada ao som que chega aos ouvidos, é uma forma de arte que pode ser apreciada por qualquer pessoa, independente da capacidade auditiva. Para a comunidade surda, a música ganha vida nas vibrações sentidas pelo corpo, na troca de olhares e nas mãos que transformam esses sons em língua de sinais.
Em todo o Brasil, estima-se que 10 milhões de pessoas possuam alguma deficiência auditiva, segundo levantamento do Ministério da Saúde (MS) de 2022, mas isso não significa que todas elas façam parte da comunidade surda. A principal diferença entre pessoas com deficiência auditiva e aquelas que se identificam como surdas está no vínculo com a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e na convivência com quem também sinaliza. É desse contato que nascem as gírias, piadas e expressões próprias de uma comunidade que tem a língua o centro de sua identidade.


(foto: Caio Neves)
Essa comunidade reivindica espaços e cria diferentes modos de se integrar com a cultura local, mas sem nunca perder sua essência. Para Cíntia Barbosa, 52, professora do Centro de Apoio Pedagógico Especializado (CAPE) Wilson Lins, “o movimento surdo é sempre a favor da Libras. É um movimento ligado à língua que reafirma suas diferenças identitárias.” Em Salvador, a produção artística surda também é influenciada pela religiosidade afro-baiana, artes urbanas e festas populares. A exemplo disso, obras como “Abre a roda a surda vai sambar” e “A POESIA”, da poetisa e dançarina Daisy Souza, conectam elementos do candomblé, capoeira e samba às experiências pessoais da artista, unindo arte e vivência.

(foto: Caroline Rios)
Elinilson Soares, 43, artista e mestre profissional em dança, relata as dificuldades de ingressar na educação como pessoa surda. “Minha família não sabia ler e sempre conversava tudo em português, então precisei aprender sozinho na escola. Fiz segundo grau, duas faculdades e agora mestrado, ainda assim sempre sozinho”, declara. Apesar dos obstáculos, a arte permaneceu presente em sua trajetória e moldou a maneira como ele expressa sua individualidade. “Toda minha família gostava de dançar. Me ensinavam e levavam para o Carnaval, para sambas e eu ia aprendendo os ritmos. Fui crescendo e absorvendo essa cultura da música”, continua.
Assim como Elinilson, quase todas as crianças surdas enfrentam barreiras linguísticas ainda dentro de casa. O dossiê “Educação Bilíngue para Surdos: Política e Práticas”, publicado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 2014, estima que 95% das crianças surdas nascem de pais ouvintes. A maioria deles não é alfabetizada em Libras e seus filhos só começam a ter contato com a cultura surda quando mais velhos, já no ambiente escolar. Na ausência de outras pessoas falantes de Libras para se comunicar em casa, é comum a oralização forçada dessas crianças e um eventual afastamento da comunidade.

(foto: Caio Neves)
Da experiência pessoal nasceu o desejo de abrir caminho para outros artistas surdos. Foi dessa forma que Elinilson fundou, em 2021, o Coletivo Rua Sinalizada, voltado à divulgação da arte surda soteropolitana. Formado também por Cíntia Santos, Lucas Sol e Daisy Souza, o grupo entende a ocupação de espaços culturais como um ato político e uma forma de expressar sua cidadania. Segundo Elinilson, a ausência de acessibilidade e as barreiras para expor sua arte como pessoa com deficiência inspiraram a criação do coletivo, um movimento para tornar visível aquilo que, por muito tempo, foi silenciado.
Já na arte, manifestações culturais feitas por e para pessoas surdas envolvem uma profundidade maior do que somente traduzir palavra por palavra do português. A língua articulada no movimento do corpo e a voz vinda das mãos são algumas das características únicas transmitidas para a arte. Expressões artísticas como teatro, dança e cinema ganham ainda mais apelo visual, sem o protagonismo do som. Cada gesto é pensado para que seja visto em sua totalidade pelo público. A literatura, por sua vez, produzida na língua de sinais, é passada cara a cara do autor para o público, sempre ligada às vivências do surdo.

