7 de julho de 2026

A morte de Ivan Ilitch: sobre sentir luto de si mesmo

By In Petalhada

Texto Lis Nessin

Publicado em 07.07.2026

Falar sobre a morte não é exatamente uma tarefa fácil. A morte é dolorosa, feia e deixa marcas irreversíveis naqueles que continuam vivos. Em ‘A Morte de Ivan Ilitch’, o leitor acompanha a história de um homem comum e a sua trajetória durante a vida, até enfim morrer. Inicialmente, essa proposta pode até não soar muito interessante, mas Tolstói traz uma nova perspectiva do que pode ser a morte para quem morre e para quem vive.

Ivan era o filho considerado gênio entre os irmãos, formou-se na faculdade de Direito e ascendeu em sua carreira de forma consistente. Vaidade e orgulho sempre foram seus maiores defeitos, por isso ele passou a construir a sua vida pública baseada no que as pessoas ao seu redor aprovavam ou deixavam de aprovar. E mesmo assim era feliz: ganhava um bom dinheiro, jogava para passar o tempo e vivia bem para o olhar de todos.

Casou-se logo e com uma bela mulher. Apesar de não ter se apaixonado perdidamente, Prascóvia Fiódorvna Michel ainda vinha de uma família tradicional e era uma companhia agradável. Porém, ainda no primeiro ano de matrimônio, as coisas abalaram-se. A mulher se tornou irritante, reclamava constantemente do jeito de ser, das saídas e do emprego do marido. E quando eles tiveram filhos, as coisas pareciam piorar ainda mais. 

Até esse determinado ponto do livro, a história é simples. Claro que é muito interessante acompanhar a relação dos dois, principalmente notando como eles se odeiam. Não que fosse incomum, no século XIX, que os relacionamentos não fossem bons de fato, mas é uma relação tão estranha, que se não fosse tão trágica, seria cômica. 

O ponto de virada se dá quando eles se afundam em dívidas. Não por um motivo espetacular, mas sim porque ele já não recebia tanto quanto gastava. Eu não pretendo detalhar como exatamente é feita a virada de chave para que você, meu caro leitor, ainda tenha interesse em ler, mas saiba que sim, eles conseguem superar isso. E não só conseguem como adquirem uma nova casa, agora mais bonita, com mais empregados e com a decoração ideal para a família. 

Ainda no capítulo IV, ‘A Morte de Ivan Ilitch’ não passa de um romance sobre um homem comum, mas, depois do auge, Ivan começa a adoecer muito. 

A morte de Ivan é dolorosa, lenta e até nojenta. Não é apenas a dor física, mas o fato de que ela nunca cessa, nunca dá trégua, como se o corpo dele tivesse se tornado um lugar inabitável. Não é uma morte fácil de se ler. Até porque é iminente que ele vai morrer, porém ele não quer isso. Tolstói perpassa o sentimento de angústia causado pela morte, pela dor e pelas pessoas ao seu redor. O protagonista sente luto por si mesmo. Na verdade, ele parece ser o único personagem a sentir isso. 

E tinha que viver assim, sozinho, à beira de um abismo, sem ninguém que o entendesse ou sentisse pena dele.

Ao mesmo tempo que a dor, ao longo das páginas, se torna tão lancinante que ele não enxerga outra solução a não ser descansar em um terno de madeira. Mesmo sofrendo tanto, Ivan não entende como seria justo a sua morte. Ele tinha sido um homem bom, tinha feito tudo que esperavam que ele fizesse e ainda sentia-se jovem até pouco tempo. Como era possível que, agora, de supetão, ele fosse esse velho decrépito?

O silogismo que ele aprendeu com a Lógica de Kiesewetter:

“Caio é um homem, os homens são mortais, portanto, Caio é mortal”, sempre lhe pareceu correto quando aplicado a Caio, mas certamente não quando aplicado a si mesmo. 

Que Caio → o homem abstrato – era mortal, estava perfeitamente correto, mas ele não era Caio, não era um homem abstrato, mas uma criatura totalmente separada de todas as outras. […] “Caio realmente é mortal, e, então, é justo que morra; mas para mim, pequeno Vânia, Ivan Ilitch, com todos os meus pensamentos e emoções, é uma questão totalmente diferente. Não é possível que eu precise morrer. Isso seria terrível.”

Esse era o seu sentimento.

Na minha opinião essa leitura é ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️ (5) estrelas. É um livro curto, de linguagem simples e envolvente. Recomendaria inclusive para quem nunca leu um clássico na vida. Ao mesmo tempo que ele cresce pela simplicidade, o tema e a forma como isso é construído é complexo. Eu lembro que no momento da leitura, o sentimento que tive era quase físico, senti uma ansiedade terrível com o passar das páginas. Particularmente aprecio muito as obras que me fazem entrar de cabeça nas histórias, mesmo que através de sentimentos negativos. Dito isso, maravilhoso, leiam ‘A Morte de Ivan Ilitch’ e deliciem-se.

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