Texto por Letícia Mendes
Publicado em 22.07.2026
Há anos, a dança faz parte da minha vida e, há mesma quantidade de tempo, costumo falar dela pelo ponto de vista da identificação. É fácil discorrer sobre como a arte proporciona encontros, realizações e crescimentos.
Hoje, me incomodei ao perceber como limito comentários às partes felizes, como se a motivação pra dançar partisse do conforto. A verdade é que, em uma boa contradição, a vontade de ir embora também sempre me fez continuar.
Me traz completude abraçar o que foge radicalmente do habitual. gosto de embarcar em turbilhões de possibilidades e de não saber o que está pra acontecer. De flutuar como um corpo estranho ou um canal pra uma mensagem que tarda a chegar.
É difícil digerir que não nasci um corpo pronto, moldá-lo exige uma vulnerabilidade complicada de acessar.
A dança chega pra comunicar de forma muito mais que prática, tange o sensitivo. É íntimo. Emocional. É um ato de encarar a si mesmo no puro e falar de dentro.
Falar de sentimentos por vezes invade o que estou disposta a reconhecer. A dança fala quando me vejo incapaz, como uma porta de acesso à zona de desconforto.
Um lugar que completa, desafia, alegra e angustia.
Sou o que sou porque danço. Danço porque me permito estar sujeita ao acaso e, seguindo assim, cada vez mais, anseio estranhar.