(foto: Caio Neves)

(foto: reprodução)

(foto: Caio Neves)
O Rua Sinalizada conta hoje com financiamento da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (SECULT) e do Ministério da Cultura (MINC), oferecendo atividades gratuitas pela cidade para promover a cultura da Libras, inclusive para o público ouvinte. O coletivo acredita que suas atividades, desde os palcos às visitas em escolas, ajudam a desmistificar a arte feita por pessoas com deficiência e mostram que a real acessibilidade também significa estar presente para ser visto, ouvido e sentido.
Libras entra em cena
A língua de sinais surge no Brasil, da forma como é conhecida hoje, ainda no século XIX, com o francês Ernest Huet. Ele propôs para Dom Pedro II a criação de uma escola de surdos em 1855, já que era comum os filhos surdos de famílias ricas irem à Europa em busca de educação formal. Assim, foi fundado no Rio de Janeiro o “Collégio Nacional para Surdos-Mudos”, atual Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), que passou a receber estudantes de todo o país e até do exterior, por ser o único da região. Enquanto o português é considerado uma língua românica por conta de suas origens no latim vulgar da Roma antiga, a Libras, apesar das diferenças, faz parte da mesma família da Língua Francesa de Sinais (LSF).
Mais recentemente, já no século XXI, outro marco na história surda no país foi a chamada Lei de Libras de 2002 (Lei nº 10.436), que reconheceu a Libras como meio legal de comunicação e expressão. Entretanto, foi somente com o fim da pandemia de Covid-19 e a retomada de atividades culturais, como festivais e shows, que os intérpretes passaram a ganhar mais destaque em eventos. Empresas que trabalham com a interpretação da língua de sinais, como a Pense Libras, se destacam, reforçando as exigências do público por mais inclusão.


(foto: reprodução)
Para Marcos Neves, 42, escritor e idealizador da Pense em Libras, a acessibilidade não se limita a uma tradução mecânica. Ela é um direito fundamental que garante ao surdo compreender uma letra de música e também se inserir nas trocas culturais. Um destaque foi a presença de intérpretes, pela primeira vez, no “São João da Bahia” de 2022. “Foi uma conquista muito grande. Antes não havia essa acessibilidade no São João. A partir dali, abriu-se um precedente para que outros eventos também se comprometessem com a inclusão”, destaca.
Apesar dos avanços, Marcos reconhece que só a presença de intérpretes não basta. Ele cita a importância de novas tecnologias, como mochilas ou coletes vibratórios que permitem sentir as batidas da música, além da exibição de Libras em telões de forma ampliada. “É preciso que os espaços pensem em uma acessibilidade completa que vá além da tradução e permita ao surdo viver a experiência cultural em toda sua intensidade”, reforça. “Meu grande sonho é que todos aprendam Libras para que os surdos possam se sentir mais confortáveis, complementa.”
“Os intérpretes precisam ter emoção, expressão. Quando eu vou para um show, fico paralisada olhando os intérpretes e isso me emociona muito”
Jamile Simeia

(foto: Caroline Rios)
“Os intérpretes precisam ter emoção, expressão. Quando eu vou para um show, fico paralisada olhando os intérpretes e isso me emociona muito”, conta Jamile Simeia, 37, designer de interiores e mulher surda. Acrescenta ainda que a presença dos intérpretes em shows era rara, mas que sente-se contemplada quando os encontra. “Quando tem intérprete é maravilhoso. Sinto a vibração da música, vejo as luzes acompanhando o ritmo, e aquilo me conecta com tudo ao redor,” explica. Para ela, a energia do palco transforma o momento em algo maior e a interpretação torna-se uma experiência artística independente.
Na capital baiana, onde o som é quase uma religião, artistas surdos mostram que a arte pode ser sentida de muitas formas. O corpo ouve, as mãos falam e os olhos dançam, tudo trabalhado de forma integrada. Com todos os quatro sentidos, a arte liga tradição à expressividade dos gestos, dando palco para diferentes vivências que existem pela cidade. Assim, a produção e divulgação da cena surda acontece como uma grande dança coletiva, em que artistas e grupos se juntam para mais um ato na capital da alegria.

Caroline Rios e Gabriel Jones
Essa reportagem foi produzida por Caroline Rios e Gabriel Jones, estudantes de Jornalismo e Produção em Comunicação e Cultura da Universidade Federal da Bahia, integrantes do Programa de Educação Tutorial em Comunicação.
Fotografia: Gustavo Maia/Labfoto ©️ 2025
Assistência de Fotografia: João Marcus Moura e Gustavo Maia/Labfoto ©️ 2025
Edição: João Marcus Moura e Gustavo Maia/Labfoto ©️ 2025
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