A relação entre a franquia Drag Race e as drag queens na Bahia
texto Arthur Soll e Eduardo Santana
multimídia Lara Paula
colagem Arthur Soll
foto de capa Gabriel Alencar
diagramação Mariana Passos
audiodescrição Reuel Nicandro
rediagramação Tainá Sousa
Antes de artistas como Pabllo Vittar, Gloria Groove e outras drag queens serem conhecidas no mercado artístico nacional e internacional, em 2009, o reality show Rupaul’s Drag Race estreou. Com o propósito de premiar a nova drag queen superstar dos Estados Unidos, o programa se consolidou como um sucesso no nicho televisivo, o que o levou a ganhar 12 estatuetas no Emmy.

Idealizado por Rupaul Charles, figura queer reconhecida no cenário norte-americano nos anos 1990, o reality marcou a volta da modelo e apresentadora aos palcos após uma pausa de 10 anos. A artista, que apresentou outros formatos na televisão como o programa de entrevista musical The Rupaul Show, contribuiu para que a cultura drag alcançasse as grandes mídias e fosse impulsionada para além dos clubes LGBTQIAPN+.
A franquia Drag Race possui mais de 15 temporadas regulares estadunidenses e inúmeras versões em outros países. Fora dos Estados Unidos, o público brasileiro é conhecido por ser um dos maiores comentaristas do programa nas redes sociais. Isso levou uma legião de fãs às contas oficiais do reality em busca de representação nacional. A competição de drags recebeu sua primeira participante brasileira 11 anos após a estreia. Miss Abby OMG, performer mineira, vive em Amsterdã e em 2020 integrou o casting do Drag Race Holland.
Em 2021, surgiu um reality de canto oriundo da franquia Drag Race, o Queen of The Universe. O spin-off reuniu artistas dos mais variados países e dentre elas estava a cantora e influenciadora digital gaúcha, Grag Queen. Carregada de brasilidades, carisma e potência vocal, a brasileira trouxe para casa 250 mil dólares (aproximadamente um milhão de reais) e o título de ‘Rainha do Universo’ por ganhar a temporada.
De Hollywood para Bahia
A partir da aparição dessas competidoras, em 2023, Drag Race Brasil estreou sendo apresentado por Grag Queen. Com um elenco nacional diverso, teve a participação da baiana Hellena Malditta. Sua presença na competição é motivo de esperança para algumas artistas do estado que buscam por reconhecimento e valorização.
Lira Olsen, 25, drag queen e DJ de Salvador, se sente entusiasmada ao ver a conterrânea a representando no programa. “Eu assisti o episódio com os dentes abertos porque uma das minhas estava lá. Eu vi Hellena Malditta começando a fazer drag. Ver ela em rede nacional e internacional. Caralho, uma de nós conseguiu. Se ela consegue, todas nós conseguimos. Foi importante pra mim”, conta.


A busca por figuras que as representem em plataformas de grande destaque ocorre em decorrência da marginalização constante dessa arte na Bahia. Na dissertação “Dignidade já: Redes, política e a luta por reconhecimento de drag queens soteropolitanas”, Arilson Ferreira Rodrigues descreve que a não valoração acontece por ser uma forma artística que flerta com códigos de feminilidade e funciona como um ataque à heteronormatividade.
Em 2019, período em que o programa estava no auge, Lira decidiu juntar dinheiro para comprar perucas, maquiagens e adereços com o objetivo de começar a se montar. Suas inspirações foram principalmente as mulheres que passaram por sua vida. Ela não esconde que no início, e até mesmo agora, tem como referência as queens do programa. “No início eu achava que servia a Violet Chachki, que é winner [ganhadora] de Drag Race. Se a gente for parar pra analisar, atualmente a minha estética está muito classuda, finíssima, acho que veio um pouco dela”, declara.
O interior também se monta
As formas de uma drag nascer são plurais e o lugar em que essa arte desperta influencia na construção dessas personas. Um ponto de partida para a maioria das artistas é a inspiração em figuras femininas. Mulheres trans e travestis foram pioneiras na construção dessa arte. A participação delas na cena drag permanece e na Bahia não seria diferente.

Kally, 22, performer, é uma mulher trans que descobriu sua potência artística participando de eventos culturais em sua cidade, Feira de Santana. A partir do contato com o reality, sua persona drag foi moldada a partir de referências que contribuíram para sua arte. “Hoje Drag Race é algo que me inspira muito. Já usei músicas [em performances] porque drags do programa usaram. Eu realmente sou muito apaixonada. Sempre vou carregar um pedacinho do programa comigo, seja em uma performance, uma inspiração na maquiagem ou em uma futura montação. Sempre vai ter algo relacionado ao Drag Race em Kally”, ressalta.
Por outro lado, existem drag queens que deram início a sua arte sem ao menos saber da existência do programa, como é o caso de TáLia Doll, 21, drag queen e influenciadora digital de Jequié. “Eu precisei buscar as minhas referências enquanto drag sem assistir o Drag Race. Nessa procura eu achei a minha infância, sabe? As bonecas que eu brincava quando tinha nove, dez anos e era assim, sempre dentro de um banheiro escondida”, declara.
