18 de agosto de 2026

O nojo em Gummo: uma ode ao niilismo

By In Petalhada, Sem categoria

Texto por Sophia de Holanda

Publicado em 18.08.2026

Homens carregam um corpo numa maca. Placas improvisadas suplicam ao divino “Com a ajuda do Senhor, bons amigos e trabalho duro, nós vamos voltar”, ao fundo, o que restou da Warner Junior High School. Madeira e metal se amontoam onde antes havia casas. Outras placas surgem nas ruínas: “E o vento levou!” e “Abençoe essa bagunça!”. Ao todo, 39 pessoas morreram.

As fotografias não pertencem a um filme. Foram registradas em Xenia, Ohio, depois que um tornado de categoria F5 atravessou a cidade em 3 de abril de 1974. Durante anos, essas imagens serviram como registro de uma das maiores tragédias naturais da história dos Estados Unidos. Elas parecem anunciar uma narrativa familiar: uma história triste, mas inspiradora, sobre perda e reconstrução. A pequena cidade devastada que, com esforço coletivo, consegue se reerguer e superar a catástrofe.

Harmony Korine não estava interessado nessa história.

Ao decidir ambientar seu filme de estreia, Gummo (1997), em Xenia, mais de vinte anos depois do tornado, o jovem diretor ignora a narrativa de superação que normalmente acompanha adaptações de tragédias desse porte. O que interessa a Korine é a geração criada entre ruínas e as pessoas cuja existência parece tão deteriorada quanto o lugar onde vivem. É como se ele procurasse, dentro da realidade, os fragmentos que melhor servissem à imagem de mundo que desejava filmar. 
Desse processo nasce um clássico do cinema cult, e um dos filmes mais nojentos já feitos.

“Oliver encontrou uma perna no telhado de casa. Muitos pais morreram, mortos pelo grande tornado. Vi uma menina voando pelo céu e olhei por baixo da saia dela. O crânio dela estava esmagado. Algumas crianças morreram. Meu vizinho morreu naquela casa. Nunca encontraram a cabeça dele. Eu sempre achei isso engraçado.”

É assim que o pequeno Solomon, um dos protagonistas, descreve o tornado nos primeiros minutos do filme. Em sua voz há apenas uma banalidade perturbadora. Ele, assim como seu melhor amigo Tummler e os demais personagens, parece ter sido moldado pela podridão ao seu redor: crianças que matam gatos por dinheiro, adolescentes que passam os dias cheirando cola nos sofás empesteados de insetos e adultos consumidos pelo preconceito e brutalidade. As figuras de Gummo não são inspiradoras, e o roteiro insiste em mostrá-las em sua forma mais estranhamente apática, justamente por isso esses personagens não se encaixariam em uma narrativa de superação. Eles vivem imersos no sarcasmo e na ausência total de perspectiva.

Tummler, à esquerda, e Solomon, à direita.


Dialogando com o período em que foi produzido, Gummo pode ser lido como uma ode ao niilismo da contracultura noventista, a partir do retrato de uma geração para a qual as grandes narrativas deixaram de fazer sentido. Enquanto os Estados Unidos atravessavam os anos 1990 sob o discurso do crescimento econômico e da prosperidade, o filme volta seu olhar para um lugar que permaneceu à margem dessa promessa. Xenia deixa de ser apenas uma cidade e ganha na tela o poder de representar um espírito suburbano, onde essa ideia de progresso nunca chegou ou já perdeu o significado.

Essa sensação representa parte da produção cultural da década. Enquanto Hollywood ainda apostava em histórias de ascensão individual, uma geração de cineastas e músicos voltava sua atenção para personagens deslocados, apáticos e incapazes de enxergar algum propósito no futuro. O grunge, impulsionado pela cena musical de Seattle com bandas como Nirvana e Alice in Chains, transformou o desencanto em identidade entre os jovens da época. No cinema independente, obras como Slacker (1990), Kids (1995) – escrita pelo próprio Korine – e Totally F***ed Up (1993), abraçavam a estética “suja” e todo o sarcasmo do grunge para rejeitar qualquer ilusão do famoso Sonho Americano. Gummo nasce dentro desse mesmo contexto, da mente de um jovem skatista da contracultura (endinheirado o suficiente para fazer um filme de 1,3 milhões de dólares), mas leva esse sentimento a um limite pouco explorado.