A inspiração de TáLia manifestou-se do desejo de expor seu lado mais feminino e entrar em contato com sua criança interior. Após dois anos fazendo drag, a influencer assume que assistiu episódios do programa. Além disso, confessa que se identificou com algumas drags do show, como Gigi Goode, participante da décima segunda temporada da versão norte-americana. “Ela tem uns traços das drags antigas, mas ao mesmo tempo é muito atual. Eu gosto dessa vibe dela. Acabo me identificando.”
“as drags do Brasil não se baseiam tanto em Rupaul’s.
Elas têm uma ‘seita’ que é só delas”
tália doll
Ela reconhece que o reality abriu muitas portas para a arte drag no mundo, mas entende que as artistas brasileiras são singulares em relação ao que é apresentado no programa. “Por incrível que pareça, as drags do Brasil não se baseiam tanto em Rupaul’s. Elas têm uma ‘seita’ que é só delas. São diferenciadas, acredito muito nisso”, aponta.
Por ser uma personalidade ativa nas redes sociais, a influencer prefere acompanhar drag queens próximas à sua realidade, pois acredita que buscar essas referências tornam a construção da sua arte possível. Além disso, observa que as plataformas digitais são importantes quando se refere a divulgar o trabalho desses artistas para outros públicos e espaços. “Com a internet a gente consegue se projetar e aos poucos assumir lugares e posições.”
O salto da minha drag tem que ser maior que o seu
A competição entre as participantes pela chance de brilhar dentro do reality faz parte de qualquer versão e temporada do programa. As tentativas de trazer os holofotes para si durante os desafios ou nos momentos de diálogo com a apresentadora são formas que as queens encontram para não serem eliminadas. Em paralelo, a visão distorcida que as pessoas têm dessas artistas e a disputa por espaço dentro da cena artística nas cidades baianas é uma realidade.
“As pessoas falam o que querem da gente, sem se dar conta que é nosso trabalho que está sendo julgado, cada uma se esforçou pra tá ali”, ressalta Lira Olsen ao afirmar que tratam as artistas como competidoras do programa, criando a ilusão de que podem falar qualquer coisa do trabalho delas. Além disso, Olsen aponta que o público do reality usa os mesmos parâmetros do jogo para comparar a arte dessas queens.
“os espaços para drags são muito pequenos, cotados”
tália doll
Em cidades do interior, como Jequié, TáLia Doll diz que ocorre uma disputa por espaço. As poucas drags que existem não são tão receptivas com as novas e o público não está acostumado com essa leva de performers. “Infelizmente, como é uma cidade pequena, a gente não tem muita amizade na cena drag. É muito ‘umbiguista’. Eu falo também por mim, porque os espaços para drags são muito pequenos, cotados”, lamenta.
TáLia complementa que a rivalidade entre as drags da cidade também é alimentada pelo próprio público. “A gente resenha muito. Às vezes, não tem briga uma com a outra, mas as pessoas acham que brigamos porque não estamos juntas ou porque não estamos no mesmo espaço.” Ela acrescenta que em Jequié, as pessoas não buscam entender que esses artistas são plurais e que é muito difícil estarem juntas em todos os lugares o tempo inteiro.
“é para ser família, é para ser arte e não Street Fighter”
kally
Kally compartilha da mesma vivência de TáLia na forma como as pessoas encaram as relações entre as drags nas suas respectivas cidades. “Competição sempre tem. O próprio público impõe competição entre as queens. Ficar rivalizando com todas o tempo todo não, né? É para ser família, é para ser arte e não Street Fighter”, ressalta.
Apesar de ser um meio com algumas intrigas por visibilidade, Lira relata que existe rede de apoio entre drags em Salvador. “Hoje o meu círculo é menor, sabe? Agora eu me monto sozinha, mas antigamente eu fazia dupla com Safira. Existe [irmandade], tem muitas drags que se ajudam, desde que começaram sete anos, dez anos atrás.”
Pimenta na língua arderia menos
Dentre os elementos contidos na arte drag, o famoso shade ou ‘gongação’, é quase que indispensável no convívio de muitas queens. Seu conceito é zombar da outra pessoa de forma engraçada e muitas vezes até ácida. Assim como no dia a dia, em Rupaul’s Drag Race, a relação entre as participantes é rodeada por esses leves insultos que podem gerar rivalidades.
Existem quadros dentro do reality que valorizam sua existência, sendo uma das etapas importantes para evitar a eliminação. Os mini-desafios Library Is Open (A biblioteca está aberta) e Puppets (Fantoches) consistem em leituras da personalidade e feitos das outras candidatas de forma jocosa. Isso ocorre também em um desafio principal, o Roast, que baseia-se em stand-ups cujo intuito é zoar algum jurado ou pessoas ligadas ao programa.
“a gente tem que pensar que o shade não é ofensa, é importante
separar esse bafo”
lira olsen
Durante a convivência de Lira Olsen com outras drags na capital, o ato de gongar é utilizado tanto em desentendimentos nas redes sociais quanto como uma forma de descontração. Além disso, a DJ expõe que é importante que ele esteja sempre na ponta da língua de qualquer artista do meio. “É um dos elementos chave de ser uma drag boa. Mas a gente tem que pensar que o shade não é ofensa, é importante separar esse bafo.”
Em Feira de Santana, Kally tenta lidar de forma amistosa com esse modo de brincar com outras drags. Também alerta que possui artifícios para responder a essa zoação caso ocorra. “Saio blindada de shade. Olhou pra mim, já dou três cambalhotas e um drop. Ou consegue fazer igual pra tentar lançar ou nem tenta”, brinca.
Nem tudo são flores e paetês
Apesar de sua contribuição para comunidade drag, o programa durante muitos anos reforçou a permanência de preconceitos, principalmente a ideia de que mulheres cis e trans não poderiam ser drag queens. Ao longo das temporadas iniciais do show, em relatos emocionantes, algumas participantes revelaram que eram mulheres trans e que precisaram esconder isso para entrar no reality. É o caso de Monica Beverly Hills, participante da quinta temporada da versão norte-americana.
Até 2018, Rupaul declarava que a presença de mulheres não fazia sentido no programa, sob a justificativa de que suas características físicas, como a forma corporal e os seios, seriam vantagens na competição. Além disso, a apresentadora afirmava que a cultura drag é uma cultura de homens cis gays, pois trata-se de uma repulsa da masculinidade.
“eu vi mulheres trans que deixaram de
fazer drag por conta do preconceito”
kally
Para Kally, comentários como esse não se restringem à Rupaul. Ela relata que é uma realidade considerada comum para mulheres trans e travestis que fazem drag. “Eu vi mulheres trans que deixaram de fazer drag por conta do preconceito. Elas não pararam por não estarem cientes de que a arte drag independe de questões de gênero. Estavam cansadas de receber tais ‘pedradas’”, explica a artista feirense.
Entender problemáticas da fala da apresentadora e não debater nas redes sociais foi a melhor forma que a performer encontrou para se preservar. “Eu não dei muito palco [para Rupaul] nessa época. Ir para rede social, pesquisar e debater sobre não me levaria a lugar algum. Então, sim, eu tive a noção no período, mas não fiz questão de acompanhar”, expõe.
Ser drag na Bahia é desmotivador?
Apesar de sua estreia recente, a presença da franquia Drag Race no Brasil é uma esperança para artistas nacionais em busca da valorização dessa arte. Lira Olsen destaca que com o sucesso do programa, casas de show em que queens se apresentam começaram a receber mais pessoas. “A partir do Drag Race, os jovens começaram a se importar. Você via os bares de drags lotados. Não só com bichas mais velhas, mas novas também. Drag é arte, véi, e é importante que a gente seja vista.”

Para TáLia Doll, não ser valorizada é o que mais a desmotiva em relação à arte. “Antes de ir para alguns ambientes, eu penso ‘será que de fato vou ser projetada nesse espaço agora?’ Prefiro prezar pela minha saúde mental do que ir para certos lugares.” A influenciadora também relata que já foi a locais desagradáveis e não recebia nada em troca, pois acreditava que somente assim poderia, um dia, ser reconhecida.
Segundo Kally, a cena drag da cidade faz com que seja desmotivador continuar. “Você vê drag que gasta 400 reais de produção e após o evento recebe 50 reais, que é basicamente o dinheiro da locomoção do meu bairro para o centro da cidade, onde rolam as festas.” Ela encara isso como um desafio, pois considera o valor citado para produção básico para se apresentar.
“muitas não sustentaram o rolê, porque drag é caro e é sobre amar.
É sobre amar a arte.”
lira olsen
Nem tudo na vida de uma drag baiana é baseado em casos negativos. “O que mais me motiva é que eu ainda estou aqui. Eu vou fazer cinco anos de drag. Não foram fáceis, demorou muito tempo pra eu ser reconhecida como artista. Falta muita coisa ainda, não só pra mim, mas para muitas”. O amor de Lira pela arte e o que ela pôde conquistar em seus anos de trabalho impulsionaram sua permanência como artista. “Muitas não sustentaram o rolê, porque drag é caro e é sobre amar. É sobre amar a arte”, reconhece a DJ.
Já a artista feirense diz que o que a motiva são os ‘nãos’ que levou ao longo de sua trajetória. Eles fizeram com que Kally colocasse sua drag como um dos focos da sua vida e incentivou a desenvolver ainda mais sua persona artística. “Todas as pessoas que riram da minha cara e fecharam as portas de oportunidades, me motivaram a conseguir minha primeira lace, primeiro look. Graças a eles, eu nunca vou desistir.”
A Fraude é uma revista laboratorial do Programa de Educação Tutorial em Comunicação (PETCOM) da Facom, UFBA e não possui fins lucrativos. Caso uma das imagens te pertença ou em caso de dúvidas, entre em contato pelo email revistafraude@gmail.com para acrescentarmos a referência ou retirarmos da publicação.