O esforço em não higienizar o contexto em que o filme é construído se mostra inicialmente nas escolhas de produção. Ele foi filmado em casas reais, apertadas e sujas, nos bairros mais marginalizados de Nashville. As paredes estão mofadas, objetos e restos de comida se acumulam pelos cantos, tudo foi totalmente preservado pela equipe. Há uma claustrofobia constante em todos os ambientes, como se mal houvesse espaço para a câmera e segundo entrevistas da equipe e do elenco, realmente não havia. A fotografia granulada que mistura VHS, Super 8 e 35mm e a montagem fragmentada reforçam a sensação de que o longa tenta preservar o caos em vez de organizá-lo em linearidade. As cenas surgem como lembranças desconexas e logo são interrompidas, nada parece conduzir para um clímax porque a vida daqueles personagens também não parece caminhar para lugar algum.

Por isso o nojo não é acidental. A direção faz essa escolha porque quer que o espectador sinta quase que telepaticamente o incômodo de estar ali, e tenha vontade de desviar o olhar. O cinema sempre utilizou o desconforto como ferramenta audiovisual. Diretores frequentemente constroem cenas estranhas para provocar a sensação de inadequação, o público percebe que há algo errado naquele comportamento. O desconforto, nesses casos, nasce da estranheza da quebra de convenções sociais e audiovisuais. Gummo se aproveita de um extremo pouco comum.

O filme insiste em exibir imagens que costumamos evitar. O elemento do nojo raramente ocupa um papel tão central e óbvio no cinema porque ele ameaça afastar o público, e quando ocupa é geralmente no âmbito da violência compulsiva, como muito utilizado no terror. A maior parte das obras prefere trabalhar o medo, a ansiedade ou a melancolia, emoções que permitem algum grau de identificação, mas Gummo parece pouco preocupado com isso. Ele aceita o risco de tornar a experiência desagradável porque entende que a repulsa à essas imagens transmite uma sensação de impotência profunda que uma abordagem limpa não seria capaz de transmitir.

A sujeira e a degradação compõem um cenário onde quase nada parece ter importância suficiente para provocar alguma mudança. A repulsa acompanha esse esvaziamento: quanto menos sentido existe, mais o filme se aproxima do que há de absurdo, mas muito banal, naquela realidade. É nesse ponto que o niilismo se faz presente. Korine transforma uma cidade devastada em um espaço onde a ausência de futuro se manifesta também na própria forma do filme, naquilo que ele escolhe mostrar e naquilo que se recusa a transformar em esperança.

O nojo é a canalização de um sentimento que ecoa na cultura dos Estados Unidos dos anos 1990, especialmente entre jovens que cresceram cercados pela promessa do Sonho Americano enquanto assistiam ao seu fracasso em todos os espaços da sociedade. Korine encontra em parte da história de Xenia a paisagem perfeita para materializar isso. Uma cidade destruída, uma geração sem perspectiva e uma ambientação única o suficiente para se misturar com a realidade permitem que Gummo transforme o niilismo em uma experiência cinematográfica completa: o espectador não deve apenas observar o caos, ele precisa permanecer impotente dentro dele por noventa minutos. 

 “Venenoso na história; genial nos personagens; vitorioso na estrutura; provocativamente gentil no epílogo; pastelão no tema; rebelde na natureza; honesto no coração; inspirador em sua criação e com desprezo na ponta da língua, é um retrato da vida em uma pequena cidade do interior americano que é ao mesmo tempo surpreendentemente realista e assombrosamente onírico.” Diretor Gus Van Sant sobre Gummo.

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